BioBrasil: entrevista Clara Madrigano

Falamos de ficção especulativa pelas mãos da escritora brasileira Clara Madrigano
Foto: Amazon.com

Neste podcast do BMQS, aproximamo-nos de uma das vozes mais interessantes da ficção especulativa brasileira contemporânea: a escritora Clara Madrigano.

Autora vinculada a diferentes revistas e espaços internacionais dedicados ao fantástico e ao horror, sua obra se move em um território especialmente inquietante: aquele lugar em que o cotidiano começa, pouco a pouco, a se deformar. Seus contos partem de espaços íntimos e reconhecíveis, nos quais algo começa a falhar. Há algo estranho atrás de uma porta, algo inquietante sob uma conversa aparentemente normal, algo monstruoso escondido no interior dos corpos… ou das relações humanas.

Em seus contos aparecem temas como identidade, transformação física, medo, desejo ou percepção da realidade, tudo isso construído através de uma escrita profundamente sensorial e atmosférica. Nesta entrevista conversamos com ela sobre o terror, os contos de fadas, o corpo, a imaginação e a maneira como constrói suas histórias.

Capítulo 1: O medo e os contos de fadas

Nossa primeira pergunta girou em torno daquilo que atravessa boa parte de sua escrita: o estranho, o inquietante e o medo. Queríamos saber o que a atrai nesse tipo de narrativa.

Em sua resposta, Clara fala de sua relação com o terror desde a infância. Explica que cresceu entre filmes de terror e contos de fadas, mas não as versões suavizadas e açucaradas da Disney, e sim aquelas histórias originais que conservavam toda a sua escuridão. Como ela mesma comenta:

Os contos de fadas que mais permanecem na minha memória, que mais pesadelos me deram, sempre foram os mais inquietantes (...). Mesmo os irmãos Grimm tiveram que fazer suas adaptações, na versão original deles da Branca de Neve, a madrasta Má era na verdade a mãe da Branca de Neve. Mas quando eles se deram conta de que esses contos estavam fazendo muito sucesso entre famílias burguesas, eles tiveram que alterar essa parte.

Para Clara, é justamente aí que reside o verdadeiro interesse do conto fantástico: em sua capacidade de mostrar aquilo que nos incomoda, aquilo que revela as partes mais monstruosas e desagradáveis da condição humana. De fato, ela insiste que não escreve buscando uma moral, mas “para aprender sobre a humanidade. E nem sempre o que fazemos é bonito”.

Capítulo 2: O fantástico e a vida cotidiana

Um dos aspectos mais interessantes da obra de Clara Madrigano é a maneira como mistura elementos fantásticos com situações completamente cotidianas. Por isso, perguntamos como ela constrói essa relação entre o fantástico e a experiência humana mais próxima.

Em sua resposta aparece uma referência muito significativa: o romance A Mulher do Viajante no Tempo, de Audrey Niffenegger. Clara explica que esse livro lhe permitiu descobrir algo fundamental para sua própria escrita: que o fantástico não precisa se desenvolver em mundos completamente inventados ou afastados da realidade. Ele pode conviver perfeitamente com a vida cotidiana.

Eu não sou o tipo de autora de fantasia que quer as personagens vivendo num mundo secundário. Eu quero minhas personagens vivendo num mundo em que eu vivo, mas com um toque de magia ou de terror acrescentados a isso.

A autora insiste ainda que o medo, as superstições ou a sensação de que existe algo oculto além do visível fazem parte de nossa experiência cotidiana desde a infância. Todos nós já tivemos medo do escuro, de fantasmas, daquilo que não conseguimos explicar.

Por isso, seus contos costumam se desenvolver em espaços muito próximos da nossa realidade… embora, pouco a pouco, algo se torne estranho.

Capítulo 3: A escrita como atmosfera

Chegados a esse ponto, quisemos perguntar sobre sua forma de escrever. Se trabalha a partir de estruturas muito planejadas ou se prefere descobrir a história enquanto avança.

Sua resposta desmonta um pouco essa divisão rígida entre escritores “mapa” e escritores “bússola”. Clara Madrigano explica que as duas coisas convivem em seu processo criativo:

Algumas histórias chegam para mim com um começo, meio e fim, então eu planejo em cima disso. E outras histórias chegam como uma cena, uma sensação que eu quero capturar e eu vou escrevendo a partir disso sem saber onde a história vai terminar.

