BioBrasil: entrevista Mario Daniel Martín

Uma entrevista com o vencedor da sexta edição do concurso de relato breve do CEB.

Neste início de temporada, traazemos um programa muito especial. Há pouco tempo, foi publicado o resultado da 6ª edição do concurso de relato breve do CEB dedicada ao Bicentenário da Independência do Brasil.

O conto vencedor foi “Oráculo inverso”, de autoria de Mario Daniel Martín, argentino residente na Austrália. “Oráculo inverso” apresenta um particular concurso de inteligências artificiais, cujo desafio a superar era resolver um velho dilema histórico: como atuaria o futuro D. Pedro I ao ter que se enfrentar às Cortes portuguesas, que tinham a intenção de lhe obrigar a abandonar o Brasil? O resultado do concurso é surpreendente e demonstra que o ser humano é imprevisível e capaz de aprender de seus acertos… e erros.

O relato será publicado em breve em formato eletrônico, com o vencedor do segundo prêmio e mais 10 finalistas, por Ediciones Universidad de Salamanca. Mas, enquanto esperamos o livro, oferecemos neste podcast uma entrevista com o autor de “Oráculo inverso”, Mario Daniel Martín.

Capítulo 1: sobre o autor

Mario Daniel Martín é natural da cidade de General Güemes, na província de Salta, no norte da Argentina. Suas raízes são o resultado da união de diferentes culturas, típica nos países latino-americanos. Os seus avós paternos emigraram a Argentina saindo de uma pequena aldeia de Salamanca, chamada Villarino de los Aires. A família materna é de de San Marino. Ele é licenciado em Matemática pela Universidad Nacional de Tucumán (UNT, Argentina), mestre em Linguística pela University of Delawere (EEUU) e doutor em Linguística pela Australian National University (ANU, Camberra, Austrália), onde é professor de espanhol e cultura latino-americana. Aposentado do ensino desde finais de 2020, é professor emérito da ANU, e continua orientando trabalhos de estudantes de pós-graduação.

Mario Daniel Martín é autor de 12 livros de literatura nos mais diversos gêneros; 3 livros acadêmicos e várias publicações de artigos científicos, peças de teatro e roteiros cinematográficos. Começou ainda na adolescência, compondo poemas. Um dia, já nos últimos anos da ditadura na Argentina, ficou sabendo que havia um concurso de teatro em Tucumán. Sem pensar muito, enviou um texto que contava a história de uma família que havia recebido por engano um caixão e tentavam integrá-lo à decoração da casa. Não obstante, a presença desse elemento perturbador acabou provocando que o filho idealista assessinasse toda a família. Os organizadores do concurso não gostaram da ideia, mas um dos membros do júri, que era diretor de teatro, ficou impressionado com o texto e decidiu levá-lo ao palco. A peça estreou no famoso ciclo de Teatro Abierto. Por isso, nesse momento, Mario Daniel dirigiu o seu impulso criativo ao cinema e ao teatro. Começou, assim, uma vida dupla: de dia era um estudante de Matemática e de noite participaba de peças de teatro e em gravações. Tanto foi assim, que na companhia de uns amigos chegou a fundar um grupo de teatro e de cinema chamado Escupitajo Producciones, quando ainda estava cursando o doutorado em Matemática, que deixou incompleto. O fim dessas atividades chegou junto com o início de um ciclo, na Argentina, de hiper inflação. E assim, decidiu deixar o país. Trocou a Matemática pela linguística e voltou à literatura, escrevendo poemas, contos infantis, e relatos e romances de ficção científica. Não voltou a participar em peçasde teatro, a não ser como roteirista.

Capítulo 2: o que eu sou eu devo a…

Durante a entrevista, Mario Daniel Martín afirma que suas influências literárias são muitas e, por isso, se centra no que chama a “sua longa peregrinação até a ficção científica”. A primeira influência foi o professor de Matemática que lhe ajudou a preparar a prova para entrar na universidad. O professor despertou nele a fascinação pelos números, e lhe apresentou a ficção científica com o livro  Estación del tránsito de Clifford D. Simak. A obra pertencia a uma coleção publicada na Argentina por hyspamérica, e era vendida nas bancas. A leitura da obra foi a porta de entrada no “universo” da ficção científica para o entrevistado, que mais tarde conheceria a obra de escritores clássicos como Stanislaw Lem, Philip K. Dick, entre outros.

Na universidade, ainda estudando Matemática, continuou lendo ficção científica. Numa estada de pesquisa nos Estados Unidos, Mario Daniel se reencontrou com a Estación de tránsito, e, curioso, leu a versão em inglês. O resto, já é historia…

Capítulo 3: o autor e suas obras

Durante o doutorado em socio-lingüística, Mario Daniel Martín se apresentou no concurso Andrómeda de ficção especulativa, em 2008, e conseguiu o segundo lugar. O relato foi publicado numa coletânea intitulada Utopía final, sendo a sua entrada triunfal na ficção científica, a primeira vez que pensava em mundos diferentes e futuristas. Porém, o mais importante é que com o prêmio, Mario Daniel descobriu que podia combinar o interesse pela ciência e o gosto pela literatura. Entusiasmado, começou a escrever e, especialmente, a publicar em importantes revistas de ficção científica do mundo hispano: Axxón, miNatura e Cosmocápsula.

