Entrevista “Retratos do Ribeira”

Uma entrevista com os fotógrafos brasileiros Paulo Jolkesky e Ricardo Martinelli sobre o livro “Retratos do Ribeira”.

A última emissão de Brasil es mucho más que samba de 2022 traz uma entrevista sobre o livro Retratos do Ribeira (Funarte, 2022), uma obra que reúne mais de 200 imagens em preto e branco e textos sobre a natureza exuberante e a diversidade cultural do Vale do Ribeira.

A obra é fruto do trabalho (e de muito esforço!) dos fotógrafos brasileiros Paulo Jolkesky e Ricardo Martinelli. Lançado no mês de outubro na capital paulista, o livro culmina o trabalho de quase sete anos, em constantes viagens, a essa região que reúne a maior reserva de Mata Atlântica do Brasil e que, em 1999, foi declarada Patrimônio Natural da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

O Vale do Ribeira

O vale está localizado no sul do estado de São Paulo, na fronteira com o Paraná, e o seu nome se deve à bacia do rio Ribeira de Iguape. Com uma área de quase 3 milhões de hectares, inclui 22 municípios de São Paulo e 9 do Paraná. A região conta com mais de 60% da reserva de Mata Atlântica do Brasil, com uma grande biodiversidade, áreas bem preservadas, onde encontramos não só florestas, mas comunidades indígenas, quilombolas, caiçaras e imigrantes.

O rio Ribeira de Iguape nasce na cidade serrana de Ponta Grossa, no Paraná, e deságua em Iguape, no sul do estado de São Paulo. Para Paulo Jolkesky, essa região é importante, entre outros aspectos, porque o rio Ribeira de Iguape é “o único rio de grande porte no Brasil que ainda não tem nenhuma barragem, não tem nenhuma usina hidrelétrica construída nele, e tem muito pouca indústria. Vamos dizer que tenha só uma dúzia de indústrias em toda a sua extensão”.

“Retratos do Ribeira”

Retratos do Ribeira é o título do livro de fotografias de Paulo Jolkesky e Ricardo Martinelli, publicado pela Funarte em 2022. A ideia era fazer um livro de fotografia, com retratos de pessoas e de paisagens, sobre o Vale do Ribeira. O projeto começou em 2014: 

A gente fez um projeto piloto em um dos quilombos lá do Vale do Ribeira, o quilombo Sapatu, com o Sr. João Rosa e Dona Esperança. Foram as primeiras entrevistas que nós fizemos.

Desde o início, os fotógrafos definiram que as fotografias seriam em preto e branco:

Então, a decisão de partir para preto e branco era uma maneira de você colocar todas as pessoas e culturas num mesmo patamar. Essa decisão técnica e até artística, de você retratar as pessoas de uma maneira uniforme, apesar das diferenças gigantescas de cultura (...) Quando você folheia o livro, você vê as diferentes culturas tradicionais, e nenhuma foi priorizada, foi tudo uniforme e distribuído.

Para Paulo Jolkesky, a decisão pelo P&B também abre um espaço para a interpretação de quem observa as imagens:

E as cores estão no olhar de quem interpreta. Se você quiser preencher aquilo com cores vivas, com alegria, como você interpretou aquela imagem é porque é uma coisa alegre para você. Mas, se você interpreta aquilo como degradado, com cores esquálidas, tudo cinza, ‘eu preciso ir lá ajudar a preservar’, também é a forma como aquilo te atingiu.

As entrevistas aconteceram entre os anos de 2014 e 2019, em diversas viagens à região em diferentes épocas do ano. Os fotógrafos elaboraram um pequeno questionário, que “caiu por terra na segunda entrevista, porque a gente descobriu que o mundo era muito maior do que o que a gente tinha conseguido abordar com aquelas 5 ou 6 perguntas” (Paulo Jolkesky). As entrevistas foram surgindo naturalmente, através do contato com os moradores das diferentes localidades que, pouco a pouco lhes deram “a intimidade de nos convidar para suas casas, para suas vidas, das suas rotinas de trabalho, para a gente acompanhar fotografando tudo aquilo” (Paulo Jolkesky). Ao longo de cinco anos, os fotógrafos reuniram mais de 200 entrevistas, registros em vídeos, além de uma trajetória espetacular do projeto: exposição no Museu Municipal de Iguape, com o apoio da Prefeitura de Iguape, outras exposições na cidade de São Paulo, assim como palestras.

Atualmente, os fotógrafos estão fazendo a viagem de volta ao Vale do Ribeira, mas dessa vez para entregar o livro aos moradores da região.

 

A gente diz que estamos fazendo a viagem novamente. A nossa prioridade é entregar o livro para as pessoas que foram fotografadas. Então, se as pessoas entrarem em @retratosdoribeira no Instagram, lá já tem as fotos das pessoas que foram fotografadas recebendo os livros. Nós estamos fazendo doações gigantescas lá para o Vale do Ribeira. O livro está chegando a quem de direito, que são as pessoas que moram lá, que precisam ver essa carga cultural onde eles estão inseridos. Essa é a nossa prioridade.

Os fotógrafos

Ricardo Martinelli e Paulo Jolkesky
Esq. à dir.: Ricardo Martinelli e Paulo Jolkesky

Paulo Jolkesky está há quase três décadas dedicando-se à fotografia de natureza e publicitária. É engenheiro de formação e profissão, mas é na fotografia onde encontra satisfação pessoal. Para Jolkesky, o Retratos do Ribeira,

Foi um desafio, aprendi a interagir com as pessoas, foi um trabalho de construção pessoal e de técnica, de construção pessoal, conseguir fazer um livro com essa densidade, com essa profundidade, porque são histórias complexas de pessoas simples numa região bem sensível do Brasil e não muito conhecida.

Ricardo Martinelli é dentista, mas herdou do pai o gosto pela fotografia. Fotografa há 30 anos, principalmente por causa da espeleologia (o estudo das cavernas). Esta prática o levou ao projeto Retratos do Ribeira:

a ideia da elaboração do “Retratos do Ribeira” veio da espeleologia. As pessoas que nos ajudavam a descobrir as cavernas no Vale do Ribeira foram as primeiras que entrevistamos. Era também uma forma de retribuição a toda ajuda que nos deram.

Referências:

Site oficial.

Facebook; Instagram.

Estância Turística de Eldorado. O Vale do Ribeira. Recuperado de [site].

Compartir

Relacionado:

Falamos de ficção especulativa pelas mãos da escritora brasileira Clara Madrigano
Entrevista com Julimar Bichara sobre Brasil, economia global, lideranças progressistas e desafios internacionais atuais contemporâneos
No programa de hoje, revisamos a vida e as contribuições teóricas da antropóloga brasileira e ativista feminista negra Lélia Gonzalez.