Esta semana, na coluna “O samba da minha terra”, oferecemos uma entrevista com Lucas van de Beuque, diretor executivo do Museu do Pontal, o maior museu de arte popular do Brasil.
O entrevistado
Lucas Van de Beuque é formado em economia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ, Brasil). Mestre em Engenharia de Produção pela Coppe/UFRJ, com pesquisas acadêmicas em “Economia da Cultura” e “Gestão Cultural”, com foco para a área de museus. Tem mais de 20 anos de experiência na coordenação de projetos culturais, sendo os últimos anos dedicados a gestão do Museu do Pontal. Como diretor executivo da instituição, contribuiu para o planejamento e desenvolvimento de parcerias que permitiram a realização de exposições no Brasil e no exterior, produção de filmes, seminários, eventos musicais e ações educacionais.
O museu
Fundado na década de 1970, o Museu do Pontal tinha como sede um casarão no bairro do Recreio, no Rio de Janeiro. Com motivo de frequentes inundações desde 2010, foi necessário buscar uma nova sede para o museu. Em setembro de 2021, o Museu do Pontal inaugurou uma nova sede, na Barra da Tijuca. O novo edifício está integrado na natureza, reunindo arquitetura e sustentabilidade. Para se ter uma ideia, a maior parte da água que o museu consome é reaproveitada do que captam, principalmente das chuvas. Ainda assim, o projeto da nova sede incluía também a ideia de “museu-praça” ou “uma praça que tem um museu”. Essa ideia buscava abrir a instituição, de forma orgânica, a dialogar com a sociedade e, ao mesmo tempo, escapar da concepção de “museu estático”.
Com mais de 40 anos de existência, o Museu do Pontal reúne um acervo de mais de 9 mil peças – esculturas – de 300 artistas de todo o país, que mostram diferentes “brasis” e suas populações. O acervo é resultado de muitos anos de trabalho e pesquisa, iniciado através da iniciativa de seu fundador, Jacques van de Beuque, na década de 1950.
Jacques van de Beuque (Bavay, França, 1922 – 2000, Rio de Janeiro, Brasil) foi um pintor francês que chegou ao Brasil fugindo de um campo de trabalho forçado na Alemanha, em 1946. Ao conhecer artistas pernambucanos, como Mestre Vitalino, se encanta com a arte popular brasileira. Até o seu falecimento no ano 2000, foi uma vida dedicada à arte popular brasileira.
O Jacques, o meu avô, ele chegou ao Brasil no final da Segunda Guerra Mundial, ele era francês e chegou aqui e se encantou totalmente com a arte popular. Ele viajava a trabalho pelo país, e entrou em contato com o Mestre Vitalino, se encantou com o trabalho dele, comprou algumas obras, e depois comprou mais, e depois foi comprando de outros artistas, e ele foi fazendo uma coleção sem planejar muito, mas aos poucos foi ficando uma coisa séria, ele foi se dedicando a isso ao longo da década de 1950, 1960. Então, na década de 1970, ele cria o Museu do Pontal com esse acervo dele
Lucas van de Beuque
A partir desse momento, a gente passa a ter um outro processo de aquisição, vinculado a pesquisas. Então, começa a ter uma estruturação realmente de um museu; até ali é uma coleção do Jacques que é visitável, e a partir dali vira um museu, e aí tem um processo de aquisição relacionado a pesquisas de campo em regiões, em locais ou sobre artistas, e aí nesse período tem essas aquisições e começam a ter doações de acervo de famílias, de pessoas que entendem que o museu é um lugar de legado, de levar, de conduzir esses acervos para as próximas gerações
Lucas van de Beuque
Com relação ao acervo dedicado ao samba, na entrevista, Lucas van de Beuqeu conta que a visita ao Museu do Pontal termina com a obra “Carnaval”, do artista niteroiense Adalton Fernandes Lopes.
Essa obra que está no Museu do Pontal ela tem quase mil elementos. Ele fez a Sapucaí em todos os seus detalhes, desde a arquibancada, as pessoas vendo o desfile, se divertindo, porque tudo se mexe, a passista sambando, a porta-bandeira rodando com a bandeira, e ele representa um pouco de todas as escolas de samba. Por exemplo, a bateria que está no recuo é a bateria da Mocidade, que é a grande bateria do Carnaval, do Mestre André, que revolucionou o Carnaval e o toque da bateria. A comissão de frente é a velha guarda da Mangueira; na sequência, tem águia da Portela...
Lucas van de Beuque
Aproveita para conferir um pouco sobre a obra no vídeo abaixo:
Exposição "Novos Ares, Pontal reinventado"
Trata-se de uma exposição de longa duração em homenagem ao fundador do Museu. A mostra tem como temas o trabalho – urbano e rural – e o ciclo da vida, tal como, originalmente, foi planejada pelo fundador do Museu. A narrativa começa com o trabalho na cultura, o trabalho dos músicos, continua com o trabalho urbano e, depois, o trabalho rural. A exposição termina com o ciclo da vida, começando pelo nascimento e fechando com a morte.
A arte popular brasileira
Um dos temas que tratamos na entrevista foi sobre a noção de arte popular que norteia o museu. Para Lucas van de Beuque, o ideal seria “não existir a categoria arte popular, [porque eles] são artistas, porque são, são artistas e ponto”. No entanto, este conceito opera a modo de proteção, para trazer a um circuito oficial de cultura, de arte, aqueles artistas que, por circunstâncias diversas, não têm acesso a esses espaços.
No entanto, o que define essa produção artística popular? Para Lucas van de Beuque, há dois elementos fundamentais: a origem social e o processo de aprendizagem. A primeira tem a ver com “a arte popular é popular pela questão de origem popular, ou seja, pessoas que não tiveram acesso aos meios formais por uma questão financeira”; enquanto o processo de aprendizagem se refere “um processo […]autodidata, ou via familiares, ou vizinhos”, ou seja, “processos não formais de aprendizado e de expressão artística”.
O museu na pandemia
Na entrevista, Lucas van de Beuque conta que durante boa parte dos meses de pandemia o museu esteve fechado com motivo das obras na nova sede. No entanto, a experiência serviu também para repensar alguns tipos de atividade e de comunicação do acervo. O museu, como tantas outras instituições, se lançou no mundo virtual e aproveitou o contexto para potencializar suas redes sociais, com conteúdo do tipo das lives, que congregavam pessoas de diferentes localidades.
Para conhecer mais sobre o Museu do Pontal visite o site da instituição https://museudopontal.org.br/ e as redes sociais, Facebook, Instagram e YouTube. E se tiver a oportunidade de visitá-lo, não perca a oportunidade, afinal “são tantos brasis num lugar só (…), esse é o Museu do Pontal em sua essência”.