O samba da minha terra: Ary Barroso

Esta entrega de “O samba da minha terra” está dedicada a um dos maiores nomes do samba brasileiro, Ary Barroso.

No programa anterior, emitimos uma entrevista bacana demais com Angela Zoe, a documentarista brasileira, que assinou dois documentários sobre o samba. O mais recente, “Alcione. O samba é primo do jazz”, que ainda não está disponível por aqui, e outro, intitulado “Ele era assim: Ary Barroso”, de 2019. E com motivo da entrevista, mas também do filme, hoje falamos sobre Ary Barroso, um dos grandes nomes da composição da música popular brasileira, de sambas inesquecíveis, títulos que marcaram a nossa história.

O documentário “Ele era assim: Ary Barroso” reúne imagens de arquivo, vídeos, áudios do próprio Ary Barroso (verdadeiras raridades) contando sobre a própria vida. Mas não somente, o documentário de Angela Zoe traz também uma entrevista com Márcio Barroso, neto de Ary Barroso, e o grande Ney Matogrosso. Em 52 minutos de vídeo, conhecemos um Ary Barroso flamenguista, desses que aposta o bigode no resultado do jogo, versátil, atuando no palco e no rádio com a mesma maestria.

Ary Barrosonasceu em 7 de novembro de 1903, em Ubá, uma cidade no interior de Minas Gerais. Faleceu em 9 de fevereiro de 1964, no Rio de Janeiro, para onde havia se mudado com 17 anos para estudar Direito. Depois de uma vida estudantil irregular, finalmente se formou na que atualmente é a Universidade Federal do Rio de Janeiro, mas a vida boêmia falou sempre mais alto: quando a grana apertou, começou a atuar nos Cinemas – recorde-se que era a época que as orquestras acompanhavam os filmes -, e daí para os palcos, salas de concerto, e até para o rádio como locutor esportivo e conduzindo programa de calouros, foi um pulo.

Há um fato especialmente interessante na vida de Ary Barroso. Em 1938, ele compôs a música “Na Baixa do Sapateiro”, que foi gravada em inglês por Nestor Amaral para o filme Você já foi a Bahia?, produzido pela Disney, em 1944. O filme em inglês se chama The Three Caballeros e combina live-action com desenho animado, numa espécie de viagem do Pato Donald pela América Latina. E eis que aí sai uma figura tão conhecida e querida em terra brasilis, o Zé Carioca. A música “Na Baixa do Sapateiro” parece mais uma obra de Dorival Caymmi, afinal, como é que um mineiro migrado ao Rio de Janeiro canta a Bahia dessa forma? E não foi a sua única composição dedicada à Bahia: Ary Barroso assinou também, dois anos antes, em 1936, a música “No tabuleiro da baiana”. O caso é que Ary Barroso passou uma curta temporada nos Estados Unidos compondo para o cinema americano, e chegou a ter uma de suas músicas indicadas ao Óscar, a música “Rio de Janeiro”, do filme Brasil, de 1944.

E essa estada nos States tem a ver com um fato inusitado: em 1939, Ary Barroso compôs o seu maior sucesso e, sem dúvida, umas das músicas brasileiras mais conhecidas dentro e fora do país, “Aquarela do Brasil”, que inaugura uma sequência de músicas que conhecemos como “samba-exaltação”. No documentário de Angela Zoe, Marcio Barroso, neto do nosso ilustre, diz que o lançamento da música foi numa peça de teatro, a peça Joujoux e balangandans, patrocinada por Darcy Vargas, a esposa de Getúlio Vargas. Apesar de contar com pesos-pesados da música brasileira, com a voz de Francisco Alves, arranjos de Radamés Gnattali e lançada pela Odeon Records, a música passou desapercebida, o que lhe pareceu muito mal ao compositor, que estava convencido ter criado uma obra maestra. A música ficou, como diz Marcio Barroso no documentário, adormecida uns anos, até que Walt Disney ao chegar no Brasil, escutou a música no aeroporto, e quis conhecer o autor. O sucesso veio quando a música foi incluída na animação Saludos amigos, da Disney de 1942, que é o filme com a primeira aparição do Zé Carioca.

Teríamos muito de que falar sobre Ary Barroso, inclusive sobre a sua atuação como político – em 1946 chegou a ser vereador na cidade do Rio de Janeiro -, sua relação com grandes nomes da música brasileira a partir da década de 1930, e inclusive falar de muitos outros títulos seus que, talvez, muita gente nem saiba que são seus, como a música “Rancho fundo”, em colaboração com Lamartine Babo, e que foi imortalizada nas vozes de Chitãozinho & Xororó.

Se quiser conhecer mais sobre a vida e a obra de Ary Barroso, recomendamos o documentário de Angela Zoe, “Ele era assim: Ary Barroso”, de 2019. A informação completa sobre o documentário está disponível na página da Documenta Filmes.

Compartir

Relacionado:

No último programa da temporada entrevistamos o fotógrafo brasileiro Luiz Maia, quem presenta o impactante projeto “Quem sou eu”.
A última entrega de #OSMT antes das férias dedica um especial a uma das maiores intérpretes de samba, Aracy de Almeida.
Entramos no universo dos quadrinhos brasileiros com cinco jovens e talentosas autoras, que você deve conhecer.
Conversamo com Nikelen Witter, escritora, historiadora e professora da Universidade Federal de Santa Maria e uma das mais importantes representantes do gênero steampunk no
Anterior
Próximo