BioBrasil: Kitembo Edições Literárias do Futuro

Entrevistamos Israel Neto, um dos fundadores, com Anderson Lima e Aisameque Nguenge, da Kitembo Edições Literárias do Futuro.

Continuando com a ideia de divulgar a atualdiade do gênero fantástico brasileiro, não podíamos deixar de lado o mundo editorial, parte essencial do processo criativo. Sobretudo, quando se trata de uma editora jovem, dedicada a apoiar jovens autores, negros e negras, dedicados a gêneros tão apaixonantes como o terror, afrofuturismo, cyberpunk e a ficção científica. Por isso, o nosso protagonista desta tarde é Israel Neto, um dos fundadores, junto com Anderson Lima e o ilustrador Aisameque Nguenge, de Kitembo Edições Literárias do Futuro.

Chapter I: Kitembo Edições Literárias, a origem

A editora nasceu em 2018, como resultado de um trabalho de pesquisa realizado por Israel Neto, Anderson Lima e Aisameque Nguenge, três artistas vinculados à literatura e às artes visuais e com uma carreira incipiente no campo da poesia, conto e desenho. Na época, o afrofuturismo começava a ocupar cada vez mais um espaço nos meios de comunicação, graças ao filme  Pantera Negra, de Ryan Coogler (2018), baseada nos personagens e no universo criado por Stan Lee e Jack Kirby, na década de 1960. Os três se preguntaram, então, de que maneira os autores negros estavam trabalhando esse novo gênero emergente no Brasil. Percorreram várias feiras do estado de São Paulo e de outras regiões do país e, com desgosto, descobritam que havia poucos (ou quase nenhum) autor nacional com estas características. É mais: esses poucos escritores dedicados ao afrofuturismo como Fábio Kabral e Lú Ain Zaila (sobre quem já falamos aqui), não tinham um espaço onde publicar seus trabalhos e serem valorizados. Assim, surge a Kitembo, com o propósito de incentivar que a literatura negra brasileira entre em outros gênerose, especialmente, pensar o futuro e construir novas versões de nós mesmos.

Também buscavam conquistar leitores, especialmente os jovens. Muitos jovens leem literatura fantástica e ficção científica nas escolas e os afro-brasileiros não apareciam nem como personagens nem como autores. Por isso, se lançaram a chegar a eles, dar-lhes a oportunidade de se identificarem e aprofundar nas distintas identidades afro-brasileiras.

De lá para cá, Kitembo Edições Literárias já lançou 11 livros, obra de autores de diversas regiões do Brasil, do Norte ao Nordeste, passando pelo inevitável Sur-Sudeste (o famoso eixo Rio-São Paulo-Minas Gerais). Israel Neto afirma que esta variedade de procedência não é casual, mas proposital, como tentativa de mostrar as diversas africanidades que podemos encontrar no Brasil.

U,a última nota sobre a origem do nome da editora: como falamos antes, o afrofuturismo se centra em pensar o futuro e esse futuro está ligado a um tempo que não é lineal. Nas culturas angolanas, a figura do Nkisi Kitembo é a responsável do tempo fluído, da passagem das estações. Por isso, em homenagem a esta entidade ancestral, decidem chamar a editora Kitembo Edições Literárias.

Chapter II: os livros

Como Israel adiantava, até agora Kitembo Edições Literárias publicou um total de 11 livros, pertencentes a diversos subgêneros da literatura fantástica. Por um lado, encontramo-nos com os três volumes da antologia Afrofuturismo. O futuro é nosso, que incluem contos de diversos estilos (ficção dicentífca, policial, terror…), e nos quais participam um total de 15 autores e autoras e 4 ilustradores das mais diversas procedências.

Junto com as antologias, encontramos também duas distopias Os planos secretos do Regime e Eu conheço Uzomi. A primeira, obra do próprio Israel Neto, está ilustrada por Ariane Purik e inclui três contos/episódios sobre o período da ditadura militar brasileira, quando o governo consegue acesso à tecnologia de ponta e os protagonistas se envolvem em viagens espaciais, espionagem e manipulação mental. Eu conheço Uzomi, de Kinaya e Rômulo Fideis, é uma distopia sertaneja que passa no sertão do Ceará, em meio de altíssimas temperaturas e com um governo que privilegia a elite, detentora de um padrão de vida altamente tecnológico, e onde as descolas desapareceram, assim como qualquer serviço público destinada à população.

Estas são suas obras de mais sucesso (e mais: algumas estão esgotadas!), mas Israel Neto também destaca Ubuntu 2048, um romance cyberpunk de Raphael Silva e ilustrada por Inara Régia, que venceu o Prêmio Odisseia de Literatura Fantástica de 2021 na categoria de romance juvenil e o romance Amor banto em terras brasileiras, do próprio Israel e ilustrado por Aisameque Nguenge, que fala sobre a construção do mítico quilombo dos Palmares e inclui até um glossário e uma guia de pronúncia da língua quimbundu. Kitembo também editou dois romances gráficos: Os três Esús e o Tempo, de Rodrigo Cândido, destinado a um público infato-juvenil, que joga com a ideia do multiverso e Por um fio, de Will Rez e Lara de Paula, que nos apresenta uma sociedade que vive embaixo da água e que está conectada através de seus cabelos, sutis fios que lhes permite uma comunicação fluída com seus ancestrais.

