Na primeira entrega da coluna “O samba da minha terra” oferecemos uma breve biografia da cantora brasileira Margareth Menezes. Natural da Bahia, uma das maiores representantes do estilo samba-reggae, Margareth Menezes é a primeira mulher negra em assumir o Ministério da Cultura no Brasil, recentemente nomeada pelo Presidente Lula.
Durante o governo Bolsonaro, o tradicional Ministério da Cultura foi transformado em Secretaria Especial da Cultura, que dependia do Ministério do Turismo (no governo Collor também aconteceu isso). E qual a importância disso? Na hierarquia da Administração Pública, as secretarias são seções dentro dos ministérios, por isso têm menos orçamento e capacidade de autonomia política. Além disso, durante a gestão de Bolsonaro, a chefia da secretaria foi instável, o mais anedótico, a nomeação da atriz Regina Duarte para assumir a pasta, que permaneceu apenas alguns meses no cargo.
O fato é que no início deste mês de janeiro, assistíamos a posse do Presidente Lula, e a nomeação da cantora Margareth Menezes para assumir a pasta, agora, elevada novamente à categoria de Ministério. Na verdade, o convite do Presidente veio em dezembro, e a artista aceitou prontamente. Veja no vídeo abaixo, um pequeno fragmento registrado no canal de YouTube da CNN Brasil, as primeiras declarações da Ministra da Cultura, Margareth Menezes, quando foi anunciado o seu nome para a pasta.
Na ocasião, houve uma surpresa na nomeação da cantora, porque muitos setores da equipe de transição do governo Lula esperavam um nome mais técnico. De qualquer forma, este não é um caso novo, recordamos aqui o cantor Gilberto Gil, também Ministro da Cultura com o Lula, entre 2003 e 2008. Você se lembra daquele momento histórico da diplomacia cultural brasileira? Gilberto Gil cantando “Toda menina baiana” na ONU, acompanhado na percussão pelo Secretário Geral da ONU, Kofi Annan. Não? Então, confere aí:
Mas, quem é Margareth Menezes? Margareth Menezes é uma das maiores referências no estilo samba-reggae. E resgatamos aqui uma entrevista ao músico percussionista Albert Llobel, em 2020, diretor do documentário “Diáspora da cultura percussiva da Bahia“, onde dizia que o samba-reggae é um estilo que aceitou as mais diversas influências vindas do Atlântico, dos Estados Unidos, a mensagem política de Bob Marley, e mais importante, para ele, o samba-reggae é um movimento cultural que a Bahia conseguiu exportar para o mundo inteiro. No documentário, o diretor trata de recuperar a herança africana, entre ela a referência egípcia, muito bem ilustrada na música “Faraó”, o primeiro sucesso da carreira de Margareth Menezes como cantora.
Margareth Menezes da Purificação Costa nasceu em Salvador, em 1962. A sua carreira artística começou na década de 1980, como atriz. A faceta de cantora, como tantos outros artistas, começou na igreja e mais tarde nos bares da capital baiana. A sua primeira gravação foi justamente a música “Faraó”. De lá para cá, soma um total de 19 discos, prêmios e, inclusive nomeações ao famoso Grammy.
Os anos 90 foram marcados por gravações de muito sucesso, como a música “Uma história de Ifá” (mais conhecida como “Elegibô”, uma composição original de Reinevaldo Miranda da Silva e Itamar Silva, gravada no disco Margareth Menezes, de 1988), um dos seus maiores sucessos até hoje. Foi um período de trabalho intenso que incluiu turnês pelo mundo todo, especialmente nos Estados Unidos. Ao longo da sua carreira musical, Margareth Menezes colaborou com pesos pesados da música brasileira, além dos baianos Gil, Brown, Ivete Sangalo e Daniela Mercury, também com os Tribalistas, Nando Reis, e muitos outros.
Foi nos anos 2000 quando se consolidou esse estilo afropopbrasileiro, que tanto lhe caracteriza e que dá nome ao seu sexto disco, produzido nada menos por Carlinhos Brown, e ao bloco de carnaval que a cantora fundou em 2005. Depois de seis anos sem gravar um disco, Margarethe Menezes volta aos carnavais com Afropopbrasileiro.
No livro As donas do canto: o sucesso das estrelas-intérpretes no carnaval de Salvador, Marilda Santana estuda a trajetória de três grandes cantoras baianas: Margareth Menezes, Ivete Sangalo e Daniela Mercury. Sobre o tema do afropopbrasileiro, a autora diz:
Autodenominando-se afropopbrasileira – uma mistura de ritmos de raízes afrobrasileiras misturando sonoridades pop mundiais como o rock, o reggae, o funk e o samba reggae, dentre outros, Margareth pontua desde o primeiro álbum o diálogo com a mãe África e a ancestralidade, como podemos ver na canção Uma história de Ifá (Ejigbô), de Ythamar Tropicália e Rey Zulu.
Marilda Santana
O disco Afropopbrasileiro trouxe Margareth Menezes de volta aos palcos. O trabalho conta com a colaboração de nomes como Belchior, Baden Powell, Lenine e Zeca Baleiro, como compositores, e as vozes de Daniela Mercury e Ivete Sangalo, na música “Cai dentro”.
Em novembro do ano passado, Margareth Menezes integrou o grupo técnico de cultura do gabinete de transição, para avaliar as políticas de cultura do governo Bolsonaro e, a partir dessa análise, formular atuações para o então futuro governo. E em 13 de dezembro, o presidente Lula a convidou a assumir a pasta da Cultura, convite que, como sabemos, a artista aceitou. Margareth Menezes se tornou assim a primeira mulher em assumir a pasta e a primeira mulher negra indicada a assumir o cargo de ministra de Estado.
Nossos melhores votos de uma excelente atuação à frente do Ministério, na difícil tarefa de devolver à cultura brasileira o lugar que ela merece nas políticas públicas do país e nos cenários internacionais.
Mais informação:
Página oficial de Margareth Menezes
Canal de YouTube de Margareth Menezes
Facebook; Instagram: @margarethmenezes
Fábrica Cultural: página web
SANTANNA, M. As donas do canto: o sucesso das estrelas-intérpretes no carnaval de Salvador [online]. Salvador: EDUFBA, 2009. 488 p. ISBN 978-85-2320-885-1. Available from SciELO Books <http://books.scielo.org>.