BMQS entrevista com Fernando de Tacca

Fernando de Tacca reflete sobre memória, fotografia e resistência a partir de sua experiência na ditadura brasileira.

Fernando de Tacca: memória, fotografia e resistência

O programa BMQS dedica uma de suas emissões a Fernando de Tacca, fotógrafo, pesquisador e referência no campo da antropologia visual no Brasil. A entrevista, realizada por Elisa Duarte e Ana González por ocasião da inauguração de sua exposição no CEB, permite mergulhar em um trabalho profundamente vinculado à memória histórica, à imagem e à resistência política.

Fernando de Tacca é doutor em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo (USP, Brasil) e mestre em Multimeios pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp, Brasil). Ao longo de sua trajetória, desenvolveu uma sólida produção acadêmica e artística, com mais de cem artigos publicados e vários livros de referência sobre fotografia e cultura visual. Seu trabalho caracteriza-se por uma reflexão constante sobre o papel da imagem na construção da memória e nos processos sociais.

Uma memória pessoal que se transforma em obra

A exposição apresentada no Centro de Estudos Brasileiros tem como ponto de partida uma descoberta inesperada: a ficha policial do próprio Tacca durante a ditadura militar brasileira. Como relata na entrevista, o achado foi casual: “eu estava em casa tranquilo e minha filha me disse: ‘pai, olha, está na internet a sua ficha’”.

A partir desse momento, iniciou uma investigação que o levou a recuperar não apenas sua ficha, mas também as de colegas detidos em uma operação policial em 1977, durante uma assembleia estudantil em São Paulo. Esses documentos, preservados em arquivos oficiais, transformam-se agora em matéria artística, em um exercício de memória que conecta o pessoal ao coletivo.

O contexto desses acontecimentos é marcado por um dos episódios mais duros da repressão ao movimento estudantil. Como se descreve no texto de apresentação da exposição, a operação policial resultou em centenas de detenções em um momento-chave de reorganização política contra a ditadura.

O movimento estudantil e a experiência da resistência

Durante a conversa, Tacca relembra o papel do movimento estudantil como um dos primeiros focos de resistência: “foi o primeiro movimento das ruas […] buscávamos liberdades democráticas”. Suas palavras reconstroem um clima de tensão, mas também de intensa vitalidade: reuniões clandestinas, debates políticos, perseguição policial e, ao mesmo tempo, uma forte dimensão coletiva marcada pela amizade, pela festa e pela descoberta.

Essa ambivalência entre repressão e vida atravessa toda a sua obra. As fichas policiais, que originalmente eram instrumentos de controle e vigilância, são ressignificadas como imagens que evocam não apenas o medo, mas também a experiência compartilhada de uma geração.

“O inferno nunca se farta”: imagem e reflexão contemporânea

Um dos elementos centrais da exposição é a incorporação de uma frase recorrente encontrada em cartazes urbanos: “O inferno nunca se farta”. Essa expressão, observada pelo artista no espaço público, torna-se um eixo conceitual do projeto.

No texto expositivo, Tacca reflete sobre seu significado em chave política e social: a ideia de um “inferno” que se reativa quando as liberdades são restringidas e discursos autoritários se impõem. Na entrevista, insiste nessa leitura contemporânea: o trabalho, afirma, “é atual porque há uma forte onda conservadora no Brasil hoje”.

A ausência de legendas nas imagens reforça essa intenção. Segundo explica, cada peça faz parte de um conjunto que deve ser interpretado globalmente, sem necessidade de explicação individual. O número de registro policial e a frase recorrente funcionam como únicos elementos de identificação, sublinhando a dimensão simbólica da série.

Fotografia, arquivo e circulação da imagem

A obra de Fernando de Tacca insere-se em uma trajetória mais ampla de reflexão sobre a fotografia e sua circulação. Em seu artigo “A presença da fotografia brasileira em coleções museológicas”, o autor analisa como as imagens adquirem visibilidade e significado em função das instituições que as abrigam.

Nesse estudo, destaca que os catálogos e as coleções são espaços-chave para definir quais obras e autores recebem atenção e reconhecimento, configurando assim uma narrativa sobre a fotografia brasileira no cenário internacional. Essa preocupação com os circuitos da imagem dialoga diretamente com sua prática artística, na qual o arquivo — neste caso, policial — se transforma em um dispositivo crítico.

Entre a pesquisa e a criação

Além de seu trabalho artístico, Tacca mantém intensa atividade investigadora. Durante sua estadia na Espanha, desenvolve um projeto centrado em coleções editoriais que combinam fotografia e literatura, explorando novas formas de diálogo entre imagem e texto.

Essa linha de trabalho reforça uma das constantes de sua trajetória: a interseção entre disciplinas. Fotografia, antropologia, história e teoria se entrelaçam em uma prática que entende a imagem não apenas como representação, mas como ferramenta de conhecimento.

Um olhar que interpela o presente

A obra apresentada no CEB não é apenas um olhar para o passado. Ao recuperar as fichas policiais e situá-las no presente, Fernando de Tacca propõe uma reflexão sobre a memória e seus usos contemporâneos.

Como sugere no texto da exposição, lembrar pode ser também uma forma de resistência: “a evocação do passado no presente pode ser também uma forma de enfrentar a memória”.

Em um contexto marcado pela polarização política e pelo questionamento da história recente, seu trabalho convida a repensar o papel da imagem na construção da memória coletiva. Uma memória que, longe de ser estática, se reativa constantemente no presente.

🎧 Ouça a entrevista completa
Se você quer se aprofundar nessa conversa sobre memória, fotografia e resistência, escute o podcast completo desta entrevista com Fernando de Tacca.
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