BioBrasil: João Ubaldo Ribeiro

Um passeio pela vida e obra do escritor baiano que elevou a língua portuguesa a outro nível.

O protagonista desta emissão é um desses homens que brilham com luz própria, não só pelo trabalho que desenvolve, mas por sua personalidade. Jornalista e escrito, flertou com vários gêneros literários, do romance ao conto, passando pelas crônicas, ensaios e literatura infato-juvenil. Membro da Academia Brasileira de Letras desde 1993 e vencedor do Prêmio Camões, seu falecimento em julho de 2014, nos deixou órfãos de espírito. Falamos de João Ubaldo Ribeiro.

Formação acadêmica

João Ubaldo Ribeiro nasceu em 23 de janeiro de 1941, em Itaparica, na Bahia. O pai, Manuel Ribeiro, era um advogado famoso, fundador e diretor da licenciatura em Direito da Universidade Católica de Salvador. 

Incentivado por ele, João Ubaldo leu muito durante a infância: desde Shakespeare e Homero a Machado de Assis e José de Alencar, passando por Miguel de Cervantes e Monteiro Lobato. Também estudou latim e traduziu muitos textos, como parte das tarefas impostas pelo disciplinado pai. Isso parece supérfluo, mas todas essas leituras e conhecimentos explicam o seu especial uso da linguagem, o controle de expressões coloquiais e regionalismos, e essa sutileza quase poética é uma das marcas de sua obra. 

Em 1955, matriculou-se no curso clássico do Colégio de Bahia, onde conheceu Glauber Rocha, que se tornaria seu amigo e com quem editou revistas e jornais culturais, e participou no movimento estudantil. De fato, o seu interesse pelo jornalismo nasceu muito cedo, e em 1957 começou a trabalhar como repórter do Jornal da Bahia e, depois, do Tribuna da Bahia, onde chegou a ocupar o posto de editor chefe.  Além disso, ao longo de sua vida colaborou com diversos meios de comunicação como o Frankfurter Rundschau e Die Zeit (na Alemanha), o suplemento literário do The Times (Inglaterra), O Jornal e Jornal de Letras (Portugal), O Estado de S. Paulo, A Tarde, O Globo entre outros.

Licenciou-se em Direito em 1964, na Universidade Federal da Bahia (UFBA), onde foi um aluno exemplar. Mesmo sem nunca ter exercido a advocacia, em reconhecimento ao seu talento, em 1964 recebe uma bolsa da Embaixada dos Estados Unidos para cursar um mestrado em Ciência Política na Universidade da CArolina do Sul. Quando voltou ao Brasil, comeóu a lecionar na UFBA, mas depois de seis anos, decidiu voltar ao jornalismo.

Primeiros trabalhos

Inquieto, viajante, polifacetado… a sua vida foi um constante ir e vir entre países (Portugal, Alemanha, Estados Unidos) e matrimônios (casou-se em três ocasiões). Toda essa experiência vital se reflete em sua obra que começa cedo, em 1959, mais exatamente, com o relato “Lugar e circunstância”, publicado na antologia Panorama do conto baiano. O seu primeiro romance Setembro não faz sentido, foi publicado em 1963, com o prefácio do amigo Glauber Rocha, e o apadrinhamento de Jorge Amado. Apesar das boas referências, o livro não teve muito sucesso.

Foi necessário esperar até 1971 para a publicação do livro que lhe levou à fama: Sargento Getúlio, publicado pela Editora Civilização Brasileira e vencedor do prêmio Jabuti na categoria de autor revelação. Sargento Getúlio é um monólogo do sargento da policía militar de Sergipe, Getúlio Santos Bezerra, que recebe como última encomenda, antes de sua aposentadoria, deter o inimigo de um importante chefe político e levá-lo de Paulo Afonso a Aracaju. Inicialmente, o monólogo se dirige ao prisioniero, mas depois se transforma em um monólogo interior, num fluxo ininterrompido do pensamento de Getúlio, que navega entre acontecimentos presentes e passados, salpicados por impressiones e diferentes fantasias masculinas. Os diferentes episódios não seguem uma linha temporal, mas avançam e retrocedem de maneira aparentemente voluntariosa. João Ubaldo Ribeiro recorre vários tipos de regionalismos, neologismos, frases incompletas e retorcidas com as quais tenta reproduzir a linguagem oral com muito sucesso.

Considerado pela crítica da época uma mistura entre Graciliano Ramos e Guimarães Rosa, o romance foi adaptado ao cinema em 1983, por Hermano Penna, com roteiro do João Ubaldo Ribeiro e a atuação no papel protagonista de Lima Duarte.

Viva o povo brasileiro!

Sem deixar de lado o trabalho jornalístico – nessa época colaborava com O Globo), em 1982 começa o romance Viva o povo brasileiro, que foi publicado dois anos mais tarde, e foi a sua consagração como escritor. Vencedora do prêmio Jabuti, a obra é uma longa narrativa, não lineal, que percorre quatro séculos da história brasileira, de 1647 a 1977. Com um linguagem cheia de bom-humor, envolvente e surpreendente, o autor descreve com habilidade os sentimentos e motivações de personagens tão diferentes como os holandeses que ocuparam o Nordeste no século XVI, indígenas caníbais, escravizados dos engenhos de açúcar, poderosos oligarcas, religiosos, funcionários públicos e políticos, entre outros. São dezenas de personagens numa história fascinante e bem contada, que mistura realidade e ficção em partes iguais, e que continua sendo insuperável até os dias de hoje.

Em 1983 foi sua estreia na literatura infanto-juvenil, com o livro Vida e paixão de Pandonar, o cruel, seguido por, em 1990, A Vingança de Charles Tiburone. Entre essas duas obras, publica O sorriso do lagarto, transformado em mini-série pela Globo com bastante sucesso.

Decidido a não ser etiquetado em um gênero específico, João Ubaldo Ribeiro continuou publicando vários títulos, como Um brasileiro em Berlim, que narra sobre sua estada na cidade e o romance erótico A casa dos budas ditosos, da Editora Objetiva.

Prêmios e reconhecimentos

Não podemos deixar de falar dos prêmios que João Ubaldo Ribeiro recebeu. Em 1987, foi nomeado Comendador da Ordem do Mérito de Portugal e em 1993 eleito para ocupar a cadeira nº 34 na ABL, ocupada anteriormente pelo jornalista Carlos Castello Branco. Em 1994, participou da grande Feira do Livro de Frankfurt, na Alemanha, onde recebeu o prêmio Anna Seghers, concedido somente a escritores germanófonos. E, em 2008, o Prêmio Camões, pelo conjunto de sua obra literária, especialmente expressiva sobre as culturas portuguesa, africanas e dos habitantes originais do Brasil.

Tambem como homenagem, o CEB lhe dedica o seu III Congresso Internacional de Literatura Brasileira, que tem como tema João Ubaldo Ribeiro, a ficção e a história, que se realizará entre 12 e 16 de dezembro de 2022.

Entrevistas e outras referências:

Perfil na Academia Brasileira de Letras: https://www.academia.org.br/academicos/joao-ubaldo-ribeiro

https://www.youtube.com/watch?v=DrlWXpNgRzE
Entrevista a João Ubaldo Ribeiro no programa Roda Viva, 23 de julho de 2012.
Apertura de la mini serie “O sorriso do largato”, estrenada por la Rede Globo en junio de 1990.
https://www.youtube.com/watch?v=xd_KVJCuJio
Samba enredo da escola Império da Tijuca do carnaval de 1987, inspirado na obra “Viva o povo brasileiro!”.

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