BioBrasil especial: entrevista Camila Vinhas Itavo

A autora da exposição “No Xingú há mais de 100 anos” conta sobre a gênese do projeto que a levou até a aldeia de Kamayurá, no alto Xingú.

Neste especial de BMQS entrevistamos Camila Vinhas Itavo, autora da exposição “No Xingú há mais de 100 anos” que esteve aberta à visitação no Palacio de Maldonado, de 29 de novembro a 22 de dezembro de 2021. Camila teve a amabilidade de conversar com a gente desde o Brasil para falar sobre o seu trabalho e, especialmente, sobre este maravilhoso projeto que, como ela mesma diz, evoca a raiz do povo brasileiro.

Trajetória e formação

Em primeiro lugar, queríamos conhecê-la melhor e perguntamos por sua formação e experiência. Camila Vinhas Ítavo é fotógrafa e bailarina, e colaborou com vários jornais e revistas, como A folha de São Paulo e o Diário de São Paulo. O seu primeiro trabalho autoral foi um diálogo entre a fotografia e o rádio, o documentário intitulado “O Jornaleiro que preferiu o rádio”, quando tinha somente 20 anos. O documentário venceu o prêmio do Mapa Cultural Paulista, somente o primeiro de muitos reconhecimentos que ainda viriam. Em 2006, participou como atriz de um filme ao vivo intitulado “Super night shot” , obra de um coletivo germano-britânico (Gob squad), com que esteve gravando pelas ruas de várias cidades brasileiras até 2011.

Atualmente, Camila está cursando o doutorado interdisciplinar do programa de pós-graduação em performances culturais da Universidade Federal de Goiás (UFG, Brasil), com um tema de pesquisa sobre dança, consciência e audiovisual. O seu projeto mais recinte é “Eu rio”, inspirado na obra do fotógrafo japonês Masaru Emoto “Mensagens da Água”, que considera que a água tem consciência. Camila avalia este trabalho como cinema-dança sobre a consciência da água e, mais especificamente, do rio Tietê, que nasce muito próximo do oceano e percorre mais de 600 quilômetros pelo interior do estado de São Paulo para desaguar no rio Paraná.

Para conhecer um pouco mais sobre o trabalho de Camila, visite o seu canal de YouTube, onde está disponível o material audiovisual de “Em Xingú há mais de 100 anos”, assim como outros vídeos muito interesantes.

Em Xingú há mais de 100 anos

Sobre a exposição “Em Xingú há mais de 100 anos”, Camila cuenta que em 2011 viajou até a aldeia de Kamayurá por causa de um convite do pajé Takumã dekamayurá, um dos líderes mais antigos e reconhecidos do Parque Nacional do Xingú (Mato Grosso, Brasil). Depois do convite, Camila fez uma campanha para arrecadar alimentos para levá-los ao povoado, especialmente leite para as crianças e outros produtos não perecíveis. A viagem dela coincidia com a época de chuvas, quando é mais difícil pescar por causa da subida das águas.

A exposição registra a visita à aldeia kamayurá e mostra os hábitos e o dia a dia de seus moradores. Infelizmente, o pajé Takumã faleceu em 2014, mas as fotografias são ainda muito atuais e a sua essência permanece até hoje inalterada… Ou pelo menos estará até que abram as comportas da represa de Belo Monte, que poderá fazer com que diminua o fluxo de água do rio Xingú em até um 80%. Isso vai trazer muitas dificuldades e ainda mais pobreza e miséria para os povos da região.

A mostra retrata a festividade do kuarup, um ritual milenar dedicado aos mortos, o trabalho cotidiano com a mandioca para fazer o beijú, uma atividade exclusivamente feminina, e como as crianças estão acostumadas a essas tarefas desde pequenos. São crianças inteligentes, rápidas e livres e também muito responsáveis, conscientes de que as suas pequenas mãos são necessárias para a manutenção da comunidade.

Para terminar Camila reivindica a necessidade de proteger estas populações, assim como o seu entorno, já que a natureza, o meio onde vivem, está intimamente ligado a sua cultura e a suas formas de subsistência. Assim, a exposição é também uma chamada de atenção, uma tentativa de despertar nossa consciência para o meio ambiente para compreender que cada gesto, cada decisção, é importante para preservar a vida de muitas pessoas e as nossas no futuro.

Referências

Blog do coletivo “Reclutas del Gog Squad”: https://recrutasdogobsquad.wordpress.com/2009/11/17/hello-world/

Blog de Camila Vinhas Itavo “Video e dança”: https://videoedanca.wordpress.com/

Canal de YouTube de Camila Vinhas Itavo: https://www.youtube.com/c/CamilaVinhasItavo

Perfil de Facebook de Camila Vinhas Itavo: https://www.facebook.com/camila.vinhas

Música no programa: “Olho de boto”, na voz do paraense Nilson Chaves.

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