BMQS começa a nova temporada com uma entrevista com a escritora Ana Rüsche. Ana é doutora em Estudos Linguísticos e Literários pela Universidade de São Paulo (USP, Brasil) e, atualmente, pesquisa no pós-doutorado sobre ficção científica e câmbio climático no Departamento de Teoria Literária e Comparada da USP. O seu último livro, A telepatia são os outros (Monomito, 2019), foi finalista dos prêmios Jabuti e Argos, além de vencedor do Prêmio Odisseia de Literatura Fantástica em 2020. Com ela, entramos num mundo novo, onde o impossível é só uma palavra.
Construindo uma escritora

Começamos a entrevista, perguntando a Ana Rüsche por suas origens e formação. Ela confessa que sempre quis ser escritora, mas infelizmente – como também acontece na Espanha – no Brasil é difícil ganhar a vida dedicando-se à literatura. Assim, para pagar as contas, dá aula de escritura criativa e trabalha com produção de eventos. Ana nasceu em 1979. Durante a infância e adolescência leu muito! Passava longas temporadas em Ubatuba, uma pequena cidade do litoral norte de São Paulo, e como não tinha televisão, o seu principal passatempo eram os livros.
A mãe trabalhou a vida toda como professora de escola pública, e o pai se formou em Física e era um amante da ficção científica. Os dois foram uma grande estímulo para ela. De fato, foi na biblioteca do pai onde despertou o gosto pelo gênero, com os livros da coleção “Argonauta” publicados pela editora Livros do Brasil, com uma seleção de obras de grandes clássicos americanos como Ray Bradbury, Philip K. Dick e Arthur C. Clarke. Esses autores lhe ensinaram outras formas de ver o mundo e o universo!
Ana é licenciada em Direito pela Universidade de São Paulo (e chegou a cursar um mestrado na área) e depois se formou em Letras inglesas, área na qual se doutoraou. Atualmente, pesquisa ficção científica e câmbio climático no pós-doutorado, no Departamento de Teoria Literária e Comparada da USP. Além disso, escreve em vários meios, o que torna a vida “mais interessante e cheia de referências”.
A telepatia são os outros
Ana Rüsche começou a carreira como escritora em 2005, publicando poesia e contos em obras coletivas. Na época, conta na entrevista, quase não havia mulheres escrevendo e publicando. Na verdade, também não participavam em eventos literários; as poucas mulheres lá presentes eram acompanhantes de autores convidados. Assim, uma das principais dificultades que enfrentou no começo da carreira foi a ausência de referências, de outra mulher que lhe guiasse e acompanhasse no caminho e que fosse fonte de inspiração.
O sucesso chegou com o primeiro romance: A telepatia são os outros (Monomito, 2019), premiada e reconhecida em todo o país, e até traduzida recentemente ao italiano com o título Telempatia (Future Fiction, 2023).

A história apareceu, em primeiro lugar, dividida em quatro partes na revista Mafagafo. O argumento da primeira versão era parecido ao do romance, mas com algumas importantes diferenças. Por exemplo, no início a protagonista era uma mulher jovem, que no texto definitivo envelheceu muito para encaixar melhor na narrativa. A telepatia tomou forma de livro a partir de um convita que Ana Rüsche recebeu do Serviço Social do Comércio (Sesc) para viajar por diferentes municípios do Brasil. Ana pensou em aproveitar a ocasião para lançar o livro ao longo do trajeto previsto. No entanto, a viajem estava dirigida a jovens estudantes de escola primária, portanto, o tema do romance não era apropriado e não conseguiu o resultado esperado.
Mas, o livro já estava ali. Havia tomado forma.
A nossa entrevistada confessa que gosta muito de poesia e a prosa experimental, mas que em A telepatia tentou conter-se para fazer uma obra mais acessível. Curiosamente, entre os principais leitores do livro estão pessoas que não lêem ficção científica, e isso é assim porque o argumento oferece muitas outras coisas. De fato, A Telepatia foi escolhida para formar parte das leituras do clube Leia Mulheres, fundado por Juliana Gomes em São Paulo em 2015, inspirado no #readwomen de Joanna Walsh, e que tem como objetivo incentivar a leitura de autoras mulheres. As leitoras do clube são mulheres sem contato com a ficção científica, mas que se sentem identificadas com a protagonista: uma mulher de 50 anos, que tem que cuidar da mãe idosa e que se vê incapaz de lidar com as mudanças repentinas da sua vida.
Uma viagem ao interior do Chile, uma aldeia dirigida por mulheres conectadas mentalmente entre si, um cientista americano que quer patentar a telepatia… O argumento promete! Se você quer saber como acaba, o livro está disponível em formato e-book e em papel.
Wish list
Na última parte da entrevista, Ana Rüsche recomenda algumas leituras de autoras brasileiras para incluir em nossa particular lista de desejos (assim, em feminino, que ainda há que avançar no caminho da igualdade de gênero).
A primeira recomendação é o conto de 1960 “Eles herdarão a terra”, de Dinah Silveira de Queiroz. Essa escritora, mesmo que foi um best seller na época, caiu no esquicimento e só recentemente voltou a ser lida e, especialmente, pesquisada. Também nos convida a aproximar-nos de Conceição Evaristo, uma autora afrobrasileira que começou a publicar nos anos 80, mas só recebeu reconhecimento há pouco mais de uma década. Ana destaca, especialmente, um conto que, para ela, é impactante “Olhos d’água” (Editora Pallas, 2014). Não podia deixar de mencionar os contos de Bráulio Tavares, um dos grandes nomes da atualidade da ficção científica brasileira e de quem já falamos no programa (confere o podcast da entrevista com Gerson Lodi-Ribeiro e com Flavio García).
Mas, se você prefere uma narrativa mais longa, a nossa entrevistada recomenda ler Não veras pais nenhum (1981) de Ignácio de Loyola Brandão, uma distopia publicada inicialmente em 1981, e que descreve um futuro muito parecido aos tempos de hoje, onde o protagonista aborda problemas como o militarismo e a questão ambiental. E para terminar, e falando de autores mais recentes, Ana cita o livro de Aline Valek As águas-vivas não saben de si (Rocco, 2016), uma bela obra de ficção científica que todos deveríamos ter na mesa de cabeceira.
Uma última observação: Ana Rüsche é uma grande poetisa, e não podia deixar o gênero de lado, por isso recomenda a obra de Lubi Prates Um corpo negro (2018), obra finalista do 61º Prêmio Jabuti, na qual a autora fala de identidade feminina e negra.
Agradecemos a Ana Rüsche a amabilidade e disponibilidade para a entrevista. Para conhecer mais sobre seus trabalhos, visite o site da escritora e inscreva-se na newsletter. Siga também seu podcast “Incêndio na escrivaninha” onde trata de livros e da inspiração para escrever, além do seu perfil em Instagram.
Para saber mais
Conto “Marea viva” (em espanhol) lançado em Futuras: cuentos de ciencia ficción ecofeminista.
“Furiosa”. Poesia para download gratuito.
Entrevista para o programa Guilhotina #124, de Le Monde Diplomatique.