O samba da minha terra: Pensamento Social do Samba

Entrevista a Vinícius Natal, pesquisador e fundador da plataforma Pensamento Social do Samba.

Nesta entrega de “O samba da minha terra” contamos com uma entrevista a Vinícius Natal, um dos criadores, junto com Mauro Cordeiro, da plataforma Pensamento Social do Samba. A iniciativa tem como objetivo compartilhar, formar e debater sobre o samba em seu sentido mais amplo. Em sua página web encontramos a seguinte definição:

O samba, em si, é pensamento social, que é um amplo conjunto de reflexões, formulações, críticas, comentários, saberes e práticas acerca dessa forma cultural afro-diaspórica. São contribuições que podem ser literárias, musicais, artísticas, performáticas, discursivas ou percussivas de sujeitos através da linguagem do samba. O pensamento, então, se dá a partir das mentes, corpos e símbolos que empreendem uma reflexão, a partir de suas práticas, sobre o que é o mundo social

Página oficial Pensamento Social do Samba.

Vinícius Natal foi criado no samba. A avó é compositora da Unidos de Vila Isabel, e mesmo com 78 anos continua na ativa, escrevendo e fazendo samba. Desde pequeno Vinícius frequentava o samba: tocou na bateria e participava no cotidiano da escola. Em um determinado momento da vida, começou a se interessar pela parte dos enredos, a parte histórica, que foi o que o levou a estudar História na Universidade Federal Fluminense (Niterói, Brasil). Com isso, afirma na entrevista,

a minha vida académica, a minha construção, foi baseada na vivência do samba. Tudo o que eu tinha vivido no samba, eu levei para a faculdade e passei a estudar a História pelo viés do samba, estudando o samba, os processos de disputas, os processos de luta, de mediação com a cidade, de construção da identidade nacional

Vinícius Natal, entrevista.

Pensamento Social do Samba nasceu durante os meses mais difíceis da pandemia, como um espaço para compartilhar reflexões e debates sobre o samba. A iniciativa começou com um curso on-line, “Escola de samba, cultura e negritude”, que teve muito sucesso. Esse primeiro passo serviu para que os idealizadores, junto com os participantes, amadurecessem suas reflexões sobre o samba, levando à construção de uma rede de pesquisadores, profissionais e interessados pelo samba no Brasil e no mundo.

Mas, o que significa Pensamento Social do Samba? Para Vinícius Natal, Pensamento Social do Samba deve compreender uma noção de samba muito além do que se representa nas quadras, nos desfiles das escolas de samba durante o carnaval. Para ele,

O samba é uma forma de ser e de estar no mundo, de se posicionar socialmente, de você enxergar o ambiente, a comunidade, o local em que você vive, de você se relacionar com as pessoas…

Vinícius Natal, entrevista.

O samba é, por isso, um complexo de saberes, que comporta uma pluralidade de expressões: samba-canção, samba-reggae, pagode, partido alto, samba de enredo etc. E essas diferentes vivências do samba englobam diferentes populações e locais da cidade. Ainda assim, a palavra samba traduz realidades muito diferentes: quanto expressão cultural, música, melodia, dança; quanto expressão social, carnaval, religiosidade, um processo de construção da sociedade brasileira. É polissêmico e, ao mesmo tempo, unificador, como expressão de “brasilidade”. Portanto, o samba é o elemento que costura essa ideia de Brasil, de brasilidade e do que é ser brasileiro.

Mas, qual foi o papel do samba ao longo da história do Brasil? Para responder essa pergunta Vinícius Natal começa com a distinção entre carnaval, samba e escola de samba. O carnaval é uma festa é milenar, que existe em diversas partes do mundo. Já o samba é entendido como,

esse grande complexo de saberes que advém dos batuques africanos, dos batuques afro-brasileiros, que quando chegam no Brasil vão se ressignificar no jongo, nos calundus, no maxixe, até tomarem esse formato de samba, enquanto um ritmo, um gênero musical abraçado pela indústria fonográfica

Vinícius Natal, entrevista.

Já as escolas de samba são, em sua origem, organizações associativas de negros e negras no período do pós-abolição, que se formaram entre as décadas de 1920 e 1930:

a gente está falando, talvez, de uma primeira ou segunda geração de negros libertos após 1888, após a abolição jurídica da escravidão negra no Brasil. Então, são filhos e netos de ex-escravizados que se organizam e criam uma instituição chamada escola de samba com o objetivo de desfilarem no carnaval, e não só isso, de criar uma organização associativa para fazerem eventos durante o ano, terem um espaço de encontro, de troca, o que a gente chama de um espaço de sociabilidade,

Vinícius Natal, entrevista.

