BioBrasil: entrevista com Jorge Alexandre Moreira

Conversamos com o autor de "Numezu", o primeiro romance de terror finalista dos prestigiados prêmios Jabuti.

Voltamos com a nossa série de entrevistas com escritoras e escritores brasileiros de terror, e conversamos com Jorge Alexandre Moreira que, em 2020, venceu o Prêmio Aberst e foi finalista do Prêmio Jabuti com o romance Numezu. Esta foi a primeira vez que um livro de terror aparecia entre os 10 finalistas do prestigiado prêmio literário.

Capítulo I: as raízes crescem na escuridão

Jorge Alexandre Moreira é natural do Rio de Janeiro e sua relação com a literatura começou ainda na infância. Aprendeu a ler muito pequeno com a ajuda da mãe que, cansada de responder a pregunta “Mãe, o que está escrito aqui?”, lhe ensinou a descifrá-lo por si mesmo. Assim, quando entrou na escola, já sabia ler. A leitura lhe condiziu à escritura e cedo começou a encher as folhas dos cadernos, muito antes de pretender dedicar-se profissionalmente à escritura.

Jorge sempre se sentiu fascinado por mistérios, por coisas ocultas, e esse foi o caminho até o terror. Começou a ler Stephen King, Lovecraft, a série de relatos de mistério de Alfred Hitchcock apresenta…, que também foi popular na Espanha a princípios dos anos 90. Depois veio Clive Barker e sua prolífica pluma. Jorge confessa que, então, só lia autores brasileiros de terror, entre outros motivos, porque era impossível encontrar outros. Mesmo que havia muita literatura brasileira de qualidade, poucos autores se aventuravam no gênero, por isso, lis autores estrangeiros. Agora, passado o tempo, Jorge Alexandre Moreira diz ser um devoto de Jorge Amado, Rubens Fonseca e de Machado de Assis… Todos eles, com os mencionados Stephen King e companhia, são hoje a sua principal fonte de inspiração.

Capítulo II: as coisas que se movem nas sombras

O primeiro romance de Jorge Alexandre Moreira se intitula Escuridão (Papel Virtual, 2003) e se desenvolve no interior da Amazônia brasileira. Por isso, perguntamos se o salvagem, o desconhecido, dá mais medo do que o sobrenatural. Para o escritor as duas coisas se misturam, principalmente em lugares tão remotos como a Amazônia, de lugares que sabemos pouco e que ainda guardam mistérios. A Amazônia é um lugar muito rico em lendas e mitos, em animais surpreendentes e maravilhosos e tudo isso, cria um clima propício para o suspense e para o terror.

A inspiração para Escuridão chegou enquanto trabalhava no exército brasileiro onde passou cinco anos. Estava assistindo um vídeo de instrução sobre algumas particularidades da Amazônia, e descobriu que havia regiões  onde existia uma “noite eterna”, lugares onde a luz nunca chegava, porque as árvores eram tão altas e suas copas tão densas que impediam a passagem do sol. Essa ideia ficou gravada em sua cabeça e foi a semente para o seu primeiro romance.

Escuridão demorou bastante em ser publicado. Jorge não tinha experiência como escritor e a história tem muitos personagens, muitas mudanças de ambiente e um roteiro compelxo, por isso, sente especial orgulho do livro. Em 2003, a obra foi publicada de forma independente. Atualmente, está trabalhando em alguns acertos no texto para reeditá-la este ano de 2023, em celebração dos 20 anos de seu lançamento.

O segundo romance é Numezu (Monomito Editorial, 2020). A histórica acontece no sul da França, mas os protagonistas são um casal brasileiro que aluga um veleiro para passar as férias no litoral de Marselha, para tentar superar uma crise no casamento. Isolados em meio ao nada, durante um mergulho no mar Raoul, o marido encontra uma estátua misteriosa. Ele não sabe, mas é uma representação de um antigo demônio Numezu, uma criatura esquecida pela humanidade, mas muito poderosa. Numezu começa a exercer uma terrível influência sobre Raoul e a partir daqui a história vai ficando cada vez mais obscura, violenta e sangrenta, enquanto Laura, a esposa, tenta escapar do homem que amou e que deixou de ser… humano?

Numezu foi finalista do Prêmio Jabuti de literatura em 2020 e vencedor do Prêmio Aberst na categoria de melhor romence de terror. Este reconhecimento, conta Jorge, é essencial porque ainda existe muito preconceito sobre a literatura de terror, especialmente, entre a elite literária, que está desconectada das demandas do mercado e dos interesses do público.

O fato de o prêmio Jabuti reconhecesse a obra com a indicação, ao que outros entendiam como “literatura de entretenimento”, foi fundamental, um grande avanço. Além disso, o Jabuti é um prêmio disputado, portanto, ser finalista, já é, como considera Jorge, uma grande vitória.

Capítulo III: o terror tem suas ventagens

Na entrevista, Jorge Alexandre Moreira também conta que normalmente as histórias que lhe chegam à cabeça sempre têm um elemento de sobrenatural, o que casa muito bem com o gênero de terror.

Quanto tem uma ideia sem este elemento fantástico, como em Parada rápida (2018), assume a tarefa como um desafio pessoal. Não se trata de justificar tudo no terror simplesmente pelo misterioso e inexplicável, mas quando não há elementos sobrenaturais, a margem para o que pode ou não pode acontecer está limitado. É necessário manter-se dentro de certos parâmetros para que a história seja crível. Por exemplo, Jorge conta que há um ano, escreveu um conto sobre um vampiro que somente sentia incômodos ao sol. O terror permite fazer isso, criar um universo prórpio com suas regras. Quando não há nada sobrenatural em cena é necessário ser mais estrito e isso, como dizia, é um desafio.

Jorge Alexandre Moreira é um desses escritores que não gosta de falar sobre em que está trabalhando. Mesmo assim, para terminar, dá algumas pistas. Por exemplo, comenta que tem vários contos preparados e que, antes do final do ano, pretende lançar um com os textos, e que incluirá relatos publicados já e outros inéditos.

Também está trabalhando num romance, uma história escrita na década de 1990 e da qual gosta muito, mas que deverá mudar sua estrutura e a construção de personagens, e até a linguagem. É que quando ele escreveu a história, poucas pessoas tinham telefone celular, não habia plataformas digitais e se escutava música em CD… Por isso, é ncessário atualizar o contexto para trazê-lo à década de 2020.

Agradecemos a Jorge Alexandre Moreira a oportunidade da entrevista! Graças a pessoas como ele, descobrimos um pouco da imensa riqueza cultural do Brasil, muito mais diversa, rica e variada do que ousamos imaginar.

Epílogo: para saber mais

Entrevista com Jorge Alexandre Moreira em Desalinho.com

Página oficial do autor: https://www.jorgealexandremoreira.com.br/

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