O samba da minha terra: Museu da História e da Cultura Afro-Brasileira

Nesta entrega uma entrevista com a arte-educadora Mariana Maia, da equipe do MUHCAB sobre história e memória da cultura afro-brasileira no rio de Janeiro.
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Fonte: Página web institucional.

O Museu da História e da Cultura Afro-Brasileira (MUHCAB) pertence à Secretaria de Cultura da Prefeitura do Rio de Janeiro e foi criado em 12 de maio de 2017, através do decreto municipal nº 43.128/2017, num contexto de resgate e valorização da história africana e afro-brasileira no Brasil, e especialmente no Rio de Janeiro, tendo como um dos pontos fundamentais a elevação do Cais do Valongo à categoria de Patrimônio Mundial pela Unesco, em julho de 2017.

O MUHCAB é um museu de território e está situado no bairro da Gamboa, no Cais do Valongo, na zona portuária do Rio de Janeiro, uma região conhecida como Pequena África. A instituição tem como objetivo cotar a história dessa região, que recebeu africanos e africanas vindos para o Brasil em situação de escravidão. Por isso, o MUHCAB pretende abordar a história e cultura afro-brasileira a partir da perspectiva de seus protagonistas. E para contar-nos sobre o museu e as atividades que desenvolve, entrevistamos Mariana Maia, do setor Educativo da instituição.

História

O edifício onde se localiza a sede do MUHCAB foi construído pelo Imperador Dom Pedro II e foi finalizado em 1877. Inicialmente, o edifício tinha como destino ser a Escola da Freguesia de Santa Rita. Mais tarde, na década de 1960, virou a Escola José Bonifácio, depois, em 1983, virou o Centro Cultural José Bonifácio, com o objetivo de se um “espaço de celebração da cultura afro-brasileira”. A criação do museu em 2017 – coincidente com a nomeação do Cais do Valongo como Patrimônio Mundial -, veio como uma continuação dessa trajetória e compromisso de valorização da negritude. Em colaboração com a Unesco, a instituição pôde contar com consultores PRODOC para a sua proposição como um museu de território. Como museu de território a instituição promove a articulação entre

o patrimônio material e imaterial, valorizando os saberes da comunidade onde ele está inserido. Então, a história e a importância da região da Pequena África são abordadas pelo nosso museu. Essa história, por vezes, foi esquecida, silenciada e até intencionalmente soterrada. O próprio Cais do Valongo foi aterrado e virou o Cais da Imperatriz, e só com as obras de revitalização do porto, que ele foi redescoberto. Então, a ideia desse museu de território, do MUHCAB, é de valorizar e reinterpretar a história dessa região.

Mariana Maia

Acervo

Sendo um museu de território, essa característica tem uma importância decisiva na singularidade do acervo que o museu alberga: museológico e territorial. Segundo Mariana Maia, o acervo territorial está formado por todos os espaços do Cais do Valongo, relacionados com a chegada de africanos e africanas em situação de escravidão. Igualmente, são parte do acervo territorial o Morro do Pinto, o Morro da Providência e o Quilombo da Pedra do Sal, todos eles “espaços de ocupação e de resistência da população africana e afrodescendente” (Mariana Maia).

Por outro lado, o acervo museológico inclui peças que foram sendo adquiridas ao longo da história do espaço, desde o período como Centro Cultural José Bonifácio até hoje, como MUHCAB. Entre as peças desse acervo há pinturas do Heitor dos Prazeres, Manezinho Araújo e do Nelson Sargento, além de outros nomes da pintura, da escultura e da gravura. Igualmente, entre o acervo museológico, há três coleções fotográficas: a coleção da Fundacen, a coleção doada pela atriz Ruth de Souza e o acervo institucional do Centro Cultural José Bonifácio. O acervo ainda conta com obras de artistas contemporâneos, como Rona Neves e Yhuri Cruz, cujos trabalhos fazem parte da exposição de longa duração do MUHCAB.

Com relação à existência de acervo sobre o samba, além de que o território onde está o museu é parte fundamental da história do samba no Rio de Janeiro, como acervo documental, além dos já mencionados Heitor dos Prazeres e Nelson Sargento, há obras de Manezinho Araújo, conhecido como o Rei da Embolada, e registros fotográficos de shows de grandes nomes da música brasileira, como Elza Soares e Carmen Costa.

“O acervo do MUHCAB é um espaço fértil para pesquisa, inclusive em relação ao universo do samba” (Mariana Maia). Ainda sobre pesquisa, vale a pena conferir dentro do portal do museu, a página com recursos de pesquisas académicas.

