Top 10: “A vida de Galileu”

Top 10 em colaboração com o Museu da Vida (Fiocruz), com uma seleção musical sobre a relação entre Ciência e Sociedade.

Nesta entrega do Top 10 do BMQS, uma nova colaboração com o Museu da Vida, o museu de ciências da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz, Rio de Janeiro, Brasil), para falar sobre música e divulgação científica. Esta emissão apresenta uma seleção musical, as dez canções recomendadas pelo público da peça teatral “A vida de Galileu”, estreada pelo Museu da Vida, em 2016. Através das redes sociais, o Museu da Vida pediu ao público que havia assistido à peça que recomendassem músicas que lhes recordavam à obra. Essa é a seleção musical que oferecemos neste programa.

Conhecido como o “pai da astronomia moderna”, “o pai da física moderna” ou como “o pai da ciência”, Galileu Galilei é uma figura fundamental para o que conhecemos hoje como método científico. A sua vida está entrecruzada por grandes fatos históricos, como a revolução científica durante o Renascimento, o desenvolvimento das técnicas e instrumentos para a observação de fenômenos da natureza – daí a importância que lhe atribuímos por ter aperfeiçoado  o telescópio -, mas também o seu embate com a Igreja Católica – recordemos rapidamente os conflitos entre as teorias geocêntricas e heliocêntricas, que situavam bem a Terra ou o Sol, respectivamente, no centro do universo – e inclusive, as críticas mais severas a ele e a posterior denúncia ante o Tribunal do Santo Ofício em Roma.

Galileo di Vincenzo Bonaulti de Galilei nasceu em Pisa (Toscana, Itália), em 1564 e faleceu em Arcetri, na Toscana, em 1642, com 77 anos. Os seus restos mortais repousam na basílica de Santa Cruz em Florência (Itália). Era o mais velho entre cinco irmãos e estudou até os 17 anos em um mosteiro jesuíta, até que o pai lhe retirou de entre os livros. Nunca chegou a casar-se, mas teve três filho com Marina Gamba, duas filhas, que viraram freiras, e um filho, que era músico.

Naquela época, as fronteiras entre as áreas do conhecimento científico não estavam definidas tal como as conhecemos agora, nem mesmo o conhecimento científico, e por isso se diz que Galileu Galilei experimentou com a Matemática, a Física, a Engenharia e, mesmo com uma curta passagem pela Universidade de Pisa, é inquestionável a sua contribuição para construção da ciência moderna.

A peça teatral da qual resgatamos esta seleção musical se intitula “A vida de Galileu”, que é uma adaptação da obra de Bertold Brecht de 1939. A peça trata do descobrimento do telescópio em 1609, das observações do universo, mas também que Galileu foi obrigado a se retratar sobre as suas teorias em 1633, e condenado a viver em prisão domiciliar até a sua morte. Não obstante, isso não significou nem o fim de suas crenças nem o de suas pesquisas.

Ainda sobre a peça, destaca-se que, além de se aventurar por essa biografia tão complexa, a obra apresenta também os testemunhos de cientistas da Fiocruz que foram perseguidos durante a ditadura no Brasil, uns longos e duros 21 anos de obscurantismo na história do país.

“Até quando?”, Gabriel O Pensador

A primeira música selecionada para o programa é “Até quando?”, uma composição de Gabriel O Pensador, Itaal Shur e Tiago Mocoto. A versão do programa é a que foi gravada no disco Seja você mesmo (Mas não seja sempre o mesmo), de 2001, interpretada por Gabriel O Pensador. A letra da música é uma verdadeira declaração de intenções e um convite a que sejamos partícipes e reivindicativos na vida política e social. Os últimos versos dizem:

Até quando você vai levando porrada? Até quando vai ficar sem fazer nada? Até quando você vai ficar de saco de pancada? Até quando você vai levando?

Letra de "Até quando", de Gabriel O Pensador

Gabriel O Pensador é um rapper brasileiro e a sua obra está cheia de conteúdo social e político. Por isso (ou por causa disso), ele é também um ativista social. Como artista, recebeu vários prêmios, entre eles o Prêmio da Música Brasileira, em 1993, na categoria revelação masculina de pop rock mas, também, como escritor, conquistou o afamado Prêmio Jabuti, em 2005, com o livro Um garoto chamado Roberto (Cosac &Naify, 2005).

“Buraco negro”, Erasmo Carlos

A segunda música é “Buraco negro”, uma composição de Erasmo Carlos, John William e Roberto Carlos, na versão do disco Buraco negro, de 1984, na voz de Erasmo Carlos.

Erasmo Carlos, também conhecido como Tremendão, nesta música inventou um conceito entre a ficção e a fantasia, e terminou com explicações sobre energias magnéticas e estelares para relacionar o título do disco com o fenômeno astronômico. Além disso, para gravar este tema contou com uma equipe de primeira categoria: Liminha, Léo Gandelman, Sérgio Dias e Marcelo Sussekind, além de Gilberto Gil.

