BioBrasil: entrevista a professora Regina Oliveira

Continuamos aprofundando em questões sobre a Amazônia, dessa vez com Regina de Oliveira, pesquisadora do Museu Paraense Emílio Goeldi.

Adoramos falar sobre a Amazônia, mas, verdade seja dita, não somos especialistas! O tema é amplo e complexo e exige contar com um bom orientador para não nos perdermos pelo caminho. Por isso, entrevistamos Regina Oliveira, pesquisaodra do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG, Brasil), quem nos esclarece alguns conceitos essenciais.

Sobre a autora

Regina se define como “amazônida” e, além disso, como cientista, ativista socioambiental e política. Vive em Belém, capital do estado do Pará, desde 1996, é licenciada em Ciências Biológicas pela Faculdade de Humanidades Pedro II e é doutora em Desenvolvimento Sustentável pela Universidade de Brasília. As suas pesquisas se relacionam com as populações tradicionais e seus territórios e trabalhou na Fundação Vitória Amazônica e na elaboração do plano de gestão de Parna Jaú. Desde 1996, é pesquisadora do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG). Com uma trajetória tão impressionante, Regina de Oliveira tinha que participar no ciclo de entrevistas virtuais “Vozes amazônicas”, um projeto em colaboração entre o CEB e o Instituto Peabiru (Belém, Brasil) que pretende dar protagonismo aos diferentes grupos sociais e às principais agendas contemporâneas da Amazônia brasileira. Se você ainda não conhece o cilo, todas as sessões estão disponíveis no nosso canal de YouTube.

O que é etnoconhecimento?

Um dos conceitos que frequentemente é empregado quando falamos de questões amazônicas é o de “etnoconhecimento”. A professora Regina de Oliveira diz que o etnoconhecimento faz parte das chamadas etnociências. Estas ,por sua vez, são as ciências relativas ao ethos, à cultura, ao ser, ao princípio das coisas… De fato, o nome deriva da palavra grega “ethos”, que significa “origem”. Assim, podemos encontrar áreas como a etnobiologia, a etnoecologia, as etnomatemáticas…. E en todas elas estará presente a idea de “identidade”.

Desta forma, quando falamos de etnoconhecimento nos referimos aos saberes, as tradições e a cultura que define a identidade de um determinado grupo social. Este etnoconhecimento é transmitido oralmente de geração a generação, especialmente, nos grupos que conhecemos como “comunidades tradicionais”, ou seja, os povos originários e indígenas, mas também quilombolas, ribeirinhos e outras comunidades que vivem na região do Amazonas.

O etnoconhecimento se aprende e se transmite no dia a dia, na vida cotidiana das pessoas, em estreita relação com o meio ambiente e com os fenômenos naturais que nos rodeiam. A professora Regina dá como exemplos a colheita do açaí, essa pequena fruto de cor roxa, cheio de vitaminas e nutrientes e o caso da pesca artesanal.

Assim, agora que já sabemos o que é etnoconhecimento, nos interessamos pelos diferentes campos e âmbitos da vida aos quais pode se aplicado. Está limitado somente à economia? Há outras áreas nas quais o etnoconhecimento tem algo mais que dizer? A professora Regina de Oliveira conta que o etnoconhecimento é inseparável da religiosidade e da cosmologia das populações tradicionais, permeando os seus rituais, crenças: se há uma tempestade, por exemplo, não se pode sair para pescar, porque há risco de morrer por causa dos raios. Ou se uma mulher está grávida não embarca em uma canoa de pesca, porque dá azar e impede que nesse consigam pescar.

Tudo isso se traduz em conhecimentos útieis para a manutenção do cotidiano dos povos tradicionais que aprendem coisas tão importantes como que não se pode pescar se os peixes estão subindo rio acima para desovar, que não se caça fèmeas dos animais e que só existe uma época do año adequada para colher certas frutas… Uma forma de garantir a sustentabilidade da produção. A professora Regina destaca o caso do cultivo do açaí e comenta que, conversando com um agricultor local, ele confssou a ela que nunca derrubava as árvores grandes que cresciam perto dos açaís para plantar novos brotos porque o açaí os necessitava para crescer e se reproduzir, especialmente em época estival, quando faz calor e chove menos, porque as folhas que caem das árvores que lhes rodeiam retêm a umidade do solo. Na verdade, o que este homem descreve de maneira intuitiva é o ciclo do nitrogêneo, que nutre as raízes do açaí.

O etnoconhecimento como vemos está intimamente ligado à natureza, ao meio e suas aplicações são infinitas. Nesta época de pandemia, de crise sanitária sem precedentes desde a mal denominada Gripe Espanhola, a importância de preservar biomas como a Amazônia fica ainda mais evidente e urgente, porque ali, vinculadas a conhecimentos tradicionais, estão as curas para muitas de nossas enfermidades. A professora Regina Oliveira destaca que, por exemplo, em seu instituto estão trabaljando com muitas plantas que podem servir como repelentes de insetos, algo que parece banal, mas deixa de ser se consideramos doenças muito graves como a dengue, a zika e a malária, que causam milhares de mortes todos os anos, por causa da picada de mosquitos infectados.

Por isso, o etnoconhecimento é muito importante e deve ser valorizado, salvaguardado e protegido. Para tanto, existem os comitês de ética e as legislações, assim como instituições como a Sociedade Internacional de Etnobiologia e a Carta de Belém de 1988, recentemente renovada em 2018, que tratam deesses saberes tradicionais.

Comunidades tradicionais

E para terminar, perguntamos à professora Regina Oliveira o que são as comunidades tradicionais. Ela nos surpreende dizendo que as populações tradicionais são sociedades com uma cultura própria e, portanto, podem estar tanto nas florestas tropicais como nos bosques e campos europeus. A sua distinção está na linguagem diferente que adotam, na forma através da qual interagem com a natureza e sua dependência com relação ao meio, intimamente ligado a sua cosmogonia. Comunidades tradicionais são os povos originários: indígenas amazônicos, australianos, esquimós, mas também populações remanescentes como os quilombolas, os habitantes das ribeiras, frequentemente mestiços, etc.

Depois de falar com a professora Regina Oliveira, entendemos um pouco mais sobre este tema e por isso lhe agradecemos sua simpatia e amabilidade em compartilhar seus amplos conhecimentos conosco.

Música no programa

https://www.youtube.com/watch?v=VHN2TVwNhEo
Martinho da Vila, “Aquarela brasileira”, gravada inicialmente para o disco Maravilha de cenário de 1975.

Compartir

Relacionado:

Conversa com um dos fotógrafos selecionados no programa de Residência Artística de Fotografia do CEB.
Podcast do programa dedicado ao grupo “Samba de moça só”, uma formação composta somente por mulheres musicistas de Aracaju (Sergipe, Brasil).
No Dia Internacional da Mulher, entrevistamos Monique Malcher, uma jovem escritora paraense vencedora do último Prêmio Jabuti, na categoria de contos.
Anterior
Próximo