BioBrasil: entrevista Marcos Vieira

Conversa com um dos fotógrafos selecionados no programa de Residência Artística de Fotografia do CEB.

No último 19 de abril, inauguramos no Palácio de Maldonado a exposição “IANDÊ Á’TÁ JOAJU – Juntos somos fortes!”, do fotógrafo brasileiro Marcos Vieira, autor de um dos projectos selecionados no programa de Residência Artística de Fotografia 2022.

Para a inauguração, contamos com a presença do fotógrafo, que conversou com a gente sobre o seu trabalho, a exposição e sobre o que lhe motivou a desenvolver esse projeto. Mas, para começar, vamos conhecer um pouco mais sobre Marcos Vieria.

Sobre Marcos Vieira

Marcos Alberto de Oliveira Vieira, ou simplesmente Marcos Vieira, é natural da belíssima cidade de Fortaleza, capital do estado do Ceará, e é fotógrafo desde os 9 anos.

Formado em Sociologia, mestre em políticas públicas e sociedade pela Universidade Estadual do Ceará (UECE, Brasil). O trabalho que realiza está sempre orientado às áreas da cultura e do meio ambiente. De fato, ocupou vários cargos relacionados com a gestão ambientalem âmbito municipal,  estadual e federal. Essa relação entre gestão, ensino e fotografia resultou ser natural para ele, porque o discurso sociológico e antropológico lhe ajuda na atividade como fotógrafo. Não é por menos que quase todas as suas exposições até hoje estão voltadas a explorar esse aspecto antropológico e cultural. Na entrevista, Marcos destaca várias exposições, como a exposição Viçosa: natureza, gente e cultura, que aconteceu em 1992, no Museu de Arte da Universidade Federal de Ceará, em Fortaleza, com fotografias que retratavam a vida cotidiana e as belezas naturais da cidade serrana de Viçosa. Essa pequena urbe, que dista 334 quilômetros da capital do estado, conta com uma forte influência herdada da colonização holandesa no nordeste do Brasil, presente em suas ruas e edifícios.

Depois dessa exposição, o trabalho que veio à continuação foi uma mostra individual intitulada A luz não tem idade, com fotografias que retratavam o espetáculo teatral “Nordeste Armonial”, protagonizado por pessoas da mal-chamada terceira idade no Treatro José de Alencar de Fortaleza em 1993. A exposição, que contou com o apoio do Serviço Social do Comércio (Sesc), e itinerou pelo interior do estado do Ceará e outras capitais brasileiras.

Nos anos 2005, 2007 e 2011, Marcos Vieira foi selecionado para a Unifor Plástica, o que significou um ponto de inflexão em sua carreira, já que lhe permitiu publicar vários trabalhos. Em 2015, realizou a exposição Aracati – Rastros e atalhos.

Aracati é a terra natal do pai, onde, ademais, Marcos teve a oportunidade de atuar como secretário ambiental. Assim, esse trabalho se caracteriza por ser o mais íntimo e pessoal, composto por recordações e personagens de sua infância nessa cidade. Finalmente, em 2018, monta a exposição Mulheres cearenses, retratanto mulheres empresárias, professoras, sobreviventes de câncer, mulheres negras, cientistas… com a ideia de mostrar a heterogeneidade do universo feminino cearense.

Em 2020, participou da mostra coletiva itinerante na UECE e na Semana Freiriana do Banco do Nordeste, na região do Cariri, com a exposição “Iandé Atã Joaju – Juntos Somos Fortes. Etnia Tremembé/Barra do Mundaú/Itapipoca/CE”. Esta mostra contou com o apoio da União Europeia e de várias secretarias do estado do Ceará, itinerou por vários municípios brasileiros e agora está aberta à visitação no CEB.

E para terminar, Marcos conta que desde 2021 apresenta a exposição SER-TÃO, um recordatório do que significa o espírito de SER-TÃO (jogo de palavras entre sertão, um espaço semiárido que engloba amplas regiões do interior do nordeste brasileiro e ser tão, ou seja, ser tanto, em espanhol). Para fechar, Marcos Vieira cita uma frase do mítico fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado, que diz que, no final das contas, não fotografamos com uma câmera e lentes, mas com uma cultura. Certo, não é?

IANDÊ Á’TÁ JOAJU – Juntos somos fortes!

Depois de conhecer a trajetória de Marcos Vieira como fotógrafo, conversamos sobre a exposição “IANDÊ Á’TÁ JOAJU – Juntos somos fortes!”, aberta à visitação no CEB até 20 de maio. A exposição é resultado do seu trabalho de campo, quando passou três meses com os Tremembé da Barra do Mundaú, no município de Itapipoca, no Ceará. Durante esse período, três fatores chamaram a sua atenção: o desconhecimento quanto à existência de indígenas no norte do Ceará por uma boa parte da população local, regional e nacional; a luta pela demarcação da terra e contra a especulação imobiliária nos 3.580 hectares reconhecidos pela Fundação Nacional do Índio (Funai) como reserva dos Tremembé; e a tradicional festa do Murici e do Batiputá, frutos sagrados para os Tremembé que utilizam para curar várias doenças, além de consumi-los em vários tipos de produtos.

Através de suas 40 fotografias, a exposição IANDÉ ATÃ JOAJU – Juntos somos fortes! traduz elementos marcantes do modo de vida, faces e visão de mundo do povo Tremembé. A exposição busca trilhar uma trajetória na contramão, visando não somente à fruição da arte expressada pela fotografia, mas, sobretudo, refletir sobre as populações autóctones, reafirmando as discussões e práxis, que não podem fechar os olhos para as realidades de opressão e etnocídio desses povos em terras brasileiras. Na entrevista, Marcos Vieira reivindica a demarcação urgentemente das terras indígenas, e seu direito à cultura, à educação e à preservação do território natural que constitui seu lar. A mostra contribui assim para esta luta dos povos indígenas, não só do Ceará, mas de todo o Brasil, para dar visibilidade a seus problemas e conseguir que seus costumes ancestrais não caiam no esquecimento, engolidos por uma modernidade imparável. A luta pela demarcação das terras se transforma, assim, numa luta por um desenvolvimento sustentável, uma luta pela preservação do meio ambiente e, definitivamente, pelo nosso futuro.

Marcos Vieira é professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE, Brasil), nas áreas de Sociologia, Cultura brasileira e fotografia. Coordena o Núcleo Audiovisual Jaguaribe – NAJA/ Campus IFCE/Jaguaribe, que trabalha com jovens e profissionais do cinema e outros meios audivisuais. O objetivo do NAJA é experimentar com linguagens fotográficas e cinematográficas e, através dessas ferramentas, estabelecer uma conexão com a cidadania, a democracia e o desenvolvimento sustentável. A ideia é que o NAJA consiga dar aos jovens da região de Jaguaribe, uma zona empobrecida de cerca de 50 mil habitantes, muito afetada pela sequia estacional recorrente no Nordeste brasileiro, os meios necessários para se fazerem ouvir e lutar por uma mlhor situação econômica, política e social. Ao longo de pouco mais de dois anos de atividade, o núcleo realizou vários trabalhos como vídeos e seminários, além de publicações. Para conhecer mais sobre o seu trabalho, fica aqui seus contatos: @marcosvieirace e @naja_audiovisual_jaguaribe

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