Para terminar, Israel destaca a Space Opera Ancestral, que escreve em colaboração com Gê Mendes e que foi finalista do Prêmio Cubo de Ouro na categoria de melhor literatura geek e Crianças nas sombras, uma obra de terror e suspense, dos cariocas Hedjan CS e Amora Moreira, que conta a história de um menino negro que desaparece no Rio de Janeiro e que é buscado por dois jovens num misterioso complexo habitacional cheio de lendas urbanas.

Chapter III: Afrofuturismo, criando novos futuros

Neste ponto da entrevista, Israel Neto comenta algo bem curioso. Trata-se de que , para ele, nestemomento, no Brasil, há mais pesquisas acadêmicas sobre o afrofuturismo do que obras literárias afrofuturistas. Também fala que o afrofuturismo é mais do que um subgênero da ficção científica: é uma estética, um conceito, uma filosofia que inclui vários elementos básicos, entre eles:

  1. evidenciar a presença negra, africana e, neste caso, afro-brasileira, nas construção das civilização humana;
  2. e a projeção no futuro dessa presença, desse corpo negro, longe dos problemas que lhe atingem hoje em dia. Assim, a primeira pergunta nesses casos é: como seria um mundo sem racismo? O afrofuturismo se propõe a pensar sobre as diferentes possibilidades, as diferentes opções de um mundo sem fronteiras.

Israel também diz que o afrofuturismo não é algo dado, mas um guarda-chuva que ampara distintos criadores e autores, um motivo que em Kitembo Edições Literárias utilizaram para pensar o futuro e disputar o imaginário fantástico. Para conhecer mais sobre afrofuturismo, consulta os links e artículos disponíveis nas referências (tem até uma tese de doutorado).

Epilogue: difusão literária, outra aposta para o futuro

Kitembo Edições Literárias é mais do que uma editora: conta com um programa de difusão literária estupendo, e por isso pedimo a Israel Neto que falasse um pouco sobre este tema.

Israel conta que eles perceberam que, pouco a pouco, estavam criando um pequeno círculo de leitores de afrofuturismo e fantasia negra, pessoas com uma certa independência financeira, mas também jovens e adolescentes que careciam de recursos próprios e que, portanto, não podiam comprar livros. Por isso, decidiram criar um movimento inverso, e ir eles em busca desse público jovem a partir do programa Difusão Literária. Este está formado por diversas atividades como conversações com autores, conferências, workshops e, mais recente, o maravilhoso Clube do livro, destinado a buscar apoios, pessoas disponíveis para “adotar” uma sala. No Brasil, as salas contam com uns 30-35 estudantes, de forma que o doador compra na editora 35 livros e Kitembo Edições Literárias vai até as escilas e entrega os livros à turma selecionada e, como a joia da coroa, leem os livros com os estudantes! O Clube do livro começou a funcionar em 2022, e é uma experiência fantástica, porque os jovens normalmente não conhecem os autores das obras que leem e nestas sessões podem conecê-los pessoalmente e até conseguir um autógrafo! Além disso, Kitembo Edições Literárias cede todos os direitos das obras donadas, tanto os editoriais como os de autor, de forma que a editora não obtem nenhum tipo de benefício com este projeto. É um presente, um gesto altruísta, destinado a estimular o gosto pela leitura e para plantar uma semente para o nascimento de novos escritores e escritoras.

O Clube do livro está aberto a todo mundo, qualquer pessoa pode “adotar” uma sala e comprar livros para fomentar a leitura entre os jovens. As escolas que queiram aumentar a variedade de seus acervos também podem participar.

Agradecemos a Israel Neto sua amabilidade e disponibilidade para esta entrevista. Foi um prazer conversar com ele e conhecer um pouco mais sobre a Kitembo Edições Literárias e seu maravilhoso projeto e, sobretudo, falar de afrofuturismo, de diversidade cultural e da importância da literatura em todos os âmbitos.

Referências

https://www.youtube.com/watch?v=0LWmuVweLhM
“Afrourbana” do disco Pretambulando (2021), de Taslim.

www.kitembo.com.br
www.editora-kitembo.lojaintegrada.com.br/
www.instagram.com/kitembo_literatura

Sobre afrofuturismo

Gomes de Souza, W., Afrofuturismo: o futuro ancestral na literatura brasileira contemporânea, tese de doutorado, Unb, 2019. Recuperado de [https://repositorio.unb.br/bitstream/10482/35472/1/2019_WaldsonGomesdeSouza.pdf].

Vieira Silva, K. C. e Carvalho Quadrado, J., “O afrofuturismo como forma de representação cultural”, EMICult, V. 2, 2016. Recuperado de [http://omicult.org/emicult/anais/wp-content/uploads/2016/11/O-AFROFUTURISMO-COMO-FORMA-DE-REPRESENTA%C3%87%C3%83O-CULTURAL-2.pdf].

Burocco, L.; “Afrofuturismo e o devir negro do mundo”, Arte e Ensaios, nº 38, julho 2019, pp. 49-59. Recuperado de [https://www.researchgate.net/publication/340299508_Afrofuturismo_e_o_devir_negro_do_mundo_Afrofuturism_and_the_becoming-black_of_the_world].

Souza, E. O., e Assis, K. R. (2021). “O afrofuturismo como dispositivo na construção de uma proposta educativa antirracista”, Entheoria: Cadernos de Letras e Humanas6(1), 64–74. Recuperado de [http://www.journals.ufrpe.br/index.php/entheoria/article/view/3009]

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