O BMQS dedica sua emissão a Ariano Suassuna, o dramaturgo, poeta e romancista que fundou no Recife o Movimento Armorial, com o qual buscava impulsionar as expressões artísticas da cultura popular nordestina. Suassuna também é o protagonista do IV Congresso Internacional de Literatura Brasileira, organizado pelo CEB em colaboração com a Academia Brasileira de Letras, que acontecerá de 11 a 13 de dezembro de 2024, na Faculdade de Filologia da Universidade de Salamanca.
Ariano Suassuna foi autor de obras teatrais como Uma Mulher Vestida de Sol (1942), Os Homens de Barro (1949), e a famosa O Auto da Compadecida (1955), e em sua faceta como romancista compôs, entre outros, O Romance d’A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta (1971) e a História d’O Rei Degolado nas caatingas do sertão / Ao sol da Onça Caetana (1976). Mas, Ariano Suassuna foi muito mais: advogado, filósofo, militante irredutível de esquerda, artista plástico… Sua vida e obra foram daquelas que deixam marca e, nesta emissão do BMQS, damos uma pequena revisada em ambas.
Convidamos vocês a entrar em um mundo cheio de cor, magia, calor e ritmo, o mundo de Ariano Suassuna.
Os primórdios do escritor.

Ariano Vilar Suassuna nasceu na cidade de João Pessoa (no estado da Paraíba), em 16 de junho de 1927, e faleceu em Recife (Pernambuco) em 23 de julho de 2014. No momento de seu nascimento, seu pai, João Suassuna, era o presidente (o que hoje seria o governador) do estado da Paraíba. Então, Ariano deu seus primeiros passos no Palácio da Redenção, sede do executivo paraibano.
Quando tinha apenas três anos, seu pai foi assassinado durante o movimento armado que culminou na Revolução de 1930 e sua família se mudou para Taperoá, um pequeno município do interior do estado, onde Ariano começou seus estudos e entrou em contato, pela primeira vez, com a essência da cultura nordestina. Lá assistiu, por exemplo, sua primeira peça de Mamulengo, um tipo de teatro de bonecos em que se contam histórias cômicas ou satíricas e, também, presenciou um desafio de violas, cujo caráter de improvisação seria uma das marcas características da posterior produção teatral de Suassuna.
Em seu discurso de ingresso na Academia Brasileira de Letras, o próprio Ariano Suassuna reconhecia que a morte de seu pai ocupava um lugar central em sua atividade criativa:
Posso dizer que, como escritor, eu sou, de certa forma, aquele mesmo menino que, perdendo o pai assassinado no dia 9 de outubro de 1930, passou o resto da vida tentando protestar contra sua morte através do que faço e do que escrevo, oferecendo-lhe esta precária compensação e, ao mesmo tempo, buscando recuperar sua imagem, através da lembrança, dos depoimentos dos outros, das palavras que o pai deixou.
Ariano Suassuna, discurso de ingresso na Academia Brasileira de Letras, 9 de agosto de 1990.
Desde 1942, Ariano Suassuna passou a viver no Recife onde concluiu seus estudos secundários e se matriculou na Faculdade de Direito. Após estrear como poeta com “Nocturno”, uma poesia publicada no Jornal do Commercio em outubro de 1945, em 1947 escreveu sua primeira peça de teatro Uma mulher vestida de Sol e não parou mais. A essa primeira peça seguiram-se Cantam as Harpas de Sião (ou O Desertor de Princesa), encenada pelo Teatro do Estudante de Pernambuco, Os Homens de Barro, o Auto de João da Cruz, que recebeu o Prêmio Martins Pena, Torturas de um Coração, O Castigo da Soberba (1953) e, já em meados dos anos 50, O Rico Avarento (1954) e o aclamado Auto da Compadecida (1955), que fez com que seu nome começasse a ser conhecido além das fronteiras nordestinas, por todo o Brasil.
E é que O Auto da Compadecida é, talvez, a obra mais conhecida de Ariano Suassuna, encenada centenas de vezes em todo o país e adaptada para o cinema e a televisão. Sua versão mais famosa é a comédia fantástica dirigida por Guel Arraes no ano 2000 e protagonizada, entre outros, por Fernanda Montenegro.
O Movimento Armorial.
A partir de 1960, Ariano Suassuna deixou de lado sua bem-sucedida carreira como dramaturgo para se dedicar ao ensino na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE, Brasil). Foi membro fundador do Conselho Federal de Cultura e, em 1969, o reitor da UFPE o nomearia diretor do Departamento de Extensão Cultural dessa universidade.
Assim, estreitamente vinculado ao mundo da cultura, em 1970 Ariano Suassuna iniciou no Recife o conhecido como “Movimento Armorial”, cujo objetivo era criar uma arte erudita a partir de elementos da cultura popular do nordeste brasileiro. Para isso, buscou uma convergência de todas as expressões artísticas: música, dança, artes plásticas, teatro, cinema, arquitetura, etc.
