BioBrasil: entrevista Fabiola Bertolini de Moura

Conversamos com Fabiola Bertolini de Moura sobre o documentário dedicado à poeta, dramaturga e roteirista brasileira Renata Pallottini.

Nesta emissão do BMQS, aproximamo-nos da figura de Renata Pallottini, uma das grandes vozes da cultura brasileira do século XX. Poeta, dramaturga, tradutora, roteirista e professora, Pallottini construiu uma trajetória extraordinária… que, no entanto, nem sempre recebeu o reconhecimento que merece.

Sua vida e sua obra são o eixo do documentário ¡Viva Renata! Amor, poesia e anarquia, dirigido por Pedro Vieira e producido  producido por Espaço líquido. Um projeto que nasce, precisamente, da necessidade de recuperar sua memória e devolvê-la ao lugar que lhe corresponde.

Para isso, contamos com Fabiola Bertolini de Moura, mestre em Teoria Literária pela Universidade de São Paulo (USP, Brasil), editora na Bloomberg News e colaboradora próxima do diretor, que nos guia pelo universo criativo e vital desta autora fundamental.

Contra o esquecimento

Foto: https://www.espacoliquido.com.br/

O documentário nasce de uma inquietação muito concreta: o esquecimento. Apesar de ter publicado mais de trinta livros, de ter sido professora emérita da USP e de ter recebido alguns dos prêmios mais importantes do Brasil, Renata Pallottini continua sendo uma autora pouco difundida, mesmo em seu próprio país.

Com este filme, Pedro Vieira (Pedrão) não apenas reivindica sua obra, mas também sua memória, seu papel transgressor e necessário em uma época em que não havia lugar para aqueles dispostos a romper os esquemas estabelecidos. Como explica o próprio diretor:

O que me moveu a fazer foi ver o apagamento da memória de uma das maiores poetas do Brasil pelo tempo, pelo abandono, pela falta de apoio à cultura e à memória nacional, de uma forma geral (...) uma grande poeta, a maior poeta do Brasil, e uma pessoa totalmente desconhecida.

O filme é construído, além disso, a partir de uma decisão fundamental: dar voz à própria Renata. Por meio de material de arquivo e entrevistas, é ela quem narra sua história em primeira pessoa, acompanhada por vozes próximas que ajudam a reconstruir sua trajetória.

Uma figura profundamente revolucionária

Mas quem foi Renata Pallottini? Fabiola Bertolini de Moura a define, sem rodeios, como uma figura revolucionária. Uma mulher que escreve, cria e se posiciona em um contexto marcado pela censura, pela desigualdade e pela repressão.

Ela foi, além de escritora, poeta, dramaturga, tradutora, roteirista de televisão, feminista, lésbica. E tudo isso durante a ditadura militar brasileira, em um ambiente repressivo, machista e de censura.

Desde sua passagem pela Faculdade de Direito —um espaço profundamente masculino— até sua decisão de abandonar essa carreira para se dedicar à dramaturgia nos anos 1950, sua trajetória é marcada por escolhas corajosas e pouco convencionais. A isso se soma seu papel fundamental na construção da televisão brasileira, com projetos como Vila Sésamo ou Malu Mulher, bem como sua contribuição para a contracultura com a adaptação do mítico musical norte-americano Hair.

Amor, poesia e anarquia

O título do documentário —amor, poesia e anarquia— não é casual. Como explica Fabiola, essas três palavras condensam o núcleo da obra de Pallottini: “O amor é a origem de tudo (…) o amor é realmente de onde ela bebe para fazer a sua arte”.

E, se o amor aparece como motor da criação, como vínculo com o mundo e como expressão de sua identidade, a poesia atravessa toda a sua produção. Não apenas como gênero, mas como forma de pensar e construir a linguagem, com uma precisão e uma sensibilidade que definem sua escrita.

Por fim, a anarquia: uma resposta ética e política a um contexto de censura e violência. “Em nenhum momento podemos esquecer que estamos falando de uma arte de resistência (…) de uma flor que nasce entre o asfalto, como diria Drummond”, comenta Fabiola.

Um retrato íntimo e sem artifícios

Foto: https://www.espacoliquido.com.br/

Um dos aspectos mais singulares do documentário é sua dimensão íntima. Longe das representações idealizadas, Pallottini aparece como uma mulher mais velha, sem maquiagem, em espaços cotidianos. Uma presença autêntica em que o que brilha “é o poder da palavra de Renata, o poder de sua clareza, da certeza, da segurança, da poesia”.

Fabiola de Moura estabelece ainda um vínculo pessoal com a autora, destacando como determinadas experiências —como a passagem pela universidade ou o contato com ambientes culturais abertos— são decisivas na formação intelectual e vital.

Também ressalta a naturalidade com que Pallottini vive sua identidade sexual e seus afetos, bem como a simplicidade que define sua figura pública.

Espanha como ponto de inflexão

A relação de Renata Pallottini com a Espanha ocupa um lugar central no documentário. Sua estadia em Madrid entre 1959 e 1960 representou um ponto de inflexão em sua trajetória. Ali encontrou um espaço de relativa liberdade que lhe permitiu repensar sua vida e sua carreira.

Ao retornar ao Brasil, abandonou definitivamente o Direito para se dedicar à escrita e ao teatro. Além disso, seu vínculo com a Espanha se reflete em seu trabalho como tradutora e adaptadora de autores como Cervantes ou Calderón de la Barca, a quem contribuiu para difundir no contexto brasileiro.

Para saber mais

Entrada no site do Museu Brasileiro da Rádio e Televisão dedicada a Renata Pallottini. Muito útil para conhecer sua produção teatral e televisiva (Hair, Malu Mulher, Vila Sésamo, etc.).

Entrevista com a autora. Texto interessante sobre seus inícios, formação e evolução como escritora:
Vasconcelos, A. L. Renata Pallottini, escritora, poeta, educadora. Vitabreve. Revista Digital de Arte e Cultura. Disponível em: https://vitabreve.com.br/artigo/183/renata-pallottini-escritora-poeta-educadora/

Informações básicas e acesso à sua obra no blog oficial de Renata Pallottini.

BioBrasil é uma coluna do programa Brasil es mucho más que samba, dedicada a divulgar a biografia de especialistas, profissionais e personagens (históricos e atuais) da vida cultural, política e social brasileira. Brasil es mucho más que samba é transmitido pela Radio USAL, todas as terças-feiras às 17h00 (hora local). Para sugerir um tema ou entrar em contato com a equipe do programa, escreva para masquesamba@usal.es.

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