Há umas semanas, começamos um novo ciclo dedicado a escritores e escritoras brasileiras de literatura de terror. Logo depois das férias de Natal, conversamos com Rodrigo de Oliveira, autor da saga “As crônicas dos mortos” , obra com 7 volumes, onde os mortos vivos aprontam em várias cidades do Brasil. Seguimos com Verena Cavalcante, autora de relatos que ficam entre a náusea, a sombra que se vê de rabo de olho e o medo primordial, como demonstra no seu Inventário de Predadores Domésticos.
Esta semana, conversamos com Jaime Azevedo, um escritor ousado e imaginativo, com quem descobrimos que existem coisas que se arrastam, com o propósito que nos alcançar custe o que cueste. Os seus livros se equilibram entre o gore mais grotesco e o lirismo poético, e nos fazem querer fechar a porta com chave… Por precaução…
Jaime Azevedo dissecado

Jaime Azevedo procede de uma família de grandes leitores. Como o pai é militar, a família se mudava constantemente. Ao contrário, a constância dos livros em sua vida, fizeram deles um consolo diante de tantas mudanças. Nasceu em Southampton, no sul da Inglaterra, e com menos de um ano se mudou para o Brasil, onde residiu em Brasília, Rio de Janeiro e Rio Grande do Norte. Foi aí onde de licenciou em Jornalismo, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte.
A escolha pela carreira de jornalista não foi por acaso: Jaime sabía que queria se dedicar a escrever, e o jornalismo lhe dava esa oportunidade. No entanto, coisas da vida, acabou trabalhando mais na área visual, como infografista e diretor de arte em jornais, televisão e assessoria. Atualmente trabalha na UFRN.
Jaime assume que sempre gostou do terror e do fantástico. O seu primeiro ídolo foi Machado de Assis, que para ele é o maior autor da língua portuguesa até hoje. Mas, também gosta muito de Cortazar, Borges, Ítalo Calvino, Kafka e Saramago. Ao contrário do que se podia esperar, diz não ser um grande leitor de Stephen King, geralmente seguido por todos os amantes do terror; diz preferir Neil Gaiman e seu estilo único de contar histórias. E, claro, na mesa de cabeceira não faltam os grandes mestres: Lovecraft e Edgar Allan Poe, para ele, os pilares do gênero.
Jaime Azevedo cresceu nos anos 1980 e, por isso, está muito influenciado pela produção audiovisual do momento: as sagas míticas de terror e gore como Sexta-feria 13, A hora do pesadelo e A matança de Texas, que demonstraram que o macabro poder ser divertido. Assim, o que ele escreve circula entre a literatura pura e o audiovisual, o que enriquece as suas letras.
M. Os contos Gorgônicos

O primeiro livro de Jaime Azevedo se intitula M. Os contos Gorgônicos, recentemente reeditado pela Editorial Serpentarius, um romance de terror, baseado na mitologia grega. Na entrevista, Jaime revela que a obra é uma tentativa de releitura da história da Medusa pela ótica do terror. Trata-se do seu monstro predileto por seu grande impacto visual: uma mulher deformada, com serpentes na cabeça, que transforma em pedra quem olha para ela diretamente.
Essa mistura de elementos fálicos (as serpentes) com a feminilidade desfigurada evoca emoções contrárias, algo que vai além do medo. No fundo, Medusa é uma criatura trágica, porque é uma mulher poderosa a numa sociedade masculina, e representada em forma de abominação. Talvez, pondera Jaime, seja uma espécie de negação do feminino e, por isso, quis explorar as diferentes representações da feminilidade por meio dessa figura.
O livro está estruturado em três partes, três contos dedicados a uma mãe e a cada um dos seus filhos. As histórias se entrelaçan formando uma história maior, de forma que é possível ler os contos separados ou como um todo, o que dá um sentido diferente à história. No romance, Jaime recorre a um gore extremo, ao absurdo, ao grotesco e ao horror, mas também busca um certo lirismo na linguagem, talvez tentando alcançar uma certa poesia, um equilíbrio entre a beleza e o grotesco. Se consegue ou não, o leitor decide.
Tudo o que ama e rasteja

Jaime Azevedo também é autor do romance Tudo o que ama e rasteja, um relato que acontece na cidade imaginária de Schadel. A capa do livro, rosa choque, é um alegato, com uma imagem que vai do erótico ao asco. Jaime cuenta que começou a pensar sobre a história quando teve que ser operado. Na operação, algo saiu mal e terminou internado com uma pancreatitis bem grave. Durante o tempo que esteve internado, começou pensar na ideia de uma doença venérea capaz de transformar os genitais da pessoas em insetos. Só depois veio a cidade de Schadel.
Na entrevista, Jaime afirma que para um autor é libertador dispor de um lugar próprio, porque ali as regras são as suas, e não é necessário pesquisar previamente para tentar retratar com precisão algum aspecto da realidade. Ambientar a história em um lugar que não existe também abre uma porta para a poesia, para jogar com a linguagem, porque o escritor pode descrever o seu mundo inventado como queira, sem necessidade de recorrer a convencionalismos.
Só depois do sucesso de Tudo o que ama e rasteja, Jaime começou a pensar nas possibilidades criativas que a cidade de Schadel lhe oferecia, e foi escrevendo contos que ampliavam o universo do romance original. Dois desses contos, Uma porta para o desejo e A Hora dos Doppelgängers estão disponíveis em Amazon em formato Kindle. Schadel também é o cenário do conto “Brigada da ironia”, publicado numa revista especializada e que reúne acontecimentos anteriores a Tudo o que ama e rasteja. Como Jaime diz no final da entrevista, a cidade de Schadel é a sua particular zona de conforto, onde vai para sentir a tranquilidade necessária para escrever.
Jaime Azevedo: totalmente dissecado
Um autor como Jaime Azevedo, ousado, criativo, culto, que confessa buscar a beleza no feio, como faria um poeta, o que está fazendo no terror? Para Jaime, mesmo que o terror seja o gênero que lhe caracteriza, quando escreve não pensa ser etiquetado com algo em concreto. Quer somente contar uma história e utiliza os recursos que a história necessita para acontecer. Acaba caindo no terror porque é do que gosta, mas na verdade, suas raízes estão no fantástico.

Ainda assim, para Jaime, o terror é como uma cama quentinha e confortável, que conta com fiés seguidores e, por isso, é mais simple alcançar o sucesso se se está bem definido dentro do gênero. Por isso, ele não desdenha do horror, ao contrário: sente-se muito orgulhoso de ser un escritor de terror, mas insiste, não escreve com a ideia de contar uma história de medo. De fato, há quem pense que alguns de seus livros, como O dedo da Santa, não pode ser considerado de terror, porque o argumento é realmente divertido.
Esta busca por um estilo e voz própria faz com que em seus livros se misturem vários gêneros. Por exemplo, Tudo o que ama e rasteja é um coquetel de terror, thriller médico, romance e até um pouco de conto de fadas…
E para fechar, avisamos que em 2023 será publicada uma nova antologia, Terrores Latinos, da editora Luva, na qual Jaime participa com um conto inspirado na lenda venezuelana, e um novo livro relacionado com Tudo o que ama e rasteja, que ainda está em fase inicial. Para acompanhar as novidades, siga o perfil do nosso entrevistado no Instagram [@jaimehazevedo].
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