
Neste podcast do BMQS conversamos com Guido Guimarães Santos, vencedor da VIII edição do Concurso de Relato Breve do Centro de Estudos Brasileños da Universidad de Salamanca graças a «Água de Meninos», um conto ambientado na Salvador dos anos 1960 que reconstrói, a partir do olhar de um adolescente, o desaparecimento de um dos espaços populares mais importantes da cidade.
Historiador e professor de História, Guido nos oferece uma narrativa profundamente sensorial, atravessada pela memória familiar, pela oralidade baiana e pelas tensões sociais e culturais do Brasil anterior à ditadura militar.
Nesta entrevista conversamos com ele sobre a origem do conto, sobre o trabalho linguístico por trás da voz narrativa e sobre a importância de recuperar certos espaços e experiências apagados da memória coletiva.
A origem de «Água de Meninos»
Nossa primeira pergunta girou em torno da origem do conto. Queríamos saber como havia nascido uma história tão marcada pela memória, pelos sons e pelas imagens de Salvador.
Guido explica que inicialmente queria escrever sobre uma Salvador distante dos clichês habituais. Sua primeira ideia era abordar a Revolta dos Malês de 1835, mas durante o processo de pesquisa descobriu que aquela história se conectava, de forma inesperada, à antiga feira de Água de Meninos, um espaço também muito ligado à memória de sua própria família, já que seu avô havia trabalhado ali como vendedor ambulante antes do incêndio de 1964.
O autor destaca ainda uma questão muito interessante do ponto de vista literário: a dificuldade de escrever sobre um lugar do qual existem poucos registros históricos ou visuais. E foram precisamente essas lacunas que acabaram se transformando no motor criativo do conto.
Percebi que essas lacunas na memória e nas pesquisas poderiam ser usadas a meu favor literariamente. Eu poderia preencher tais lacunas com a imaginação ficcional. E foi esse meu ponto de partida para a narrativa que eu construí.
Guido Santos
História, memória e transformação social
Um dos aspectos mais interessantes de «Água de Meninos» é a maneira como conecta a experiência íntima do protagonista com grandes transformações históricas: a modernização urbana de Salvador, o incêndio da feira e o início da ditadura militar brasileira.
Guido nos conta que, como historiador, interessa-se especialmente por construir personagens situados em momentos de crise e transformação. E explica que a feira de Água de Meninos não era apenas um espaço comercial, mas também um lugar fundamental de encontro, sociabilidade e sobrevivência cotidiana para muitas pessoas da Cidade Baixa.
Nesse sentido, o incêndio de 1964 aparece no conto como símbolo de uma ruptura muito mais profunda. O autor reflete ainda sobre como certas transformações urbanas acabam apagando formas populares de viver a cidade, expulsando memórias e modos de vida que raramente ocupam um lugar central na história oficial.
A construção da voz narrativa
Um dos elementos mais marcantes do conto é sua linguagem. A voz narrativa reproduz de maneira muito natural a oralidade baiana sem jamais cair na caricatura.
Por isso perguntamos a Guido Santos como construiu essa voz. Ele reconhece que essa foi provavelmente a parte mais difícil do processo de escrita. Precisava equilibrar vários elementos ao mesmo tempo: a oralidade própria de Salvador, o contexto histórico dos anos 1960 e a idade do narrador, um adolescente.
Para conseguir isso, pesquisou jornais antigos, consultou familiares e releu romances com narradores jovens. Mas insiste que reproduzir a oralidade não significa copiar literalmente a realidade.
Ao tentar reconstruir uma oralidade, a gente não pode querer simplesmente copiar a realidade, sob o risco de ficar muito denotativo, muito seco, virar até uma caricatura que acontece às vezes, né? Eu já li alguns textos que tentam copiar a oralidade baiana e podem ficar caricatos, havia esse risco. Então você tem que saber usar também o lirismo, a poesia, algumas figuras de linguagem, e manter ali a coerência regional.
Guido Santos
O resultado é uma voz profundamente humana, próxima e verossímil, que sustenta boa parte da força emocional do conto.
Religiosidade, medo e Salvador
A religiosidade ocupa um lugar central em «Água de Meninos». Ex-votos, superstições, santos, orixás e práticas populares atravessam continuamente a narrativa.
Guido explica que era impossível escrever sobre Salvador sem incorporar essa dimensão múltipla e sincrética da cidade. Mas também quis evitar os clichês turísticos e trabalhar a religiosidade a partir de uma perspectiva mais complexa e cotidiana. Como ele mesmo afirma: “Não se pode entender Salvador sem compreender sua religiosidade múltipla e fascinante”.
O imaginário religioso não apenas confere verossimilhança ao conto, mas também constrói uma atmosfera carregada de tensão, mistério e ambiguidade. Na entrevista, Guido menciona ainda a influência de autoras como a consagrada Mariana Enríquez e sua maneira de introduzir o medo e o inquietante em contextos profundamente latino-americanos.
O incêndio como fim de um mundo
O conto termina com o incêndio de Água de Meninos, uma das cenas mais intensas e simbólicas do texto. Guido Santos nos conta que desde o início sabia que queria terminar exatamente ali. Não mostrar o que acontecia depois. Porque, para ele, aquele incêndio representa o fim violento de uma determinada Salvador popular.
[O incêndio] foi sim um símbolo de transformação e ruptura na cidade. Uma transformação e ruptura que, na minha opinião, para pior. Salvador perdeu algo muito importante naquele momento. Foi um Salvador popular que, de certa forma, foi retirado dos próprios soteropolitanos em 1964.
Guido Santos
A cena final foi especialmente difícil de escrever, porque o autor não conheceu pessoalmente aquela feira e precisou reconstruí-la a partir de fotografias antigas, memórias familiares e trabalho imaginativo.
Epílogo: escrever em tempos incertos
Para terminar, perguntamos a Guido Santos o que significou para ele ter vencido o Concurso de Relato Breve do CEB. Guido responde com muita honestidade sobre o cansaço, as dúvidas e as dificuldades de continuar escrevendo em um contexto em que muitas vezes é difícil saber se aquilo que fazemos realmente chega a alguém.
Justamente por isso, explica ele, o prêmio funcionou como um importante estímulo para voltar a escrever e retomar uma coletânea de contos que tenta organizar há anos.
Essa premiação, mais do que uma vaidade e tudo mais, vem como uma espécie de incentivo (...) para que eu continue escrevendo, no caso, volte a escrever, e quem sabe aí eu consiga organizar essa coletânea e publicar algum livro. Vem também como incentivo para ler mais literatura brasileira, literatura latino-americana também, até mesmo hispano-ibero-americana, porque tem muita coisa legal sendo produzida em nossos países vizinhos, em nosso próprio país, e a gente tem que se apropriar dessa literatura.
Guido Santos
Do BMQS, felicitamos novamente Guido Guimarães Santos por este merecido reconhecimento e agradecemos profundamente sua generosidade ao compartilhar conosco o processo de criação de «Água de Meninos», um conto que recupera, através da literatura, fragmentos essenciais da memória popular de Salvador e que será publicado pela Ediciones Universidad de Salamanca.
Música no programa
BioBrasil é uma coluna do programa Brasil es mucho más que samba dedicada a divulgar a biografia de especialistas, profissionais e personagens (históricos e atuais) da vida cultural, política e social brasileira. Brasil es mucho más que samba é transmitido pela Radio USAL, todas as terças-feiras às 17h30 (hora local). Para sugerir um tema ou entrar em contato com a equipe do programa, escreva para masquesamba@usal.es.