Encerramos as emissões de 2023 em Rádio Universidad de Salamanca, com a segunda parte da entrevista com a pesquisadora brasileira Ana Venancio, da Casa de Oswaldo Cruz (COC, Fiocruz, Brasil). A primeira parte da entrevista esteve dedicada a conhecer a trajetória profissional da pesquisadora que há mais duas décadas pesquisa temas relacionados com a história da psiquiatria e saúde mental, e a sua produção científica, em grande medida marcada pelo diálogo com profissionais da Red Iberoamericana de Historia de la Psiquiatría.
Atualmente, Ana Venancio realiza pesquisas de pós-doutorado em Madri, como pesquisadora bolsista pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES, Brasil), com a supervisão do pesquisador do Consejo Superior de Investigaciones Científicas (CSIC, Espanha), Dr. Rafael Huertas , no Instituto de Historia del Centro de Ciencias Humanas y Sociales do CSIC.
No âmbito da história da psiquiatria, Ana Venancio pesquisa sobre os diagnósticos psiquiátricos e a construção social da diferença. Esse tema parte de duas ideias principais: em resumo, a primeira tem a ver com a ciência como um produto cultural historicamente determinado, ou seja, “não apenas dos avanços tecnológicos e do conhecimento que existe em cada lugar e período histórico, mas ela também é a expressão das ideias, do imaginário de cada cultura e época”. Assim:
Assim, a ciência não está apenas encastelada no laboratório, ela está em constante interação com a sociedade de vários modos, e um desses modos é a troca de ideias entre conhecimento científico e saberes não científicos sobre as coisas e eventos do mundo que nos cerca.
Ana Venancio
O segundo aspecto se relaciona com as classificações: o ato de classificar o mundo é uma prática das sociedades para distinguir objetos ao redor:
O ato de classificar e organizar o mundo serve para estabelecer parâmetros de diferenciação entre objetos e coisas, e desses parâmetros se produzem, então, os sistemas simbólicos de representação e a sua atuação no mundo, que são cotidianamente acionados pelas pessoas que participam deste mundo.
Ana Venancio
Nesse momento da entrevista, Ana Venancio chama a atenção para algo muito importante: distinção não significa hierarquizar. Assim, as categorias diagnósticas e os princípios de distinção se estabelecem a partir de parâmetros científicos, mas também sociais.
Assim, esse tema da pesquisa sobre diagnósticos psiquiátricos e construção sociocultural das diferenças busca compreender como a definição científica de fenômenos considerados como um evento de loucura ou doença mental estiveram culturalmente, historicamente, articulados a distinção entre o que deveria e o que não deveria ser considerado como fenômeno doentio em cada época e período histórico.
Ana Venancio
E com relação ao contexto brasileiro? O tema da saúde mental nas Ciências sociais brasileiras teria sido abordado em três períodos: as primeiras obras, conhecidas como clássicos começaram a ser publicadas a finais do século XIX e na primeira metade do século XX, por médicos psiquiatras. Essas obras ofereciam uma visão tradicional, linear, da história: “buscavam mapear as origens da psiquiatria, seus personagens ilustres e grandes méritos”. O segundo conjunto de trabalhos sobre a história da psiquiatria se conhece como de “rupturas”, porque se tratava de uma produção analítica sobre a história da psiquiatria influenciada pela obra de Michel Foucault, que foi abrindo caminho no Brasil a partir de finais da década de 1970.
Seus primeiros autores são em sua maioria filósofos ou profissionais do campo psiquiátrico, que buscavam a ruptura política e clínica com o poder disciplinar que a psiquiatria asilar representava. Além disso, a partir desse momento as proposições foucaultianas também ganhavam repercussão dentro do campo da história, do campo intelectual da história brasileiro mais amplo, e não apenas sobre a história da psiquiatria
Ana Venancio
Quase em paralelo com esses últimos estudos, vemos surgir, a partir da década de 1980, pesquisas de orientação cultural realizadas especialmente por historiadores e antropólogos. Esses estudos incluíam sujeitos até então anônimos, como os trabalhadores de instituições psiquiátricas, pacientes; entre esses estudos, Ana Venancio destaca os trabalhos da historiadora Maria Clementina da Cunha, de 1986, sobre o Hospital Juqueri, de São Paulo.