Axxón, em particular, era uma revista que revisava os contos por pares. Foi assim que conheceu Laura Ponce, uma figura essencial em sua carreira literária. Laura era uma das revisoras de Axxón e, confiando em seu talento, lhe convidou a publicar na revista Próxima e depois na editorial Ayarmanot. Com eles, publicou em 2015 o primeiro romance de ficção científica intitulado Piratas genéticos e, três anos depois, o segundo trabalho, talvez o mais importante (até agora!) no gênero, La inevitable resurrección de los cerebros de Boltzmann, um romance com equações.

Atualmente, Mario Daniel está trabalhando na segunda edição de La inevitable resurrección de los cerebros de Boltzmann, que será publicada em Buenos Aires este ano, graças a Laura Ponce, diretora de Ayarmanot, e também está traduzindo a obra ao inglês para publicação na Austrália. no horizonte, lhe espera um livro infantil ainda por terminar e que se intitula Cuentos con patas y muchos elefantes, um romance que escreve com a ajuda da internet em parceria com Daniel Cacharelli, um antigo colaborador de Escupitajo producciones e, como se fosse pouco, um artigo para a revista Journal of Humanistic Matematics. Mais adiante, confessa o entrevistado, tem uma longa lista de personagens, que estão na sala de espera dos livros ainda por nascer.

Mario Daniel Martín é um consagrado, com uma longa trajetória no gênero da ficção científica, e no que se conhece como “ficção científica dura”, que está baseada na extrapolação de fatos científicos, e que exige uma prévia pesquisa intensa.

Capítulo 4: se eu te contasse…

Para terminar a entrevista, Mario Daniel conta que descobriu o concurso de relato breve do CEB, numa página web dedicada a concursos literários. Chamou-lhe a atenção que o concurso aceitasse qualquer gênero literário, inclusive a ficção científica. Porém, para ele, o tema do bicentenário da independência do Brasil não pareceia muito dado à ficção científica. Deixou o regulamento de um lado e foi estudar sobre inteligências artificiais usadas como oráculos para uma história que ainda estaba em construção. No dia seguinta, já tinha o argumento do conto na cabeça: sabia que a independência do Brasil era muito interessante, e para o concurso aprofundou no tema. Estabeleceu uma cronologia detalhada do processo de independência do país, e depois de vários resumos, encontrou analogias entre a independência do Brasil e uma suposta independência das colonias de Marte, e estruturou o conto de forma que esses paralelos ficassem evidentes.

Para terminar, deixamos aqui alguns conselhos para participar de concursos literários. Em primeiro lugar, leia bem o regulamento e confira que o texto se ajusta ao solicitado. Isso é essencial! Segundo, revise o texto com atenção para não deixar passar erros de ortografia ou de formatação. Mesmo que o argumento seja interessante, um texto com erratas não será bem-recebido. E, claro, participar! Se o seu texto não for selecionado na primeira vez, não desista! E falando nisso, confere aqui o regulamento da sétima edição do concurso “Cuéntame un cuento” . O prazo para enviar textos originais vai até 31 de março de 2023. O tema dessa edição é o samba brasileiro, seus personagens, músicos, compositores, intérpretes, mas também suas histórias, origens, matrizes, lugares, as escolas de samba (¿cómo no?), o carnaval… Todo o universo do samba!

Agradecemos a Mario Daniel Martín pela oportunidade da entrevista. E para fechar, recordamos que o texto “Oráculo inverso” será publicado em breve por Ediciones Universidad de Salamanca. Aguarde e confie!

Epílogo: para saber mais…

Para conhecer mais sobre o entrevistado, visite a página web da Australian National University. Algumas de suas obras estão publicadas em revistas eletrônicas como Sci·Fdi: Revista de ficção científica, Revista Digital Tiempos Oscuros, Revista Próxima(2008) e Revista Próxima (2013). Também está disponível de forma gratuita o .pdf da primeira edição do romance La inevitable resurrección de los cerebros de Boltzmann clicando aqui.

Sobre os trabalhos acadêmicos, recomendamos  um artigo muito interessante, publicado em janeiro deste ano em arXiv, um arquivo de acesso aberto para artigos de física, matemática, informática e biologia quantitativa e o livro The doubters’ dilemma, sobre a deserção e retenção de estudantes em programas universitários de língua e cultura.

E para fechar com chave de ouro, os vídeos: a peça “La cantante calva”, a única de autoria de Mario Daniel Martín representada na Espanha e a música final do programa, “Qué papelón” do uruguaio Leo Maslíah.

Compartir

Relacionado:

Voltamos ao tema da literatura de terror com uma entrevista com a escritora Verena Cavalcante, que apresenta o seu particular “Inventário de predadores domésticos”.
Um programa especial com dois belos (e surpreendentes) relatos natalinos.
No último BioBrasil de 2022 falamos de cinema de ficção científica com o professor e crítico de cinema Alfredo Suppia.
Carlos Galilea, a voz de “Cuando los elefantes sueñan con la música”, fala sobre seu livro dedicado a Caetano Veloso.
BioBrasil entrevista a Sabine Mendes Moura. Escritora, roteirista e editora, e principalmente, uma mulher comprometida com seus ideais.
Anterior
Próximo