Especial: entrevista com Alexandre Macchione Saes sobre o Portal 3×22.

Emissão especial com uma entrevista ao professor Alexandre Macchione Saes, da Faculdade de Economia da Universidade de São Paulo, sobre o Portal 3x22.

Nesta entrega especial de Brasil es mucho más que samba, trazemos uma entrevista com Alexandre Macchione Saes, professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (USP, Brasil), que foi vice-diretor da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin entre 2017 e 2020, e atualmente é o coordenador do Portal 3×22, tema da nossa conversa.

O Portal 3×22 é uma iniciativa que surgiu em 2017, na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, com um grupo de professores e pesquisadores que se propuseram a pensar, a trabalhar sobre três temporalidades da história do Brasil: 1822 – ano da Independência do Brasil -, 1922 – ano de celebração da Semana de Arte Moderna – e 2022.

A entrevista está estruturada em quatro blocos temáticos, nos quais o Prof. Alexandre Saes apresenta oPortal 3×22 e conta sobre as atividades que desenvolvem.

Na primeira parte da entrevista, além de explicar o que é e como surgiu oPortal 3×22, Alexandre Saes fala sobre a Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin. Para quem não conhece, a biblioteca pertence à USP e alberga um acervo impressionante sobre o Brasil, com manuscritos, periódicos, mapas, livros e muito mais.

Sobre a construção do projeto, Alexandre Saes diz:

A ideia era que a gente pudesse antecipar a data de 2022, pensando sobre o Bicentenário da Independência e o Centenário da Semana de Arte Moderna, no sentido de produzir conteúdo, produzir reflexão e preparar as discussões que em 2022 vão ser as mais diversas. Eu acho que até por conta do contexto político, essas versões sobre a Independência, sobre a Semana de Arte Moderna, serão muito disputadas

Alexandre Macchione Saes

Sobre as atividades que oPortal 3×22 desenvolve, Alexandre Saes explica que, em linhas gerais, há dois conjuntos de iniciativas: seminários e atividades de transferência de conhecimento. A organização dos seminários partiu da própria comissão doPortal 3×22, e abordavam temáticas sobre a Independência e a Semana de Arte Moderna. Para a realização dos seminários, oPortal 3×22 contou com importantes parcerias, com o Instituto de Estudos Brasileiros, a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, ambos da USP, com o Sesc e o Instituto CPFL, para os cafés filosóficos.

A partir dos materiais resultado dos seminários, foram sendo produzidas publicações, que discutem a Semana de Arte Moderna e a Independência, mas também temas mais contemporâneos.

Ainda na linha de publicações, temos o prêmio tese e dissertações, resultado da chamada para receber trabalhos sobre a Semana de Arte Moderna e a Independência. Atualmente, dois livros já estão disponíveis no site e o restante será publicado ao longo de 2022. O segundo conjunto de atividades começa a ser organizado a partir de 2018. Com o apoio da Pró-reitoria de Cultura e Extensão da USP, oPortal 3×22 pode contar com bolsistas de graduação, que começaram a desenvolver uma série de atividades que estão já no site.

a ideia com os alunos era traduzir aquilo que a gente vinha trabalhando e levar, de uma maneira mais acessível, para uma discussão mais ampla fora da universidade.

Alexandre Macchione Saes

Com os bolsistas, foi possível produzir os boletins -publicações com uma linguagem mais acessível -, muitos a partir de entrevistas com professores ou trabalhadores de organizações sociais. Entre as temáticas contempladas nos boletins, temos: pluralidades indígenas e a questão racial. Mais recentemente, outro projeto criado com os alunos e em parceria com o setor educativo da Biblioteca Brasiliana, com a curadoria de João Cardoso é o “200 livros para pensar o Brasil”. A partir do texto “10 livros para conhecer o Brasil”, de Antonio Candido, a equipe foi pensando em temas para trazer autores reconhecidos e outros que foram menos prestigiados ao longo do tempo. É uma espécie de “voos temáticos”, para o qual um tema é selecionado, se elabora uma apresentação para situar o leitor no tema, seguida de uma lista de sugestão de seis a dez livros, que abordam a temática.

