Autômatos, conspirações, detetives, jornalistas “machadianos” e sociedades secretas: neste episódio do BMQS viajamos a um Brasil que nunca existiu… mas que poderia ter existido. Entramos no universo de Brasiliana Steampunk, criado por Enéias Tavares, professor da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM, Brasil) e pesquisador de literatura clássica, que um dia decidiu colocar os personagens do cânone brasileiro para caminhar — outra vez —, mas em chave fantástica.
Da academia à ficção: o “porquê” de escrever

Enéias Tavares não começou como escritor de gênero, mas como leitor obsessivo… e estudante de Letras. Sua formação acadêmica está profundamente ancorada na literatura clássica inglesa e greco-latina. Traduziu Otelo em seu mestrado, pesquisou os Livros Iluminados de William Blake em seu doutorado…
E, ainda assim, ganhou um prêmio nacional de literatura fantástica com um romance steampunk: Lição de anatomia do temível Dr. Luiz On. Isso se explica porque sua sólida base acadêmica não fica “à parte” de sua obra: transforma-se em uma de suas principais ferramentas criativas. De fato, ao falar de Brasiliana Steampunk, ele o define como um projeto que une as duas faces de seu ofício (a de escritor e a de professor):
Eu costumo descrever [a série Brasiliana Steampunk], por um lado, como uma liga extraordinária com personagens da nossa cultura brasileira, e, por outro, como um projeto de literatura fantástica voltado para professores, para o ensino da literatura.
Enéias Tavares
Nesse ponto, nosso entrevistado faz uma confissão deliciosa. Quando jovem, não suportava os clássicos brasileiros. Como a maioria dos adolescentes, sentia que aqueles escritores “antigos” estavam muito distantes, eram sérios demais… “coisa de prova”.
Brasiliana Steampunk nasce justamente dessa angústia: como fazer com que os clássicos voltem a ser apaixonantes para uma geração marcada pelas telas e por novas formas de leitura? A resposta vem com uma reviravolta inesperada: reinterpretar as obras de Álvares de Azevedo, Inglês de Souza, Emília Freitas, Raul Pompéia, Aluizio de Azevedo, Machado de Assis e Lima Barreto em chave retrofuturista!
Em Brasiliana Steampunk, os personagens mantêm “a música” da obra original: Simão Bacamarte fala com ironia machadiana; Isaías Caminha conserva a sintaxe de Lima Barreto; Vitória Cauã utiliza o vocabulário de Inglês de Sousa…
Trata-se de um experimento literário, mas também linguístico e multimídia, que se desdobra em uma pluralidade de formatos: quadrinhos, vídeos, jogos de cartas e tudo o que se possa imaginar. Essa pluralidade não é um “extra”, mas parte do conceito de narrativa contemporânea que Enéias investigou em seu pós-doutorado:
Hoje as histórias aparecem fragmentadas em diferentes mídias, e muitas vezes é necessário consumir esses diferentes meios para ter uma ideia da totalidade do universo (…) Realizei uma pesquisa de pós-doutorado na Universidade de Coimbra em 2018, justamente para estudar e compreender melhor as narrativas transmídia…
Enéias Tavares
Do crime à aventura: Lição de Anatomia e Partenon Místico


Na parte seguinte da entrevista falamos do livro Lição de anatomia do temível Dr. Luiz On, o primeiro romance de Enéias Tavares, vencedor do prêmio Fantasy entre mais de 1400 manuscritos. Trata-se de um romance policial steampunk ambientado em 1911, em um Brasil alternativo. Enquanto buscava as “vozes” do livro, Enéias se surpreendeu relendo Isaías Caminha, de Lima Barreto, e O alienista, de Machado de Assis, e então surgiu a pergunta: e se houvesse um assassino em série internado no asilo de São Pedro, sob os cuidados de Simão Bacamarte — um alienista alienado, um médico de loucos, ele próprio louco? E se recebesse a visita do jornalista Isaías Caminha disposto a investigar?
Esse é o ponto de partida de Lição de anatomia, um livro “que não trata de quem matou, mas de por que esse assassino confesso, autoproclamado culpado, cometeu esses crimes”.
A Isaías Caminha juntam-se Sérgio e Bento, originalmente de O Ateneu, de Raul Pompéia; Vitória Cauã, de Contos Amazônicos, de Inglês de Sousa; o doutor Benignos, de Augusto Emílio Zaluar… E todos formam uma coalizão de “super-heróis” conhecida como Partenon Místico.