Finalmente, a partir do início do século XXI, os temas de saúde mental ganham em referencial analítico e diversidade de fontes primárias: o primeiro tem a ver com as abordagens da perspectiva da História das Ciências, e a segunda, com a ampliação de fontes “que a fala desses personagens seria mais evidente, como diários cartas e qualquer outro tipo de fonte escrita pelo próprio paciente”.
E quais recursos temos para pesquisar temas relacionados com a saúde mental e a história da psiquiatria? Na entrevista, Ana Venancio nos dá algumas pistas: para pesquisas mais contemporâneas, é possível utilizar as biografias, as histórias de vida, com médicos, trabalhadores, pacientes etc. Para análises históricas, Ana Venancio recomenda a consulta do repositório da Biblioteca Virtual em Saúde, História do Patrimônio Cultural da Saúde, que reúne acervo documental com teses médicas da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, entre os séculos XIX e XX. Outro tipo de fontes são os periódicos especializados, revistas médicas e psiquiátricas, e alguns títulos estão digitalizados e disponíveis na seção da Hemeroteca digital da Biblioteca Nacional brasileira.
Na última parte da entrevista, falamos sobre o livro O Hospício da Praia Vermelha. Coorganizada com o historiador Allister Teixeira Dias, a obra é resultado do projeto de pesquisa “Do Hospício de Pedro II ao Hospício Nacional de Alienados: cem anos de histórias (1841-1944)”. Como principais resultados desse projeto, destacamos aqui a base de dados “História e Loucura”, um repositório com informações arquivísticas coletivas sobre documentos legislativos, administrativos e clínicos; e a obra coletiva O Hospício da Praia Vermelha, que entrega uma análise dos dois lados da instituição, a científica e assistencial.
Ao longo da entrevista, compreendemos que a saúde mental – como objeto de pesquisa das Ciências sociais – e a história da psiquiatria são um campo frutífero de estudos no Brasil, como assegura Ana Venancio, porém ainda há muito que se fazer: identificação, catalogação e disponibilização de acervos documentais de instituições psiquiátricas, além de pesquisas e abordagens, que coloquem os temas e objetos investigados em diálogo com estudos realizados para outras regiões.
E como un camino de mil millas comienza con un paso…
Entrevista sobre o livro O Hospício da Praia Vermelha (2022, Ed. Fiocruz, Editora Unifesp).
Russo, J., & Venancio, A. T. A. (2006). Classificando as pessoas e suas perturbações: a revolução terminológica do DSM III. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, 9(3), 460-483.
Venancio, A. T. A. (2022). La historia en los documentos clínicos psiquiátricos: entre la serie documental y la singularidad de los casos. In T. Ordorika Sacristán, & A. Golcman (Coord.). Locura en el archivo: fuentes y metodologías para el estudio de las disciplinas psi. México: Universidad Nacional Autónoma de México, Centro de Investigaciones Interdisciplinarias en Ciencias y Humanidades.
Venancio, A. T. A. (2022). Trabajar la tierra para curar la mente en el sertão carioca: la Colonia Juliano Moreira, 1912-1981 (pp. 445 – 496). In A. Ríos Molina, & M. H. Honorato (Orgs.). De Manicomios a Instituciones Psiquiátricas: experiencias en Iberoamérica, siglos XIX y XX. México -Espanha: UNAM- Silex Ediciones.
Venancio, A. T. A. (2015). O asilo e a cidade: histórias da Colônia Juliano Moreira. Rio de Janeiro: Ed. Garamond.