BioBrasil: Clarice Lispector

Clarice Lispector: uma das escritoras mais importantes do século XX no Brasil.

Esta edição do BioBrasil traz uma das biografias mais prolíficas e disruptivas da literatura brasileira: a escritora Clarice Lispector. Nascida na cidade de Tchetchelnik, na Ucrânia, Clarice Lispector tinha apenas dois anos quando chegou ao Brasil – Maceió (Alagoas, Brasil) foi o primeiro destino da família. Além de escritora de ensaios, artigos e contos infantis, ela foi jornalista, tradutora, e entre suas obras literárias destacam-se os romances A Paixão segundo G.H. (2023, editora Corregidor), A maçã no escuro (2016, editora Siruela), Perto do coração selvagem (2023, editora Corregidor), A hora da estrela (2015, editora Siruela).

Lispector pertenceu à terceira fase do Modernismo – movimento da segunda década do século XX, que buscava romper com as tradições estéticas e sociais da literatura brasileira da época, destacando a experimentação e a liberdade criativa – e sua obra, difícil de encapsular em um estilo literário, poderia ser descrita como eclética, reflexiva e introspectiva, lembrando-nos de escritoras como Virginia Woolf (1882-1941), James Joyce (1882-1941) ou Franz Kafka (1883-1924).

Quem foi Clarice Lispector?

A autora nasceu em 1920 em Tchetchelnik (Ucrânia), numa Europa assolada pelos estragos da Guerra Civil Russa. De origem judaica, sua família havia perdido tudo quando decidiram migrar para o Brasil. Ao chegar, os pais mudaram o nome da pequena Chaya para Clarice.

Sua origem ucraniana, suas tradições judaicas e até mesmo sua maneira de falar – pois ela tinha rotacismo, uma dislalia que impede a articulação correta do som /r/ – são, segundo alguns pesquisadores, como Florencia del Campo, condições que impossibilitaram um sentimento de pertencimento que marcou sua vida. Além disso, é sua condição de mulher e tudo o que isso implicava em sua época, o que faz com que Clarice fale constantemente em sua obra sobre o feminino como uma forma de estrangeiridade.

Optando pelo português, ela começou a escrever cedo. Aos 14 anos, mudou-se para o Rio de Janeiro com seu pai e uma de suas duas irmãs – a mãe havia falecido anos antes, após contrair sífilis como consequência de um estupro durante a Primeira Guerra Mundial. Lá, desde muito jovem, começou a ler autores que influenciariam sua obra, como os brasileiros Machado de Assis (1839 – 1908), Rachel de Queiroz (1910 – 2003), Eça de Queiroz (1845 – 1900), Jorge Amado (1912 – 2001) ou autores estrangeiros como Fiódor Dostoievski (1821 – 1881).

Clarice Lispector estudou Direito no Rio de Janeiro, onde conheceu Maury Gurgel Valente, com quem se casaria em 1943. Acompanhando o marido diplomata, Lispector mudou-se várias vezes, vivendo em cidades tão diversas como Nápoles, Washington, Berna ou Paris.

Em 1966, Clarice sofreu um acidente que marcou sua vida. Enquanto fumava um cigarro na cama de seu apartamento no Rio de Janeiro, um incêndio começou e a escritora ficou gravemente ferida, com queimaduras que afetaram seu rosto e parte do corpo. O acidente com o cigarro marcou um ponto crucial na vida de Clarice Lispector, não apenas pelas lesões físicas, mas também por um processo de profunda introspecção que influenciou sua escrita posterior.

O estilo da autora

Ela mesma descreve seu estilo como “não estilo”. A escrita de Lispector é caracterizada por sua originalidade. Em várias entrevistas, como a que concedeu pouco antes de sua morte, ela falou sobre seu processo de escrita.

Suas obras destacam-se por um estilo e uma estrutura extremamente líricos, que exploram intensamente o mais íntimo, e estão sempre ligados a processos emocionais e mentais complexos.

Os personagens em suas obras costumam fazer observações perspicazes, apresentam-se em situações vitais de forma penetrante e as avaliam com precisão. Ela sempre utiliza uma prosa reflexiva, muitas vezes misturada com mistério. Lispector estava fascinada pela presença da consciência na escrita e isso se tornou um tema recorrente em suas obras. Ela não costumava analisar explicitamente os estados mentais dos personagens, mas os mostrava diretamente por meio de seus pensamentos, incentivando os leitores a interpretarem suas obras por si mesmos.

Obra literária

Em 1944, Clarice Lispector publicou seu primeiro romance, Perto do coração selvagem. Durante os anos 1970, suas obras foram amplamente traduzidas para o francês, inglês, alemão e espanhol. Mais tarde, escreveria obras como A maçã no escuro (1961), um romance que explora temas de identidade e solidão; Água viva (1973), um texto experimental que reflete sobre a natureza da linguagem e da consciência; A hora da estrela (1977), que acompanha a vida de Macabéa, uma jovem pobre do Nordeste do Brasil que se muda para o Rio de Janeiro; ou Um sopro de vida (1978), obra póstuma publicada após sua morte, que segue um autor no processo de criação de um romance.

Além das obras mencionadas anteriormente, Clarice Lispector escreveu uma série de contos e relatos curtos que também são notáveis em seu corpus literário. Neste episódio do BMQS, incluímos um de seus contos pertencente ao livro intitulado Doze lendas brasileiras (Rocco Pequenos Leitores, 2014). Trata-se de um pequeno conto onde Clarice explora a mitologia e a cultura brasileira através de narrativas mágicas e misteriosas, oferecendo uma visão única do folclore do país. O livro foi publicado pela primeira vez em 1967, e cada história tem o título de um mês diferente.

Clarice Lispector é sem dúvida uma das escritoras mais importantes da literatura brasileira e universal. Convidamos você a mergulhar em sua vida e obra e se envolver com sua maravilhosa produção literária. Quem quiser conhecer mais sobre a vida e a obra desse ícone das letras brasialeiras, visita o site do Instituto Moreira Salles. Confere lá!

Música no programa de Felipe Pessoa, disponível aqui.

BioBrasil é uma coluna do programa Brasil es mucho más que samba dedicada a divulgar a biografia de expertos, profissionais e personagens (históricos e atuais) da vida cultural, política e social brasileira. Brasil es mucho más que samba se emite todas às terças-feiras, às 17h30, em Rádio USAL. Para sugerir uma pauta ou contatar com a equipe do programa, escreva ao masquesamba@usal.esEste podcast foi produzido por Clara Fuente Díaz e Beatriz González Martínez, estudantes de Graduação de Antropologia da Universidade de Salamanca.

Compartir

Relacionado:

Falamos de ficção especulativa pelas mãos da escritora brasileira Clara Madrigano
Entrevista com Julimar Bichara sobre Brasil, economia global, lideranças progressistas e desafios internacionais atuais contemporâneos
No programa de hoje, revisamos a vida e as contribuições teóricas da antropóloga brasileira e ativista feminista negra Lélia Gonzalez.