Recentemente, foi publicado o resultado da 6ª edição do concurso de relato breve do CEB, que esteve dedicada ao bicentenário da independência do Brasil. O segundo lugar ficou com o relato “Indepêndencia ou morte!”, de autoria de Maria Angela Drummond Câmara. No texto, a autora constrói uma explicação curiosa para o famoso mal-estar intestinal que o futuro D. Pedro I teria sofrido no emblemático momento do grito “Independência ou morte!”, às margens do rio Ipiranga. Espiões internacionais, traidores insuspeitos e um pouco da boa gastronomia brasileira são os ingredientes de um relato que nos faz questionar quem e porquê se escreve a História…
“Indepedência ou morte!” será publicado em breve em formato eletrônico, com o texto vencedor e mais 10 finalistas, por Ediciones Universidad de Salamanca. E enquanto esperamos o livro, BioBrasil traz uma interessante entrevista com a autora.
Minibio: quem é Ángela Drummond?

Angela Drummond é formada pela Pontíficia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-Minas, Brasil) e começou a carreira profissional no ínicio da década de 1980, quando o país ainda vivia sob a ditadura militar. Na entrevista, ela admite que sempre gostou de trabalhar nos cadernos de economia, jornais e revistas de análise macroeconômica… E com as inumerávies crises econômicas e sociais nas últimas quatro décadas não lhe faltaria temas que analisar! Angela Drummond passou por vários meios de comunicação, principalmente, pela imprensa escrita. Começou na cidade natal, em Belo Horizonte, capital do estado de Minas Gerais, no jornal Diário do Comércio, um modesto rotativo onde aprendeu muito sobre a profissão. Quando se mudou para a Capital Federal, começou a trabalhar no Jornal de Brasília, no difícil momento da transición à democracia, no final dos anos 1980. De volta à casa, trabalhou num dos maiores jornais impressos da região, o Estado de Minas, além de assessorias de comunicação, como para a Companhia Energética de Minas Gerais (Ceming). Para ela, foram experiências muito diferentes, mas que se complementavam, e sempre relacionadas com a escrita.
Depois de aposentar-se, e com a maturidade profissional e intitulada avó de quatro netos, Ángela Drummond descobriu que contar histórias era algo maravilhoso. Inspirou-se no folclore brasileiro e escreveu Curupira – O Guardião da Floresta, um livro de literatura infantil dedicado aos netos e publicado há 6 anos. Para contar a história da economia brasileira ao neto mais velho, que estava em plena adolescência, escolheu os 21 anos posteriores aos 21 anos de ditadura, descrevendo o trabalho dos sucessivos ministros de economia. O livro O Fio da meada foi lançado a finais de 2018, e vai do mandato de Dilson Funaro até Antônio Palocci.


Livros e autores que marcam o caminho
Na entrevista, Angela Drummond afirma que a literatura brasileira e latino-americana sempre lhe fascinaram. E mais: diz que até agora não conseguiu encontrar nenhum livro que supere Cien años de soledad, de Gabriel García Márquez. Também destaca Crónicas de nuestra América, de Augusto Boal, um autor argentino que lhe surpreendeu ainda na época de estudante de jornalismo. Sobre as influências brasileiras, o primeiro livro do qual fala é O auto da Compadecida, de Ariano Suassuna que, para ela, é uma das maiores expressões da cultura brasileira, principalmente, do povo nordestino. Não podia faltar o nosso querido Jorge Amado! Em crônicas, destaca o escritor Rubem Braga, a quem teve a oportunidade de entrevistar ao vivo no final dos anos 1980, pouco antes do falecimento do escritor.
Na poesia, e vivendo em Minas Gerais, Ángela Drummond é tributária do incontornável Carlos Drummond de Andrade, além de outras escrituras que chegaram depois como Adélia Prado, uma dona de casa de Divinópolis, uma pequena cidade do interior, que num belo dia decidiu transformar a vida cotidiana em versos. Com mais de vinte obras publicadas, Adélia Prado é hoje uma referência para muitas mulheres brasileiras.
Como amante da história, Angela Drummond adora os livros que contam histórias reais, como a trilogia de Laurentino Gomes 1808, 1822 e 1889, e o sucesso de vendas e crítica Torto arado, de Itamar Vieira Junior. Para fechar, uma importante referência na área de economia é o professor Luiz Alberto Moniz Bandeira, que aos 92 anos, em 2016, publicou o livro A desordem mundial, sobre as estratégias de dominação neste mundo em que vivemos.
Participando no concurso
Na entrevista, Angela Drummond também fala sobre a sua experiência no concurso organizado pelo CEB.
A entrevistada conta que estava procurando um concurso para inscrever o pai, que com 93 anos, dedica parte do tempo a desenhar e pintar, quando, por casualidade, encontrou o concurso do CEB e ficou encantada com o tema. Uma noite, acordou no meio da madrugada com as primeiras páginas de “Indepência ou morte!” na cabeça e o resto da história foi surgindo pouco a pouco.
Na verdade, o tema da independência não é novo para Angela. Com 15 anos, ela organizou no colégio de freiras onde estudava um concurso de redação com o tema dos 150 anos da Independência do Brasil. Ela venceu o concurso, mas não pôde ler o texto, porque ele havia sido censurado pelas freiras.
Para Angela, encontrar o concurso do CEB foi um sinal do destino e ter conquistado o segundo lugar foi uma grande surpresa!
Sobre o horizonte pela frente, Ángela Drummond confessa que depois desses anos de pandemia, o seu principal objetivo é… continuar viva! Acredita que o confinamento e as restrições posteriores beneficiaram a literatura, porque muita gente ficou em casa lendo e escrevendo, e que em breve essa produção sairá à superfície. Ela também pretende continuar escrevendo histórias para os filhos, netos e, quem sabem, até para os bisnetos, para que possam conhecer a história do Brasil e se sintam orgulhosos do país.
Atualmente, está submergida na redação da segunda parte do livro O fio da meada, a continuação da saga econômica do Brasil, centrada nos ministros brasileños que ocuparam o cargo entre 2007 e 2022.
Para terminar, agradecemos a Angela Drummond pela oportunidade da entrevista! E lembramos que a presente edição do concurso “Cuéntame un cuento” tem como tema o samba brasileiro! Vale escrever sobre personagens (músicos, compositores, intérpretes etc.), sobre o papel da mulher no universo do samba, suas origens, matrizes, lugares e história do samba e, claro, sobre o carnaval, escolas de samba… Enfim, qualquer tema relacionado com o universo do samba. Dá uma olhada no site, confere o regulamento e participe!