O samba da minha terra: “Narciso em férias”

Podcast da emissão dedicada ao documentário “Narciso em férias”, com Caetano Veloso.

Neste podcast, apresentamos o documentário Narciso em férias, lançado no Brasil em 2020, que tem Caetano Veloso como protagonista indiscutível. O tema vem à cena, porque há um mês, mais ou menos, a imprensa local e a brasileira noticiavam a escolha de Caetano Veloso para receber o título de doutor honoris causa por esta universidade. Por isso, hoje, falamos sobre este “Narciso em férias”, que conta, em primeira pessoa, um dos episódios mais tristes da história do Brasil e da biografia de Caetano Veloso, sobre os dois meses que esteve preso durante a ditadura militar no Brasil.

O título do documentário faz uma alusão à figura de Narciso da mitologia grega ou, podemos pensar também, a Narciso da música “Sampa”, que diz de quem “acha feio o que não é espelho”, e “em férias”, evidentemente, referindo-se a este período em que nem um espelho Caetano tinha para olhar-se, uma espécie de metáfora para a supressão de toda a dignidade humana, típica das ditaduras, especialmente, quando se está privado de liberdade.

Capa do livro. Fonte: Ed. Companhia das Letras.

O documentário “Narciso em férias” está dirigido por Ricardo Calil, e contou com a produção de Paula Lavigne. O filme foi gravado tendo como base o capítulo homônimo do livro Verdade tropical, escrito de forma autobiográfica, lançado também em 2020, pela Companhia das Letras. No texto, e no documentário, Caetano Veloso nos conta sobre os 54 dias em que ele e Gilberto Gil foram detidos e presos pela polícia da Ditadura Militar brasileira.

Em seus 84 minutos de duração, o filme tem Caetano Veloso como protagonista indiscutível: são poucos os momentos de diálogo, ou seja, quando se escuta a voz do interlocutor. Assim, o documentário transcorre com a imagem e a voz de Caetano contando em primeira pessoa sobre o período que esteve preso nos cárceres da ditadura.

Com relação à estética, tudo é muito simples, predomina o cinza na parede e na roupa que Caetano veste. Planos fechados e abertos se alternam na tentativa de criar uma atmosfera mais íntima, quando das reflexões pessoais ou quando relata fatos ocorridos.

E tudo começou assim. Em 13 de dezembro de 1968, foi decretado o Ato Institucional nº 5, e inaugurava-se os conhecidos “Anos de Chumbo” no Brasil, o período mais duro, de cassação de direitos e liberdades individuais, perseguições, prisões, torturas e desaparições forçadas. 14 dias depois do decreto do AI 5, Caetano Veloso foi preso. Ele tinha 26 anos. A detenção aconteceu em sua casa, em São Paulo. Ele e Gilberto Gil estavam reunidos com suas esposas e outros amigos, quando irrompe a polícia, à paisana, e com a desculpa da necessidade de interrogá-los, Caetano e Gil foram levados de São Paulo para o Rio de Janeiro.

Estiveram no quartel em uma vila militar, depois no quartel da polícia do exército e no dos PQD. Passada a primeira semana de detenção, não havia acontecido o interrogatório, por tanto, continuavam sem saber o motivo de estarem presos.

No documentário, além de relatar os fatos ocorridos, Caetano descreve com uma riqueza de detalhes momentos, espaços, objetos, resultando numa narrativa ainda muito viva sobre esses quase dois meses de prisão. Ele fala da solitária, de uma manta verde oliva, do aparelho de rádio que durante muito tempo lhe serviu como bússola para se manter no caminho da lucidez. Um dos pontos fortes do filme é quando Caetano fala das visitas da ex-mulher, Dede. Numa das visitas de sua esposa, ela lhe levou em exemplar da revista Manchete, na qual foram publicadas as primeiras imagens da Terra tomadas desde o universo.

Uma década mais tarde, em 1978, Caetano se lançou em turnê com Gal Costa, visitando importantes capitais europeias, como Roma, Paris e Milão. Recordemos que depois da temporada na cadeia, e outra em prisão domiciliar durante quatro meses, Caetano se exiliou em Londres. Em junho de 1978, lançou o disco Muito (Dentro Da Estrela Azulada), onde foi gravada a música “Terra”. Assim, 10 anos depois, Caetano colocava em versos a experiência no cárcere. O sem sentido daquela situação, do artista preso numa cela minúscula contemplando as imagens tomadas desde o universo lhe fizeram escrever

Quando eu me encontrava preso, Na cela de uma cadeia, Foi que vi pela primeira vez, As tais fotografias, Em que apareces inteira, Porém lá não estavas nua, E sim coberta de nuvens...

Caetano Velos, "Terra"

A narrativa de Caetano Veloso no documentário segue um percurso cronológico: Caetano começa contando sobre a detenção e depois a transferência para até três diferentes cadeias no Rio de Janeiro. Caetano conta das pessoas que conheceu e encontrou nos lugares onde esteve, e faz uma referência carinhosa a Ênio da Silveira, um importantíssimo jornalista e editor brasileiro, que coincidindo no cárcere com Caetano, lhe entregara dois livros, O bebê de Rosemary, de Ira Levin, e o Estrangeiro, de Albert Camus.

Finalmente, já pela metade do documentário é que ficamos sabendo o motivo da detenção: Caetano havia sido acusado de ter cantado o hino nacional de forma jocosa em um show na boate Sucata, no Rio de Janeiro. Talvez essa seja uma das partes mais interessantes do documentário: Caetano vai lendo partes da transcrição do interrogatório e vamos tendo a dimensão da loucura da máquina ditatorial. Perguntas absolutamente surrealistas, as quais Caetano vai respondendo de forma a se proteger. Como se diz no Brasil, “seria cômico se não fosse trágico”.

Já bem para o final, Caetano Veloso conta sobre o momento em que chegou na casa dos pais e do seu absoluto estado de confusão mental. Ele relata que quando se encontrou com o pai, este lhe disse: “Não me diga que esses filhos da puta te botaram nervoso?”.

Quem tiver a oportunidade de ler o livro e assistir o documentário, vale muito a pena. Trata-se de um material que conta em primeira pessoa o terror absoluto vivido por muitas outras pessoas durante esses anos negros da história do Brasil.

Há um momento no documentário em que Caetano Veloso fala de sua irmã Irene, e que para ela fez a música homônima quando estava preso, que entre seus versos diz:

Eu quero ir, minha gente

Eu não sou daqui

Eu não tenho nada

Quero ver Irene rir

Quero ver Irene

Dar sua risada

Esses versos refletem a ânsia por liberdade, por reencontrar a família, os amigos, enfim, de recuperar uma vida interrompida.

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