Erasmo Carlos é uma figura imprescindível para o rock dos anos 60 no Brasil. Começou com Tim Maia, nos The Sputniks, grupo que teve uma vida muito curta graças aos constantes desentendimentos entre Tim Maia e Roberto Carlos. Com ele e com Wanderléa formou a Jovem Guarda. Daí em diante, vem somando incalculáveis sucesos musicais e até mesmo no cinema, por exemplo, com o filme Roberto Carlos a 300 Quilômetros por Hora (direção de Roberto Faria, 1971), o filme mais assistido no Brasil em 1971.

“Maracatu atômico”, Chico Science e Nação Zumbi

A terceira música é “Maracatu atômico”, uma composição de Jorge Mautner e Nelson Jacobina, do disco Afrociberdelia, de 1996, gravada por Chico Science e Nação Zumbi.

A versão original dessa canção foi gravada em 1974 por Jorge Mautner. Duas décadas depois, no melhor estilo manguebeat – termo para referenciar este movimento contracultura da década de 1990, que surgiu no Recife, e que misturava ritmos regionais com estilos como o rock e o pop. Esta música foi um sucesso enorme, mas o grupo foi minguando desde o falecimento de Chico Science, em 1997, por causa de um acidente de carro.

“Ciência em si”, Gilberto Gil

A quarta música desta tarde é “Ciência em si”, uma composição de Gilberto Gil e Arnaldo Antunes. A versão do programa é a que foi gravada no disco Quanta, de 1997, na voz de Gilberto Gil. A música tem como tema os diversos tipos de conhecimento: popular, religioso, científico. Gilberto Gil nos propõe nessa música refletir sobre a relação entre a ciência e as demais formas de conhecimento. Os últimos versos dizem:

Para alcançar o que já estava aqui
Se a crença quer se materializar Tanto quanto a experiência quer se abstrair A ciência não avança A ciência alcança A ciência em si

Letra de "Ciência em si", de Gilberto Gil

Gilberto Gil é um desses artistas brasileiros que prescinde de apresentação. Mas, algo importante sobre ele (e bem recente): no último 11 de novembro a imprensa brasileira noticiava o mais novo imortal da Academia Brasileira de Letras: Gilberto Gil foi eleito para ocupar a cadeira 20, antes ocupada pelo jornalista Murilo Melo Filho. Gilberto Gil tem quase 60 anos de carreira, mais de 70 discos gravados e músicas que entraram para a história do país.

“Carimbador maluco”, Raul Seixas

E no equador deste Top 10, “Carimbador maluco”! A música é uma composição de Raul Seixas. A canção é de 1983, e fez parte de um projeto, um especial da Rede Globo dedicado ao público infantil, chamado Plunct, Plact, Zuuum. Além disso, a gravadora Eldorado, que havia pouco antes lançado o disco Raul Seixas, de 1983, incluiu esse tema entre as faixas na segunda edição do disco. A música tem como tema a odisseia de um grupo de crianças que quer viajar pelo espaço, porém antes tem que enfrentar uma burocracia gigantesca, mas no final tudo se soluciona bem.

Rauzito, Raul Santos Seixas, era baiano, natural de Salvador. No livro Raul Seixas. Não diga que a canção está perdida (Todavía, 2019), o jornalista e crítico musical Jotabê Medeiros, diz que ao longo de seus 44 anos, e pouco mais de 20 de carreira, Raúl Siexas nos deixou mais de 312 canções, nas quais misturou ritmos tradicionais brasileiros com o rock norte-americano especialmente. Também deixou uma série de polêmicas e declarações controvertidas; a sua condição de diabético foi agravada pelo alcoolismo e o consumo de drogas, levando a uma parada cardíaca fatal em 21 de agosto de 1989. Teve muitas mulheres e três filhas, com as quais não conviveu. No documentário Raul, o início, o fim e o meio, de 2011, de Walter Carvalho, que reúne testemunhos de familiares, amigos, companheiros de trabalho e jornalistas, é possível ver algo muito claramente: o grande poder criativo de Raul Seixas e todo o esforço ele fez para se manter no universo da cultura musical apesar do rotundo fracasso no início da carreira.

"Chuva de prata", Gal costa

O programa segue com a música “Chuva de prata”, uma composição de Ed Wilson e Ronaldo Bastos, na versão do disco A pele do futuro (ao vivo), de 2020, na voz de Gal Costa.

Gal Costa também é natural da Bahia, e com Caetano Veloso, Gilberto Gil e Maria Bethânia, formou um dos movimentos culturais mais marcantes da história recente do país: a Tropicalia. Esta música foi gravada no disco Profana, de 1984, e contou com a participação do grupo Roupa Nova. O disco reúne ritmos e estilos diferentes, com músicas que tiveram bastante sucesso, como “Vaca profana”, de Caetano Veloso, mas nenhuma como “Chuva de prata”, que ainda hoje é um verdadeiro hino romântico.