A partir desse momento, o samba ganha um papel central no debate da cultura nacional (recorde-se que o samba já tinha o seu lugar na indústria fonográfica), se espalhando e diversificando por todo o território nacional. A existência de escolas de samba em todo o país é uma prova disso. Segundo Vinícius Natal,

eu acho que a escola de samba e o samba se enraizaram no Brasil de uma maneira muita significativa, se diversificaram, espelhando uma sociedade bastante heterogênea e que acaba sendo um tradutor desses conflitos sociais, dessas incongruências, essas contradições, que muitas vezes pode não fazer muito sentido para a gente, mas que fazem parte da própria formação da sociedade brasileira

Vinícius Natal, entrevista.

Na seção de blog na página do Pensamento Social do Samba, Vinícius assina o texto “A voz do sambista na academia”, onde diz assim:

academia, hoje, é uma possibilidade real na trajetória de muitos sambistas que entendem que a ocupação desses espaços faz parte de uma estratégia do entendimento do seu lugar de ação transformadora no mundo social

Vinícius Natal, “A voz do sambista na academia“.

O último ponto tratado na entrevista tinha a ver com a relação entre samba e academia. Sobre o processo de mudança do samba como objeto de pesquisa, que passou a dar lugar ao sambista como ator na produção do conhecimento, Historicamente, o modelo de produção do conhecimento no Brasil tratou de afastar “a massa da sociedade, que é preta e pobre, dos bancos universitários” (Vinícius Natal, entrevista). Daí a ausência de sambistas na academia durante toda a formação do samba. Na entrevista, Vinícius Natal cita um samba clássico de Cadeia, “Testamento de Partideiro”, que entre seus versos diz: “Porque o sambista não precisa ser membro da academia, Ser natural com sua poesia e o povo lhe faz imortal”. Para Natal, Candeia queria expressar que “o sambista tem conhecimentos muito próprios e que são tão valorosos quanto os conhecimentos produzidos no mundo acadêmico” (Vinícius Natal, entrevista). Para Vinícius Natal, os anos 2000 inauguraram uma etapa de concretização de algumas reivindicações dos movimentos negros, como o ensino afro-brasileiro nas escolas e a lei de cotas. Ele considera que esse momento é o resultado de uma série de políticas públicas de patrimonialização, de valorização de culturas diaspóricas e de uma ampliação ao acesso à Educação, especialmente, em âmbito universitário. Esses seriam, portanto, os são marcos fundamentais para se pensar essa transformação que ainda está em curso no ensino superior brasileiro. Em palavras de Vinícius Natal:

Eu tenho certeza de que eu sou fruto desse momento político, e tantos outros colegas que também estão participando desse momento de expansão da universidade e começam a dar uma nova cara para esse ensino universitário. Aquilo que o Candeia cantou lá, e que faz todo sentido, que o sambista não precisa ser membro da academia, e realmente não precisa, mas hoje a gente está vivendo outro momento, e tenho a certeza de que o Candeia adoraria ver, que é esse momento dos próprios sambistas entrando na universidade e debatendo através de outros conhecimentos próprios dos terrenos e das quadras, vivenciadas no cotidiano de uma escola de samba, e tensionando esses conhecimentos já consolidados como algo dado, como algo natural

Vinícius Natal, entrevista.

O espaço universitário, como espaço de produção do conhecimento deve ser, sem dúvida, ocupado por sambistas e por todos os profissionais do universo do samba, e somente assim, através do conhecimento, através do diálogo, começaremos a superar as barreiras impostas por uma sociedade tão desigual.

Vinícius Natal é historiador pela Universidade Federal Fluminense (UFF), mestre e doutor em Antropologia pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRJ), além de ter cursado pós-doutorado no Programa de pós-graduação em História da Arte, na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). Tem sua vida profissional ligada à pesquisa e documentação do samba, trabalhando no Museu do Samba e como diretor cultural do GRESU Vila Isabel e também para as pesquisas do negro no pós-abolição, onde exerceu a função de Coordenador de Promoção das Políticas de Igualdade Racial – CPIR – do município do Rio de Janeiro. É pesquisador associado ao LABHOI – Laboratório de História Oral e Imagem (UFF) e ao Núcleo de Estudos de Ritual e Sociabilidade Urbana (UFRJ) (Facebook Pensamento Social do Samba).

Contatos:

Pensamento Social do Samba. Página web.

Facebook; YouTube; @pensamentosocialdosamba

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