BioBrasil: entrevista com Alysson Fábio Ferrari

O vencedor da 5ª edição do concurso de relato breve do CEB conta sobre a sua experiência e sobre (a melhor) literatura brasileira contemporânea.

Há poucos dias anunciamos o resultado da 5ª edição do concurso de relato breve do CEB, “Cuéntame un cuento”. O concurso contou coa a colaboração do Museu da Vida da Fundação Oswaldo Cruz e esteve dedicado à Ciência no Brasil.

O conto vencedor foi “Futuro do pretérito”, de Alysson Fábio Ferrari, físico teórico e professor da Universidade Federal do ABC, de São Paulo. Neste surpreendente relato, narrado em um tempo verbal ambíguo, conhecemos a história de um jovem estudante. Ele não sabe, mas o ponto de inflexão que mudará a sua vida será uma manhã de tempestade, quando casualmente encontra um livro na biblioteca da escola. A partir desse dia, dessa hora, já nada será igual…

Bateu a curiosidade? Saibam, pois, que o relato será publicado em e-book, com o vencedor do segundo prêmio e os 10 finalistas pela Ediciones Universidad de Salamanca. Em breve, todos os contos estarão disponíveis. Mas, enquanto isso, no “BioBrasil” de hoje, apresentamos o autor de “Futuro do pretérito”, Alysson Ferrari, que teve a grande amabilidade de conceder-nos uma entrevista de lá do outro lado do Atlântico.

Para começar, Alysson conta como a literatura e, especialmente, a ficção científica, despertou nele o interesse pela ciência. Ainda na adolescência enveredou pelos caminhos escritura, e publicou vários relatos de ficção científica em revistas especializadas. Depois de formar-se em Física em Porto Alegre, começou a trabalhar como professor na Universidade Federal do ABC e deixou de escrever ficção. O mundo acadêmico tem o seu próprio ritmo e não costuma deixar muito espaço para a ficção. Porém, com a pandemia a sua vida deu um giro de 180º. Começou a refletir sobre o que realmente lhe fazia feliz e retomou a literatura.

Seguimos a entrevista perguntando a Alysson como foi a sua participação no concurso. Ele nos conta que conheceu o concurso através da Sociedade Brasileira de Física, que divulgou o regulamento. A ciência é algo que ele vive em seu dia a dia, e por isso pensou que o concurso estava feito à medida para ele. Além disso, Alysson conta que se formou como cientista num momento de grande otimismo, quando o governo brasileira investia bastante nas áreas científicas. Hoje em dia, a situação é completamente diferente, com o negacionismo como bandeira das principais instituições oficiais e toda ordem de obstáculos para o desenvolvimento da ciência. Brasil é o país do futuro, mas um futuro que permanentemente arrasta os problemas do passado. Esse foi o sentimento que lhe inspirou para escrever a história vencedora do concurso, um conto que não é otimista, diz Alysson, mas que dá testemunho do clima que hoje se vive no Brasil.

A entrevista continua, mas falando sobre literatura brasileira em geral. Pedimos que nos recomendasse alguns títulos das letras brasileiras. Alysson se desvia dos grandes clássicos, dos autores e das obras mais conhecidas, para falar do trabalho de alguns criadores especialmente vinculados a períodos específicos da sua vida.

Ná época em que vivia em Porto Alegre, havia uma editora chamada Livros do Mal, que já não existe, que publicou alguns de seus autores preferidos. Por exemplo, Daniel Galera, de quem recomenda Barba Ensopada de Sangue, Meia noite e vinte, que reflete muito bem a sensação de falta de esperança de boa parte da sociedade brasileira atual e O Deus das Avencas, o seu primeiro mergulho na na ficção científica. Também cita a Paulo Scott e os livros Marrom e Amarelo que trata da questão racial no Brasil e O Habitante Irreal, sobre as populações indígenas do Rio Grande do Sul. Outro autor que aborda o tema indígena, e que Alysson também recomenda, é Joca Reiners Terron e o seu A Morte e o Meteoro, no qual a partir de uma ficção (a extinção da floresta amazônica), aborda temas da atualidade, como os direitos das populações originárias e o conflito entre desenvolvimento e meio ambiente. Este autor acaba de lançar também a distopia O Riso dos Ratos, um breve romance no qual assistimos a degradação moral do protagonista. Por último, não podemos perdernos o trabalho de Jefferson Tenório, O Avesso da Pele, no qual trata do processo de construção do racismo no Brasil.

E para terminar a entrevista, perguntamos a Alysson quais são seus planos para o futuro próximo. Ele nos conta que retomou o caminho da literatura com vontade e que está trabalhando num romance de ficção científica que começou a escrever em 2020, quando começou a pandemia. Se quiser conhecer um pouco mais sobre o vencedor do concurso, siga-o nas redes sociais.

Música no programa

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