Esta é a primeira emissão de “O samba da minha terra” na temporada 2023-2024 na rádio Universidade de Salamanca. E neste podcast oferecemos uma entrevista com o documentarista brasileiro Renato Terra, que dedicou boa parte do seu trabalho a contar a história de grandes nomes da música popular brasileira.
O autor e a obra
O documentarista brasileiro Renato Terra é formado em Publicidade pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ, Brasil). Os seus documentários trazem biografias de grandes nomes da música popular brasileira, e com isso contam uma parte importante da história e da cultura brasileira. Na entrevista, Renato Terra diz que a sua formação como documentarista aconteceu com a direção do documentário Uma noite em 67, o seu primeiro trabalho, e dirigido com Ricardo Calil, em 2010, filme que recupera um momento de efervescência da cultura brasileira, marcada pelos festivais de música brasileira no contexto da Ditadura no país.
E eu fiz a minha monografia de conclusão de curso sobre a era dos festivais, e já tinha ali um pouco a ideia de transformar isso num documentário. Mas, a minha formação como documentarista se deu com esse documentário: eu tive a sorte, o privilégio, de conseguir que o João Moreira Salles, que talvez seja o maior documentarista brasileiro vivo, produzisse esse filme, que acabou se chamando “Uma noite em 67”. E nesse processo de conversar com o João, de interagir com o Ricardo Calil também – que eu convidei para ser codiretor desse filme comigo, ela era mais velho do que eu, já tinha um conhecimento de cinema muito grande - na interação com Jacques Cheuiche, o diretor de fotografia e, principalmente, com a Jordana Berg, que foi a montadora do filme, e que acabou sendo a montadora de todos os meus filmes dali em diante, eu tive uma espécie de uma faculdade de cinema, principalmente, de documentário, ali, interagindo com essas pessoas todas, e ainda tive a sorte imensa de cruzar muito com o Eduardo Coutinho na Vídeo filmes, que é a produtora do João Moreira Salles.
Renato Terra
O segundo documentário dirigido por Renato Terra se chama Fla-Flu 40 minutos antes do nada (Sentimental Filme, 2013). Na ocasião do centenário do FlaxFlu, um clássico do futebol brasileiro, Renato Terra produz um documentário que trata “muito mais de paixão do que de futebol: da paixão maluca dos torcedores, dos jogadores, até sobre os dois times e do confronto que essas paixões resultam da beleza dessa rivalidade entre Flamengo e Fluminense”.
Em 2020, Renato Terra dirigiu Narciso em férias (com Ricardo Calil) um documentário do qual já falamos aqui na temporada anterior). Caetano Veloso havia recebido os relatórios da prisão durante a Ditadura, e a leitura dos documentos havia comovido o artista profundamente. A ideia do projeto foi de Paula Lavigne, que convidou Renato Terra para registrar aquele momento, um trabalho que, em palavras do diretor resultou em “um relato muito profundo e pungente do Caetano sobre o período que ele esteve preso”.
Depois do documentário com Caetano Veloso, Renato Terra dirigiu algumas séries documentais para plataformas de streamings, como “O canto livre de Nara Leão” (com Ricardo Calil) e “Vale tudo com Tim Maia” (com Nelson Mota), ambos em 2022.
As fontes do documentário
A potência da música brasileira no audiovisual
Renato Terra se assume um apaixonado pela música brasileira. E assim foi fácil que a sua paixão saltasse para as telas! Para o entrevistado, a música brasileira tem uma força audiovisual muito grande. Para transpor essa força para as telas, Renato Terra usa imagens de arquivos musicais de forma a que o espectador “embarque naquela imagem, e não usar apenas as imagens de arquivo de maneira ilustrativa”.
Mas, como encontrar essas imagens? Como um documentarista deve trabalhar com imagens de arquivo? Para Renato Terra, o trabalho de pesquisa em arquivo é como um garimpo: requer muita dedicação e um pouco de sorte.
O trabalho de busca de arquivos para esses documentários é uma das minhas grandes paixões. Eu adoro sentar numa moviola e ficar vendo, descobrindo materiais inéditos. (...) Nas minhas séries, eu fiquei muito impressionado com o trabalho da Priscila Serejo, que é uma pesquisadora da Globo, que durante, por exemplo, “Vale tudo com Tim Maia”, ela conseguiu no Mercado Livre - um site de venda na internet - achar uma película rara incrível, que era um show da década de 1960, que tinha uma apresentação inédita do Tim Maia, da Rita Lee, do Jorge Ben Jor, a gente achou na internet uma película, conseguiu depois digitalizar essa película, mas esse trabalho de descobrir essas películas e conversar com as pessoas, e entrar nos acervos, é uma das minhas grandes paixões, o meu olho brilha quando eu acho algum material, ou quando alguém da equipe, a Priscila ou Antônio Venâncio encontram alguma coisa, alguma imagem inédita.
Renato Terra
As entrevistas
Tradicionalmente, os documentários utilizam, principalmente, documentação de arquivo e entrevistas. Há muito tempo que a produção de documentários no Brasil deixou de ser um setor marginal dentro da produção audiovisual no país. Entre muitos outros, os nomes de Eduardo Coutinho e João Moreira Salles são os mais internacionais.
Em seus documentários, Renato Terra utiliza uma técnica de entrevista muito parecida à técnica de entrevista aberta em profundidade: prepara um roteiro, aprende as perguntas, que são utilizadas como bússola, e permite que no transcurso da interação entrevistador-entrevistado surjam outros temas e perguntas. O diretor também traz um elemento surpresa, que pode ser um objeto que evoque emoções e recordações. Por exemplo, em Narciso em férias, Renato Terra entrega a Caetano Veloso um exemplar da revista Manchete, o mesmo no qual foram publicadas as primeiras imagens fotográficas da Terra, e que Caetano teve em mãos quando estava preso. Esse foi o momento que serviu de inspiração para Caetano compor a música “Terra”. Já na série documental O canto livre de Nara Leão, Renato Terra entregou a Chico Buarque um exemplar do disco de Nara Leão no qual o músico tinha escrito um texto na contracapa.
e eu entreguei para o Chico na frente da câmera, no meio da entrevista. Isso deu uma cena linda dele lendo esse texto. Ele começou um pouco desconfiado, né, porque ele escreveu esse texto quando era jovem, e não leu esse texto desde então; mas, foi muito bonito, porque ele foi lendo o texto, foi se acalmando, se emocionando, lembrando da Nara, e deu uma cena super bonita. Então, esses cuidados, essa sensibilidade, essa atenção na entrevista para documentário são fundamentais.
Renato Terra
Os novos caminhos do documentário
Na última parte da entrevista, falamos sobre as novas plataformas (e formas) para consumir documentários. Para Renato Terra, essa nova forma de consumir documentários através de plataformas de streaming e de séries é muito positiva. Para o diretor, trata-se de uma ferramenta mais que permite que os documentários cheguem ao grande público, além de estimular a produção de documentários e a formação de documentaristas.
E falando nisso, atualmente, Renato Terra oferece em seu site um curso sobre documentários. O curso consta de oito sessões em modalidade on-line e está aberto tanto para profissionais da área de audiovisual como para todas as pessoas que tenham interesse em documentários.
A informação completa sobre o curso está no site https://renatoterra.com.br/
Se você gosta de cinema e música brasileira (e quem não?), aperta o play e confere a entrevista.