“Apesar de você”, Chico Buarque

E já na reta final do programa, a música “Apesar de você”, que é uma composição de Chico Buarque, gravada no disco Chico Buarque, de 1978, numa versão com Quarteto em Cy e MPB4. A música foi gravada originalmente no disco compacto Apesar de você, de 1970, e se tornou muito famosa como um hino de resistência à ditadura no Brasil.

Chico Buarque, Francisco Buarque de Hollanda, é uma unanimidade, e não por menos, além de cantor, é compositor e escritor (recordemos o seu Prêmio Camões de 2020). Chico Buarque nasceu em 1944, no Rio de Janeiro, filho do intelectual Sérgio Buarque de Hollanda (considerado um dos grandes intérpretes do Brasil por suas obras de síntese histórica e sociológica) e da pianista Maria Amélia Cesário Alvim.

“Comportamento geral”, Gonzaguinha

Em oitavo lugar, a música “Comportamento geral”, uma composição de Gonzaguinha, interpretada por ele mesmo, gravada no disco Luis Gonzaga Jr., de 1973, o seu primeiro sucesso. Naquela época, viviam sob a opressão dos censores da ditadura e essa música foi censurada na época de seu lançamento. A letra é igualmente atemporal e irônica, e nos chama a atenção para um tipo de “comportamento geral”, de resignação que o autor pretende que evitemos. Gonzaguinha é filho do grande Luis Gonzaga, “o rei do baião”, um cantor e compositor que levou a música regional do Nordeste a todo o país.

“É proibido proibir”, Caetano Veloso

Em nono lugar, a música “É proibido proibir”. Esta canção é uma composição de Caetano Veloso, interpretada com Os Mutantes, no III Festival Internacional da Canção em 1968, que foi duramente vaiada pelo público presente. Na gravação completa se aprecia, além das vaias, o discurso inflamado de Caetano Veloso em defesa do que ele considerava um novo paradigma para a cultura brasileira e que o público, segundo ele “Vocês não estão entendendo nada!”.

Caetano Veloso também é natural da Bahia e a sua trajetória biográfica coincide com os fatos mais marcantes da história do Brasil na segunda metade do século XX.

“Só Deus pode me julgar”, MV Bill

A música que fecha o programa é “Só Deus pode me julgar”, uma composição de MV Bill, gravada no disco Declaração de guerra, de 2002. Alex Pereira Barbosa, mais conhecido como MV Bill é um rapper brasileiro, carioca, ativista social e escritor. Foi um dos criadores da Central Única das Favelas, uma ONG que está em todo o país. A sua obra está marcada por temas próprios das comunidades do Rio de Janeiro. Não obstante, o trabalho que lhe catapulta à fama é o documentário Falcão. Meninos do tráfico, gravado entre 1998 e 2006, sobre a vida de jovens envolvidos com o mundo do tráfico de drogas, que teve uma grande repercussão internacional. A letra da canção reflete a realidade de muitos brasileiros e brasileiras, em geral, e a sua, a do autor, particularmente, como um homem negro da periferia de uma grande cidade brasileira. Ainda sobre a música, a letra trata de temas como o racismo, classismo, e um dos seus versos mais polêmicos diz:

No país do carnaval o povo nem tem o que comer.

Letra de "Só Deus pode me ajudar", de MV Bill
Esta entrega do Top 10 contou com a produção da jornalista Melissa Cannabrava, do Núcleo de Mídias do Museu da Vida da Fundação Oswaldo Cruz (Rio de Janeiro, Brasil).
Referências:
Documetário Raul Seixas. O início, o fim e o meio (2011), de Walter Carvalho.
Erasmo Carlos. (2012, 30 de enero). Wikipedia, La enciclopedia libre. Consultado 24 de noviembre de 2021. Recuperado de [https://pt.wikipedia.org/wiki/Erasmo_Carlos].
Gal Costa. (2021, 23 de mayo). Wikipedia, La enciclopedia libre. Consultado 25 de noviembre de 2021. Recuperado de [https://pt.wikipedia.org/wiki/Gal_Costa].
Galileo Galilei. (2021, 23 de noviembre). Wikipedia, La enciclopedia libre. Consultado 24 de noviembre de 2021. Recuperado de [https://es.wikipedia.org/wiki/Galileo_Galilei#Los_enemigos_de_Galileo_y_la_denuncia_ante_el_Santo_Oficio].
Jotabê Medeiros (2019). Raul Seixas. Não diga que a canção está perdida. São Paulo: Todavia.
MV Bill. (2021, 9 de noviembre). Wikipedia, La enciclopedia libre. Consultado 24 de noviembre de 2021. Recuperado de [https://pt.wikipedia.org/wiki/MV_Bill].
Nação Zumbi. (2021, 16 de noviembre). Wikipedia, La enciclopedia libre. Consultado 24 de noviembre de 2021. Recuperado de [https://pt.wikipedia.org/wiki/Na%C3%A7%C3%A3o_Zumbi].
National Geographic. Historia. “El juicio de la inquisición contra Galileo”. Recuperado de [https://historia.nationalgeographic.com.es/a/juicio-inquisicion-contra-galileo_7184]. Consultado 25 de noviembre de 2021.

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