Em 2020, a DarkSide Books publicou justamente a prequela de Lição de anatomia, Partenon Místico, que se passa quinze anos antes, em 1896, e
e narra a origem desse grupo de aventureiros, anarquistas e defensores de causas sociais como a abolição da escravidão, os direitos das mulheres, a educação dos oprimidos, entre muitas outras causas que o grupo defenderá.
Enéias Tavares
Mudança de registro: Serpentes & Serafins e a busca espiritual
Depois de anos no steampunk, Enéias Tavares muda completamente de registro. Assim nasce Serpentes & Serafins, um romance contemporâneo (ambientado em 2002), pós-11 de setembro e pós-pandemia, no qual um comerciante de arte sacra entra em contato com um anjo e um demônio que não apenas respondem às suas perguntas sobre a vida ou os mistérios divinos, mas o conduzem a um apocalipse final. Mas, embora o cenário mude, algumas constantes permanecem: a reflexão sobre a tecnologia, a revisão crítica do passado e as questões éticas sobre o presente.
O romance se passa em 2002, e eu estava muito interessado em abordar precisamente essa questão: como pensamos Deus, como explicamos Deus após acontecimentos globais, catastróficos, que nos fazem questionar se existe uma força divina positiva que vigia nossa existência.
Enéias Tavares
Serpentes & Serafins aborda esses temas, mas também é um verdadeiro road book, no qual o protagonista empreende uma viagem não apenas espiritual, mas também física, que o leva do Brasil à Alemanha, Portugal, Itália — e até a Madri! Para quem tiver curiosidade, a DarkSide Books mantém um blog no qual Enéias assina a coluna “Na Estrada com Serpentes e Serafins”, detalhando as paradas dessa jornada.
Ofício, disciplina e prazos: quando uma história termina
Essa parte da entrevista é ouro puro para quem escreve (ou tenta escrever em meio a mil tarefas). Enéias explica que procura escrever diariamente, mas em blocos curtos, pois escrever por períodos prolongados torna-se mentalmente exaustivo. Por isso, concentra a parte criativa do trabalho nas duas ou três primeiras horas do dia e depois dedica-se a outras atividades: traduções, tarefas administrativas. E conclui com uma frase que merece destaque: “Projetos artísticos nunca se terminam, abandonam-se.” No seu caso, o que realmente marca o ponto final é o deadline, o prazo de entrega, que o obriga a planejar… e a concluir. Como ele próprio afirma, a disciplina é fundamental em qualquer profissão — e não poderia ser diferente na escrita.
Isso vem muito a propósito, já que Enéias Tavares está trabalhando no terceiro livro de Brasiliana Steampunk: um volume ambientado em 1905, em formato de antologia, com cinco histórias e viagens por diferentes regiões do Brasil… e com uma preocupação muito atual em chave retrofuturista:
o fio condutor será o uso que fazemos das tecnologias e, em especial, os riscos e ameaças da inteligência artificial.
Enéias Tavares
Para saber mais
- Universo e materiais de Brasiliana Steampunk (site oficial): apresentação do mundo, personagens e expansão transmídia.
- Coluna “Na Estrada com Serpentes & Serafins” (DarkSide Books): textos do autor sobre os lugares e etapas do romance.
- Exposição “Steampunk Brasileiro” (UFSM / Silveira Martins): informações sobre a mostra (incluindo sua vertente virtual) e seu enfoque histórico-cultural.
- Farol: newsletter sobre criatividade, escrita e narrativas assinada por Enéias Tavares.
- O movimento steampunk brasileiro: catálogo da exposição de Marcos Sanchez, no âmbito do programa de Residência Artística de Fotografia do CEB.
- Podcast do BMQS: A literatura “punk” brasileira, entrevista com a escritora Nikelen Witter e entrevista com o autor de Pantokrator, Ricardo Labuto Gondim.
Música no programa
BioBrasil é uma coluna do programa Brasil es mucho más que samba dedicada a divulgar a biografia de expertos, profissionais e personagens (históricos e atuais) da vida cultural, política e social brasileira. Brasil es mucho más que samba se emite todas às terças-feiras, às 17h30, em Rádio USAL. Para sugerir uma pauta ou contatar com a equipe do programa, escreva ao masquesamba@usal.es