Quem acompanha esta coluna, já conhece a minha debilidade pela ficção científica, a literatura fantástica, manga, os romances gráficos e de terror. Durante esta temporada, entrevistamos aqui vários escritores e escritoras do gênero. Foi uma grata surpresa conhecer toda a produção literária brasileira no gênero! Sabine Mendes Moura, Nikelen Witter, Peter LaRubia, Ricardo Labuto Gondim e Octavio Aragão, são alguns dos nomes que passaram por esta coluna de Radio Universidad, desvelando tanto talento, garra e literatura além dos autores de língua inglesa.
Na coluna desta semana, trazemos o tema do cinema brasileiro de ficção científica, com a colaboração do professor e crítico de cinema Alfredo Suppia. Com ele, conhecemos a surpreendente cinematografia do gênero made in Brazil. Preparados? Apertem o cinto, decolamos…
Quem é Alfredo Suppia?

Alfredo Suppia é mestre e doutor em multimeios pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp, São Paulo, Brasil) e desde a graduação, pesquisa sobre cinema.
Especializado em literatura brasileira, em língua portuguesa e em jornalismo científico, também trabalhou durante uma temporada como crítico de cinema. Ainda na faculdade, se vinculou ao âmbito da realização, sobretudo, de cinema independente, com baixo orçamento, também com direção, roteiro e montagem.
Desde 2009, é professor de cinema, primeiro, na Universidade Federal de Juiz de Fora (Minas Gerais, Brasil), e desde de 2014, na Universidade de Campinas, onde está até hoje. Alfredo Suppia também é pós-doutor pela Universidade de São Paulo (Brasil) e pela Universidad de Florida (Estados Unidos).
Entre seus trabalhos mais importantes, destacamos alguns livros e capítulos dedicados à história do cinema brasileiro, cinema independente e diversos gêneros cinematográficos e audiovisuais: o que se conhece como “gêneros especulativos”, que inclui fantasia, terror e, principalmente, ficção científica. Destacamos os títulos Atmosfera Rarefeita: A Ficção Científica no Cinema Brasileiro (Devir Livraria, 2013), Golpe de vista. Cinema e ditadura militar na América do Sul (Alameda Editorial, 2018) e Cartografias para ficção científica mundial (Alameda editorial, 2017).



E o Brasil faz cinema de ficção científica?
Na segunda parte da entrevista, falamos sobre a produção de cinema de ficção científica.
Para Alfredo Suppia, hoje em dia, a ideia de um cinema brasileiro de ficção científica não é uma ideia desbaratada, mas nem sempre foi assim. Quando ele começou a pesquisar sobre o tema, em 2003, pensar em cinema brasileiro de ficção científica era algo exótico. De fato, muitas pessoas achavam que este gênero estava a margem da filmografia do país e, mesmo com algumas produções, elas eram catalogadas automaticamente como de outros gêneros. Com a tese de doutorado e os artigos que vieram depois pôde desmistificar essa crença.
Alfredo Suppia afirma que sempre houve cinema de ficção científica no Brasil. É certo que, em ocasiões, e por causa das dificuldades que a indústria cinematográfica do país enfrentava, não encontramos muitos filmes, mas nos últimos 20 anos, eles se multiplicaram e ganharam mais visibilidade. É mais: há séries e filmes que chegaram a ter sucesso como 3%, disponível em Netflix, Branco sai, preto fica, Medida provisoria, Recife frio e a famosa Bacurau, de Kleber Mendoça Filho, que participou de festivais internacionais com ampla exibição em salas comerciais. Todos esses filmes são herdeiros de um cinema que remonta à década de 1940, onde encontramos alguns dos primeiros exemplos de cinema brasileiro de ficção científica, como a comédia de 1947 Uma aventura aos quarenta, de Silveira Sampaio, as chanchadas dos anos 50 e 60, como Os cosmonautas (1966), de Vitor Lima.
E para quem quiser conhecer a evolução do gênero no Brasil, fica aqui a sugestão do entrevistado. Começamos com os filmes de 1962, um ano particularmente bom para o cinema brasileiro, com o início do Cinema novo e a exibição internacional de alguns títulos. Alfredo Suppia destaca dois filmes dessa geração, com boa circulação no mercado interno: O 5º poder, de Alberto Pieralisi, que mistura suspense, espionagem e ficção científica, e a comédia já mencionada, Os cosmonautas, de Vitor Lima. Despois, Brasil ano 2000, de Walter Lima Júnior, de 1969 e a co-produção franco-brasileira de 1972, Quem é Beta?, dirigida pelo mestre Nelson Pereira dos Santos. Seguimos com Parada 88 – O Limite de Alerta, dirigido por José de Anchieta, em 1978, uma eco-distopia bem potente e Abrigo nuclear (1981), de Roberto Pires, cujo argumento, como antes, parte de uma catástrofe nuclear que volta à superfície do planeta totalmente inóspita.






Entre as décadas de 1980-1990 também encontramos algumas produções, mas nada destacável… consequência da crise provocada pelo fim da Embrafilme. Tivemos que esperar até meados dos anos 90, em 96 mais exatamente, para encontrar outro filme relevante, o longametragem de animação Cassiopéa, o primeiro longametragem de animação 100% digital realizado no mundo, dirigido por Clóvis Vieira.
Cinema brasileiro de ficção científica: o futuro já está aqui
E o que temos pela frente? Para Alfredo Suppia, este gênero tem um passado e um presente iluminado e um futuro promissor. Nos últimos 20 anos, encontramos uma presença cada vez mais estável e sofisticada do cinema de ficção científica, com novas gerações de cineastas que dominam os códigos do gênero e apresentam perspectivas interessantes, com um olhar brasileiro sobre um gênero que é universal. Destaca a grande produção de curtas, alguns em âmbito universitário, cheios de talento e novas ideias, sem renunciar ao rigor técnico, e que começam a conquistar um espaço em festivais por todo o mundo. Por isso, ao perguntar, que futuro há para o cinema brasileiro de ficção científica, Alfredo Suppia responde sem titubear, “esse futuro já começou”.