Talvez isso explique também a enorme força atmosférica de seus contos. Muitas vezes eles nascem antes de uma emoção do que de um argumento. E isso faz com que seus textos impactem de maneira especialmente física e direta.

Quando perguntamos sobre o papel da linguagem na construção dessa atmosfera inquietante, Clara descreve a escrita como uma experiência corporal e sensorial: “Eu quero que o leitor sinta, por exemplo, os grãos de areia em que minhas personagens pisam, eu quero que eles sintam o vento gelado, aquele irissade de pelos na base do pescoço”.

Capítulo 4: O corpo, a transformação e o horror

Em muitos dos contos de Clara Madrigano aparecem questões relacionadas ao corpo, à identidade e à transformação. Por isso, perguntamos por que esses temas ocupam um lugar tão importante em sua obra.

Sua resposta apresenta uma ideia muito poderosa: não podemos escapar dos nossos corpos. O corpo é aquilo que nos acompanha durante toda a vida e, justamente por isso, também é uma fonte constante de inquietação, transformação e estranhamento.

O corpo que nós temos vai continuar conosco até a nossa morte, ele é parte do horror, do assombro, do fantástico. Nós somos criaturas dadas a transformações físicas e mentais e emocionais, o tempo todo, durante toda a nossa vida. É algo que não para nunca.

Clara relaciona essa ideia aos contos de fadas e aos processos físicos e emocionais pelos quais passam especialmente as mulheres: a puberdade, a maternidade, o envelhecimento. Mas também amplia essa reflexão para as transformações identitárias e de gênero, um espelho no qual, de uma forma ou de outra, todos podemos nos reconhecer.

Epílogo: por onde começar a ler Clara Madrigano

Para terminar, pedimos a Clara uma recomendação para quem ainda não conhece sua obra. Ela propõe diferentes portas de entrada dependendo do idioma e do tipo de leitura que cada leitor procura.

Para quem lê em inglês, recomenda Mother Love, um conto de terror publicado na revista The Other Dark. Também menciona Lost in Darkness and Distance, uma noveleta de ficção científica publicada pela Clarkesworld.

E para quem lê em português, recomenda especialmente Boneca, originalmente publicado na antologia Universo Desconstruído 2 e atualmente disponível na Amazon como conto independiente. Um texto inquietante e profundamente perturbador, do qual quis compartilhar um pequeno fragmento durante a entrevista.

A literatura de Clara Madrigano nos lembra algo importante: que o medo nem sempre vive em castelos abandonados ou em criaturas monstruosas. Às vezes ele está no cotidiano. No corpo. Na memória. Naquilo que acreditamos conhecer perfeitamente.

Seus contos trabalham justamente nessa fronteira difusa entre realidade e estranhamento. Um lugar onde o fantástico deixa de ser evasão… para se tornar uma ferramenta com a qual podemos nos observar melhor.

Do Brasil es mucho más que samba, queremos agradecer a Clara Madrigano sua gentileza e generosidade ao nos conceder esta entrevista. Foi um verdadeiro prazer conversar com ela e descobrir, mais uma vez, a enorme riqueza da ficção especulativa contemporânea no Brasil.

Música no programa

BioBrasil é uma coluna do programa Brasil es mucho más que samba, dedicada a divulgar a biografia de especialistas, profissionais e personagens (históricos e atuais) da vida cultural, política e social brasileira. Brasil es mucho más que samba é transmitido pela Radio USAL, todas as terças-feiras às 17h30 (hora local). Para sugerir um tema ou entrar em contato com a equipe do programa, escreva para masquesamba@usal.es.

Compartir

Relacionado:

Neste podcast, aproximamo-nos de uma das vozes mais interessantes da literatura brasileira contemporânea.
Entrevista com Julimar Bichara sobre Brasil, economia global, lideranças progressistas e desafios internacionais atuais contemporâneos
No programa de hoje, revisamos a vida e as contribuições teóricas da antropóloga brasileira e ativista feminista negra Lélia Gonzalez.