Atividades

O MUHCAB desenvolve atividades permanentes e esporádicas: exposições de longa duração e temporárias. Atualmente, está em carta a exposição “Protagonismos: memória, orgulho e identidade”. A partir de janeiro de 2022, o MUHCAB oferecerá oficinas de teatro, de dança afro, de percussão, de grafite, além de shows, mostras de performance, mostras de teatro, ensaios de blocos carnavalescos, atividades de cineclubismo e literárias, além das ações do setor Educativo, junto a comunidades de alunos e professores.

Uma das grandes linhas de atuação do MUHCAB é o projeto “Territórios Negros”, que consiste em uma plataforma para a valorização e a divulgação da importância do patrimônio histórico e cultural da região da Pequena África. De acordo com Mariana Maia “Territórios negros” é um projeto do grupo Núcleo de Estudos e Pesquisa em Geografia, Relações Raciais e Movimentos Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em diálogo com o Instituto e com o MUHCAB, com o patrocínio do Conselho de Arquitetura e Urbanismo. O seminário do projeto aconteceu no passado mês de julho, e contou com a participação de pensadores, professores, pesquisadores da história e cultura negra e da região da Pequena África. Todas as mesas do seminário “Territórios negros” estão disponíveis no canal de YouTube do projeto.

Durante esse período de pandemia, o MUHCAB ofereceu através de suas redes sociais uma exposição virtual, “Conexão MUHCAB”, na qual participaram vários artistas contemporâneos, afro-brasileiros, entre eles Maurício Hora, um importante artista da fotografia do Morro da Providência.

Com relação às perspectivas de futuro, as atividades previstas para esse final de ano e o ano que vem, segundo Mariana Maia, a instituição que ser

um espaço aberto para os artistas, pesquisadores, intelectuais, professores, alunos, principalmente para a população do território, e para o público negro em geral. Um espaço para a gente poder fluir, refletir, pensar as questões da história e da cultura afro-brasileira. Nós queremos também ser um polo de aplicação da lei 10.639. Queremos, no futuro, ter uma programação que abarque as diferentes manifestações culturais, diferentes linguagens artísticas, sempre com um cunho afro-centrado. A gente tem um projeto de propor Residências Artísticas, Residências Docentes e também ser um espaço onde os afro-empreendedores possam se aquilombar.

Mariana Maia

A lei a qual Mariana Maia se refere, trata-se da lei federal, a lei 10.639, de 9 de janeiro de 2003, que “estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira”, e dá outras providências”. No parágrafo 1 do primeiro artigo ainda trata da importância do “estudo da História da África e dos Africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política pertinentes à História do Brasil”.

Agradecemos a Mariana Maia pela oportunidade dessa entrevista. E nesse mês tão importante, quando celebramos no último dia 20 o Dia da Consciência Negra, fica aqui o registro de uma iniciativa tão singular e tão importante para o nosso passado, presente e futuro como sociedade.

Museu da História e Cultura Afro-brasileira

Direção: Leandro Santana

Endereço: Rua Pedro Ernesto, 80. Bairro da Gamboa, Rio de Janeiro.

Horários: de quinta à sábado, de 10h00 às 17h00.

Mariana Maia

Artista Visual que trabalha com diferentes linguagens. Desde 2011, vem desenvolvendo performances, fotografias, vídeos, objetos, pinturas e graffitis. Pesquisa arte afro-brasileira e a relação entre negritude, objetos e corpos femininos. Possui formação em História da Arte, com Mestrado em Artes pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ, Brasil). Atua como professora de Artes da rede pública da cidade do Rio de Janeiro desde 2008. Realizou a exposição individual CoroAção (2019) na Galeria Desvio/RJ. Nesse mesmo ano, participou também das exposições coletivas Raiz Comum (Centro Cultural Municipal Laurinda Santos Lobo), O Grito (Galeria Pence), Rios do Rio (Museu Histórico Nacional), Artes Aquáticas (Queimados). Atuou e roteirizou o filme curta metragem CoroAção (2019). Realizou ações artísticas em espaços como MAC – Museu de Arte Contemporânea de Niterói, MUHCAB/ RJ, Galeria Aymoré/ RJ, Casa Voa/ RJ, Teatro Espanca/ BH, Galeria Cañizares/ BA, Casa Porto/ ES.

Texto e imagem página web http://maiamariana.com.br/

A coluna “O samba da minha terra” é um espaço dedicado ao universo do samba, suas histórias e protagonistas. O programa Brasil es mucho más que samba via ao ar todas as terças-feiras, às 17h30 (hora local) na rádio Universidad de Salamanca, na sintonia 89 FM local e também em radio.usal.es.

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