O pontapé inicial do movimento foi o concerto “Três Séculos de Música Nordestina – do Barroco ao Armorial” e a exposição de gravura, pintura e escultura inaugurada na igreja de São Pedro dos Clérigos em outubro de 1970. No entanto, foi a publicação do romance de Suassuna Romance da Pedra do Reino (1971), com grande repercussão no meio literário brasileiro, que deu impulso ao restante do trabalho coordenado por Ariano. Foi assim que se reproduziram as mostras de arte armorial, com peças literárias tanto em verso quanto em prosa inspiradas na literatura de cordel, ilustrações realizadas com xilogravura, como as do artista Gilvan Samico, um dos seus representantes mais destacados e, é claro, com muita música, onde instrumentos tão nordestinos como a viola ou a rabeca eram os indiscutíveis protagonistas.
O estilo inconfundível de Ariano Suassuna
Autor prolífico como bem diz a pesquisadora Solange Pinheiro de Carvalho
sua escrita é repleta de elementos da cultura popular nordestina, (…) ao mesmo tempo que é complexa e elaborada, traz toques de oralidade e espontaneidade ao captar a linguagem e as expressões populares do Nordeste.
Carvalho Apud Toquetti, G. F. (16/06/2023). Nascimento de Ariano Suassuna. Hoje na História. Recuperado de https://www.fflch.usp.br/63266
Emer Merari Rodrigues afirma que
Esses traços estilísticos particularizantes, essas características específicas de folheto, o sonho armorial (de transformar arte popular em erudita) e principalmente a fusão complexa de autor, escritor, personagens reais e fictícios é o que o torna culturalmente atemporal
Rodrigues Apud Toquetti, G. F. (16/06/2023). Nascimento de Ariano Suassuna. Hoje na História. Recuperado de https://www.fflch.usp.br/63266
Seus personagens geralmente são estereótipos, como o latifundiário tirânico e avarento, o cangaceiro violento e fora da lei a meio caminho entre o heroísmo e a vilania, o policial corrupto, o sertanejo pobre mas astuto, o sacerdote a serviço dos poderosos, a falsa beata… No entanto, isso não torna seus textos simples: o uso do metalinguagem, a paráfrase, as citações interrompidas de propósito no meio do caminho são uma constante em suas obras.
Suassuna foi um ardente defensor da cultura e das tradições regionais, embora não se opusesse à mudança nem às influências estrangeiras, que só não tolerava quando lhe eram impostas ou utilizadas para menosprezar a cultura local. Também foi um crítico do contexto social de desigualdade e opressão em que vivia o sertanejo, o habitante rural do sertão, da violência, da pobreza e da fome endêmicas, mas sem cair na moralina e recorrendo muitas vezes ao humor e à sátira. E é que, embora não tenhamos dito até agora, Ariano Suassuna também era um homem tremendamente divertido, com um humor ácido e certeiro, do qual fazia gala em suas aulas e entrevistas, como esta concedida ao mítico Jô Soares, por ocasião de seu 80º aniversário.
Em 1990, Ariano Suassuna foi eleito membro da Academia Brasileira de Letras, onde ocupou a cadeira nº 18, recebeu vários doutorados honoris causa, foi nomeado presidente de honra do Partido Socialista Brasileiro (PSB)… e até foi o protagonista do enredo da escola de samba Império Serrano no carnaval de 2002. Faleceu em 23 de julho de 2014, em Recife, vítima de uma parada cardíaca. Seu corpo foi sepultado no Cemitério Morada da Paz, em Paulista, na região metropolitana do Recife.
Para terminar, lembramos que, de 11 a 13 de dezembro de 2024, a Faculdade de Filologia acolhe a quarta edição do Congresso Internacional de Literatura Brasileira, dedicada a Ariano Suassuna, e que os interessados têm até o próximo dia 1º de novembro para enviar suas propostas de comunicação ou de apresentação de livros.
Para saber mais
Morais, J. R. (2020). Um Hermeneuta da Tradição Sertaneja: Ariano Suassuna e o Romance d’A Pedra do Reino. História e Cultura, 9(1). Disponível aqui.
Rios, P. (2011). A poesia armorial de Ariano Suassuna. Fórum de Literatura Brasileira Contemporânea, 3(6). Disponível aqui.
Bandeira, P. (2017). O poeta-músico Ariano Suassuna ou a música como instância desvelante da poeticidade. Fórum de Literatura Brasileira Contemporânea, 9(17). Disponível aqui.
Toquetti, G. F. (16/06/2023). Nascimento de Ariano Suassuna. Hoje na História. Disponível aqui.
Música no programa
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