Esta entrega de BMQS traz uma entrevista com o pesquisador brasileiro, Alex Criado, e a escritora brasileira, Dinha. O tema que atravessou o programa foi a literatura periférica brasileira, e situamos a obra da escritora neste contexto, entendendo literatura periférica como movimento social e cultural, mas também como gênero e estética.
A Literatura periférica
O termo “Literatura periférica” está em permanente construção. Diferencia-se da chamada “Literatura marginal” dos anos 1970, surgida no Rio de Janeiro, por caracterizar-se como movimento cultural original da periferia da cidade de São Paulo nos inícios dos anos 2000, e que se estende a outras capitais brasileiras. Podemos considerar como texto fundacional o manifesto assinado por Férrez, autor de Capão Pecado (2000, Companhia de Bolso), na revista Caros amigos, porém falava-se de “literatura marginal”. Foi somente a meados dos anos 2000, com a publicação de uma coleção pela Global editora, quando um grupo de escritores decidiram renomear o movimento como “Literatura periférica”.
A Literatura periférica compreende também todos os géneros literários. Para Alex Criado,
Então, você tem a crônica, você tem romance, romance produzido, por exemplo, por Alessandro Buzo, você tem teatro de Alan da Rosa, contos, A Elizandra publicou um livro de contos, a Raquel Almeida publicou um livro de contos, então, percorre, praticamente, todos os gêneros literários. Isso é muito rico, sim.
Alex Criado
Sob essa bandeira, encontramos escritores que publicam de forma independente e em grandes editoras, como Sergio Vaz e Elizandra Souza. Dinha, no entanto, seguiu um caminho diferente, publicou em grandes editoras, se retirou e decidiu criar a sua própria editora, a Me parió Revolução.
A Literatura periférica na web 2.0
A cronologia da evolução da Literatura periférica vai em paralelo à das comunicações. Na entrevista, Dinha fala que nos primeiros anos da década de 2000, a comunicação entre autores e leitores se fazia por carta. Depois vieram os blogs e, finalmente, as redes sociais. Esse processo transformou a forma de divulgar e compartilhar obras, mas também a escritura. Dinha nos conta que em seu processo de escritura compartilha os textos acompanhados de hashtags, que lhe permite recuperá-los posteriormente.
Então, por exemplo, eu tenho uma hashtag agora que é #poesiaparanãomorrer e #poemasparalivronenhum, porque quando eu comecei a publicar os primeiros textos, eu tinha acabado de publicar um livro, então, era poema para livro nenhum. Que livro que ia ser, né? Então, talvez, o próximo livro se chame “Livro nenhum” ou “Poesia para não morrer”. Eu pensei que, talvez, “Poesia para não morrer” pode ser a minha obra completa no final da vida.
Dinha
A Literatura periférica no concreto
Recentemente, autores e editores de Literatura periférica ganharam um novo espaço: a Câmara Periférica do Livro, um espaço coletivo onde divulgar obras e eventos literários e culturais, assim como para encontros e compartilhamentos. As feiras literárias, os saraus, os Slams também são excelentes oportunidades para entrar e descobrir esse universo. Dinha recomenda seguir a @agendaperiférica e o seu próprio perfil, @doutoradinha, para ficar por dentro de todas as novidades da agenda cultural da Literatura periférica.
Dinha: "vida, obra y milagros"
Dinha começou a escrever no início da adolescência. Antes de escrever, lia. Lia de tudo: “até pedaço de papel rasgado”. Começou escrevendo um diário. Porém, a pobreza apertava, e não havia dinheiro para uma versão de diário que trancafiasse seus segredos; e mais, compartilhava o pequeno espaço doméstico com outras pessoas, por isso, sentia que seus segredos não permaneceriam secretos. A linguagem foi usada como cadeado, códigos, metáforas e figuras de linguagem foram criadas e empregadas para amostrar sem revelar. E isso era poesia.
Enfim, eu percebi que eu estava fazendo poesia. Aí, eu comecei a mostrar para as pessoas, porque eu já podia mostrar, não é, ninguém sabia do que se tratava mesmo... Eu vivia numa situação, na verdade, tão ruim economicamente falando, sabe, e em vários aspectos, né. A minha situação era muito ruim, como menina nordestina, favelada, negra ainda que de pele clara, e ninguém dava nada por mim. (...) Então, quando eu mostrava o meu texto, as pessoas se espantavam e falavam: ‘Nossa, você é escritora’, e aí eu acreditava, né?
Dinha
Para Dinha, o incentivo a escrever ainda tão jovem foi decisivo para construir uma carreira como escritora e editora. Na entrevista, ela afirma que até hoje meninas e jovens mulheres ainda encontram muitas barreiras para escrever.
A obra de Dinha compartilha outra característica da Literatura periférica: trata-se de uma “uma literatura sempre em construção” (Alex Criado), ou seja, uma vez publicada a obra, a autoria não tem reparos em voltar ao texto e modificar aquilo que já não serve “se vai melhorar o texto eticamente, esteticamente” (Dinha).
Parte de sua obra encontra-se disponível traduzida ao espanhol. Sobre esse tema, Dinha afirma que se sente muito livre com as traduções ao idioma, e que, ademais, é um compromisso da editora em divulgar entre los hermanos latinoamericanos as obras que publica.
O ponto alto do programa ficou por conta da leitura que Dinha fez dos poemas “As duas mulheres do meu pesadelo de infância”, “Com um mundo mais melhor” e “Pós-vida de gado”, do livro Gado cortado em mil prantos (2018, Me parió Revolução). O último poema termina assim: “caladas as sementes, carne de sol o povo cultivaria”. Dinha disse “esperançoso”.
A obra completa de Dinha está disponível para download gratuito no site da editora Me parió Revolução.
Música final:
BioBrasil é uma coluna do programa Brasil es mucho más que samba dedicada a divulgar a biografia de expertos, profissionais e personagens (históricos e atuais) da vida cultural, política e social brasileira. Brasil es mucho más que samba se emite todas às terças-feiras, às 17h30, em Rádio USAL. Para sugerir uma pauta ou contatar com a equipe do programa, escreva ao masquesamba@usal.es
Conferência “João Cabral e José Craveirinha. Literatura em contexto de cárcere”, ministrada no CEB, em 28 de novembro de 2024.