BioBrasil: R. F. Lucchetti. In Memoriam

BMQS homenageia R. F. Lucchetti, conhecido como o Papa do pulp brasileiro, que faleceu no último 5 de abril.

No último 5 de abril faleceu Rubens Francisco Lucchetti, escritor, roteirista, jornalista e leitor voraz, além de um dos pioneros no gênero obscuro no Brasil. Autor de mais de 1500 livros, 25 roteiros cinematográficos, centos de programas de rádio e televisão e mais de trezentos quadrinhos, é conhecido como o Papa da “pulp fiction” brasileira. BMQS faz uma pequena homenagem a este autor plural e incansável, que não deixou ninguém indiferente.

Antecedentes

R. F. Lucchetti nasceu em 30 de janeiro de 1930, em Santa Rita do Passa Quatro, uma pequena cidade do interior do estado de São Paulo. Apesar de não ter recebido uma educação formal – ele mesmo se afirmava um autodidata -, a sua atuação profissional sempre esteve vinculada às letras, especialmente ao jornalismo. Começou a sua atividade nessa área em 1948, e durante os 15 anos seguintes  colaborou em todos os jornais que existiam na época em Riberão Preto: Diário da ManhãA TribunaA CidadeO DiárioDiário de Notícias e A Palavra. Escrevia folhetos, contos, poemas e textos sobre cinema e literatura. Também publicou na famosa revista pulp X-9, publicada pelo jornal O Globo, e depois assumida pela Rio Gráfica Editora de Roberto Marinho.

Nas décadas seguintes, entrou no mundo do rádio e chegou a ser o gerente de um dos principais cinemas de Riberão Petro: o Cine Centenário. Também se dedicou aos quadrinhos: desde os anos 60, escreveu vários roteiros para alguns dos maiores desenhistas do Brasil como Nico Rosso, Eugênio Colonnese, Rodolfo Zalla, Julio Shimamoto, Sérgio Lima e José Menezes.

Em 1966, pouco tempo depois de se mudar para São Paulo, começou a trabalhar com o cineasta José Mojica Martins. Para ele, escreveu vinte roteiros de longametragens e os scripts de seus programas de televisão AlémMuito Além do AlémO Estranho Mundo de Zé do Caixão.

Criador de várias revistas, escritor incansável de livros de bolso, columnista… R. F. Lucchetti dedicou a vida toda ao gênero do mistério e ao terror e é referência indiscutível do pulp brasileiro.

A entrevista

Em outubro de 2016, BMQS lanou uma série de emissões dedicadas à literatura e ao cinema de horror. Na ocasião, foram emitidas entrevistas com os escritores Eric NovelloAndré ViancoMarcelo Amado, fundador da editorial Estronho. A série terminou com uma entrevista a R. F. Lucchetti, a quem já havíamos dedicado otro programa.

Na entrevista, falamos de suas influências, algumas clássicas e outras que chamamos “Serie B”, como ele mesmo relata:

O maior de todos seria o Poe. Essa seria a principal influência na literatura que eu sofri. Eu também gosto muito do Conan Doyle, o criador do Sherlock Holmes, e isso já no campo da literatura policial. Mas, assim, dentro da literatura de horror, terrorífica, eu gosto muito do (...) Henry James, que escrevia umas histórias de fantasmas. O fantasma dele era muito diferente (…). Agora, eu também sofri muita influência do cinema. Sobretudo de uma série de filmes produzidas pelo Val Lewton, que era um russo, que depois migrou para os Estados Unidos. Nos anos 40, na RKO, ele produziu nove filmes que praticamente revolucionaram o horror cinematográfico. Ele criou o horror psicológico com filmes como “Sangue de pantera”, “A sétima vítima”, “A morta-viva”, “Túmulo vazio”, “Asilo sinistro” e “A ilha dos mortos”.

Ao longo de sua vida, Lucchetti trabalhou com vários formatos: da elaboração de roteiro radiofônicos, de cinema e de televisão ao quadrinho e romance, e se sentia confortável em todos eles:

Eu não tenho assim uma dificuldade de escrever nenhuma dessas expressões artísticas. As minhas histórias são bem visuais, mesmo essas histórias escritas. Eu procuro fazer como se você (o leitor) estivesse assistindo a um filme. (…) Agora, a dificuldade sempre está em você começar a história, dar início à história (…). A partir do momento que você tem já o início, aí se torna mais simples. Aí, o difícil é parar de escrever, de dar o corte final.

Na entrevista, Lucchetti também fala sobre a literatura de horror e suspense no Brasil. Para ele, até há pouco tempo ainda havia muito preconceito com esses gêneros literários no Brasil.

O horror, o suspense, o mistério, o policial são chamados de “literatura menor”. Eu acho que não existe literatura menor ou maior. Eu acho que existe texto bem escrito e mal escrito, isso que existe. Não existe essa distinção do que é maior e do que é menor.

A herança de R. F. Lucchetti

Em 2014, a Editorial Corvo lançou a “Coleção R. F. Lucchetti”, na qual publicaram 15 livros de sua autoria, entre eles As Máscaras do PavorRachelA Mansão de SoronaO fantasma de GreenstockO Último Manuscrito do Dr. WatsonO museu dos horrores.

Em 2015, Rafael Spaca lançou o livro Conversações con R. F. Lucchetti, resultado de oito anos de pesquisa e muita dedicação. Na obra, o autor compartilha algumas das correspondências que compartilhou com Lucchetti ao longo dos anos, nas que respondia suas perguntas e revelava ao público parte de sua história e do seu impressionante processo criativo.

Pouco depois, C. B. Kaihatsu publicou a coletânea O mundo fantástico de R. F. Lucchetti (2018) na qual promissores nomes do horror e do suspense brasileiro homenageiam o Papa do pulp nacional.

Terminamos esta homenagem, com uma interessante reflexão que o autor compartilhou no final da entrevista:

Aqui [no Brasil] sempre se privilegia uma literatura, um cinema e um quadrinho que mostra a realidade como ela é. E a realidade não tem que ser mostrada como ela é (...), ela não pode ser mostrada como ela é, porque senão ela vira um documentário. Os quadrinhos e o cinema não são documentários.

Para saber mais:

BioBrasil é uma coluna do programa Brasil es mucho más que samba dedicada a divulgar a biografia de expertos, profissionais e personagens (históricos e atuais) da vida cultural, política e social brasileira. Brasil es mucho más que samba se emite todas às terças-feiras, às 17h30, em Rádio USAL. Para sugerir uma pauta ou contatar com a equipe do programa, escreva ao masquesamba@usal.es.

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