E a última grande iniciativa tem a ver com a construção de um diálogo mais intenso com o público jovem e escolar. A primeira atividade resultado dessa iniciativa se chama “Kits didáticos”. Para a sua elaboração, a equipe doPortal 3×22 contou com a parceria do laboratório de material didático da História, do Departamento de História da USP, coordenado pela professora Antonia Terra. Os kits foram elaborados pelos bolsistas daBiblioteca Brasiliana e do laboratório, e têm uma pequena apresentação de um tema e depois a recomendação de uma série de materiais, como documentos, jornais, música, imagens, para que o aluno tenha roteiro de questões para se inserir numa determinada temática e consiga analisá-la criticamente.

As temáticas presentes nos kits são aquelas que estão mais ausentes do currículo escolar, além de outras que possam dialogar com aquilo que o professor já usa em sala de aula, por exemplo, o tema da Independência, “Independência(s) em disputa no Brasil“. Nesse caso, se trata de um tema muito presente no currículo,

mas a nossa ideia é mostrar como as versões da Independência também são frutos de debates e disputas. Então, a gente mostra como a construção de uma ideia de Independência lá no século XIX construiu os personagens, como isso foi reposto durante o centenário em 1922, e depois, no período militar isso vai ser reposto, reconstruído, personagens e versões etc. E como hoje, ou talvez no período de redemocratização para os dias atuais, o que se tem valorizado muito mais é não uma Independência, mas a sua pulverização, mostrar a complexidade do processo de Independência. Então, a gente termina com uma discussão sobre a questão da Independência, e o Dia 2 de julho da Bahia, em 1823, quer dizer, um ano depois da Independência, o processo continua, tem disputa. Então, eu acho que é uma forma talvez de estimular e problematizar aquilo que é o ensino usual nos currículos das escolas

Alexandre Macchione Saes

A partir daí, a equipe dá um passo mais e cria o “3×22 na escola”, com o apoio da professora Janice Theodoro, professora aposentada do Departamento de História da USP. O objetivo desse projeto é elaborar “um material didático que olhasse para os temas contemporâneos, para os grandes desafios contemporâneos, buscasse nessa construção histórica a análise desses temas contemporâneos e de maneira interdisciplinar”. Atualmente, o Portal 3×22 oferece três módulos no site: sobre cidadania, meio ambiente e desigualdade. Todos esses módulos, a partir da temática principal, oferecem um “diálogo mais próximo com alguma área do conhecimento, mas todos fazem essa análise a partir das temporalidades”. Para 2022, as atividades previstas são a conclusão das publicações e a realização de oficinas com professores da rede escolar para testar o material didático elaborado.

A terceira parte da entrevista foi sobre a relação com a Biblioteca Brasiliana. A reflexão do professor Alexandre Saes é muito interessante, porque coloca no centro do debate o papel de uma biblioteca no século XXI. Para o professor, em primeiro lugar, a biblioteca ainda é um espaço fundamental e seguro para a preservação do conhecimento. Além disso, para ele “a biblioteca do século XXI precisa ser um espaço não só para a consulta, mas também para apoio, para curadoria de consulta”. No caso da Biblioteca Mindlin, o setor de mediação cultural apoia a iniciativa de pesquisadores para a difusão de seu acervo. Por exemplo, a biblioteca ofereceu uma exposição sobre Machado de Assis, com peças e obras pouco conhecidas pelo público geral.

E para fechar a entrevista, compartilhamos uma reflexão do Prof. Alexandre Saes sobre entrecruzamentos e continuidades entre as três temporalidades: 1822, 1922 e 2022. O que elas compartem? Para Alexandre Saes, um país como o Brasil tem grandes permanências: entre elas, a desigualdade, a relação predatória e extrativa com o meio ambiente e as vozes silenciadas.

Então, os grandes marcos ainda têm um pouco desse contar a história a partir de um tipo de visão. O que a gente de alguma forma tentou estimular, que é algo também muito presente na nossa historiografia atual, foi justamente tentar tornar mais complexa a versão sobre o passado, sobre a construção da nossa sociedade. E com isso, ao problematizar, conseguir captar outros projetos de futuro, que foram silenciados, abandonados, derrotados, ao longo do tempo, para tentar construir novos projetos de futuro. (…) Uma tônica que a gente colocava desde 2017, 200 anos e o que comemorar? E como comemorar?

Alexandre Macchione Saes

As perguntas que fecham a entrevista são complexas e de difícil resposta, mas, sem dúvida, para tentar respondê-las é fundamental aprofundarmos no conhecimento da sociedade e da história do Brasil.

Agradecemos ao professor Alexandre Macchione Saes pela oportunidade da entrevista.

Feliz 2022!

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