BioBrasil: Entrevista a Mariana Salomão Carrara

Neste podcast, aproximamo-nos de uma das vozes mais interessantes da literatura brasileira contemporânea.
Foto: Renato Parada

Neste podcast do BMQS, aproximamo-nos de uma das vozes mais interessantes da literatura brasileira contemporânea: a escritora Mariana Salomão Carrara. 

Nascida em São Paulo em 1986 e defensora pública, Carrara é autora de uma obra que, sem fazer muito ruído, vem conquistando um espaço próprio dentro do panorama literário brasileiro. Seus livros —entre os quais se destacam Se Deus me chamar não vou e É sempre a hora da nossa morte amém— constroem narrativas que partem de situações aparentemente simples, mas que aos poucos revelam uma grande complexidade emocional.

Em sua literatura encontramos temas como a solidão, a fragilidade dos vínculos, a memória ou a dificuldade de compreender o outro. Tudo isso através de uma escrita delicada, muito cuidadosa, mas que não evita o desconforto. Na entrevista conversamos com ela sobre seu processo criativo, seus temas, seus personagens… e sobre aquilo que dá forma à sua escrita.

Capítulo 1: A origem

Nossa primeira pergunta girou em torno da origem de sua escrita. Queríamos saber como nasce um texto em seu caso: se parte de uma história, de uma voz ou de uma imagem inicial. Mariana nos explica que não existe uma única forma de começar a escrever. Em seu caso, tudo costuma partir de um tema que lhe interessa, algo que permanece no fundo de seus pensamentos até entrar em contato com uma imagem, uma situação ou uma experiência concreta. É nesse momento que essa ideia começa a ganhar forma e se transforma em algo mais físico, mais urgente, quase em uma necessidade de escrita.

Para mim, a escrita vem da própria escrita, né? Eu não faço um planejamento, não consigo pensar em abstrato um livro se eu não estiver com a mão no teclado, né? As frases, a linguagem vai me produzindo o enredo e as próprias narradoras.

Capítulo 2: A obra

Foto: Editora Nós

Em seu romance  Se Deus me chamar não vou  (Nós, 2019), finalista do Prêmio Jabuti em 2020, Mariana Salomão Carrara constrói a história através da voz de uma menina. Perguntamos a ela sobre esse recurso narrativo, sobre o uso do olhar infantil para contar histórias complexas.

Em sua resposta, Mariana nos conta que essa personagem surgiu quase espontaneamente, a partir de um exercício de escrita. Mas o interessante é que ela escolheu uma idade muito específica, os onze anos, porque é um momento de transição em que ainda não se compreende totalmente o mundo, mas já se percebem muitas de suas tensões. O início da puberdade, o fim da inocência… Mariana fala da infância não como um território idealizado, mas como um espaço em que podem surgir a solidão, a incomunicação ou até mesmo o desconcerto diante da passagem do tempo.

Foto: Editora Nós

Na novela  É sempre a hora da nossa morte amém (Nós, 2021), a memória e o esquecimento ocupam um lugar central. A protagonista é Aurora, uma mulher idosa encontrada à beira de uma estrada, descalça e com amnésia. No abrigo onde é acolhida, e sobretudo através de sua relação com Rosa, vai emergindo um relato feito de esquecimento, morte, maternidade, afetos e versões parciais do passado.

Perguntamos a Mariana o que lhe interessa nessas zonas de incerteza da identidade e, em sua resposta, nossa protagonista reflete sobre o que acontece quando uma pessoa perde sua história, suas lembranças e, com elas, parte de sua identidade. Em suas próprias palavras:

A pessoa que perdeu a sua história, ela perdeu tudo que ela viveu, parece que ela já não sabe também quem ela se tornou, quem ela foi, isso é uma sensação muito, parece um afogamento.

Capítulo 3: A influência do contexto

Além de escritora, Mariana Salomão Carrara é defensora pública, equivalente no Brasil ao advogado de ofício na Espanha. Por isso, perguntamos sobre a relação entre seu trabalho jurídico e sua produção literária.

Embora nem sempre apareçam de forma explícita em seus livros, as realidades com as quais trabalha —a desigualdade, a fragilidade social— acabam influenciando sua visão de mundo e, consequentemente, sua escrita. Ninguém flutua no vazio; todos estamos imersos em um contexto cultural e social específico, do qual é impossível escapar, e uma escritora como Mariana deixa isso evidente em seus textos. No fundo, escrevemos aquilo que somos (…ou aquilo que gostaríamos de ser). Mariana explica assim:

A defensoria e os trabalhos jurídicos, de modo geral, eu acho que demandam muito que a gente entenda o outro, consiga perceber na história do outro todas as suas nuances, o próprio julgamento requer uma empatia muito grande, uma compreensão de todo o percurso dessa pessoa até então, e eu acho que isso tem muito a ver com a literatura.

Nesse sentido, uma das características mais interessantes da de Mariana Salomão Carrara é o contraste entre a delicadeza da linguagem e a dureza dos temas que aborda. Perguntamos então como ela constrói esse equilíbrio, e Mariana nos conta que não se trata de uma estratégia calculada, mas de uma forma natural de escrita. Interessa-lhe esse contraste entre o leve e o duro, entre o humor e o drama.

De fato, ela explica que o humor pode funcionar como uma ferramenta para desarmar o leitor:

O humor também faz um balanço bom com o drama, eu como espectadora, como leitora, gosto muito disso, que você se desarme pelo riso, e quando você está lá desarmado, dando risada, o golpe vem muito mais forte, você está muito mais vulnerável e apto a sentir aquelas emoções depois do riso.

Epílogo: dicas de leitura

Para terminar, pedimos a Mariana que nos recomendasse por onde começar a ler sua obra. Sua resposta, como ela mesma reconhece, não é simples. Mas ela nos oferece algumas pistas muito interessantes: sugere começar por seus livros mais acessíveis, aqueles que dialogam com um público mais amplo (como  Se Deus me chamar não vou ou Não fossem as sílabas do sábado, publicado pela Todavia em 2023 e vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura). Mas também sugere escolher em função dos temas que mais interessem a cada leitor.

Para facilitar a escolha, deixamos aqui a lista completa de suas obras (algumas com tradução para o espanhol):

Se vocês ficaram com vontade de mais, podem conferir o especial do Dia do Livro do BMQS, dedicado a seis brilhantes escritoras brasileiras contemporâneas. O link está aqui mesmo.

Música no programa

BioBrasil é uma coluna do programa Brasil es mucho más que samba, dedicada a divulgar a biografia de especialistas, profissionais e personagens (históricos e atuais) da vida cultural, política e social brasileira. Brasil es mucho más que samba é transmitido pela Radio USAL, todas as terças-feiras às 17h30 (hora local). Para sugerir um tema ou entrar em contato com a equipe do programa, escreva para masquesamba@usal.es.

Compartir

Relacionado:

Entrevista com Julimar Bichara sobre Brasil, economia global, lideranças progressistas e desafios internacionais atuais contemporâneos
No programa de hoje, revisamos a vida e as contribuições teóricas da antropóloga brasileira e ativista feminista negra Lélia Gonzalez.
Neste podcast do BMQS entrevistamos um dos grandes nomes do movimento steampunk brasileiro: Enéias Tavares.