O samba da minha terra: Cidade da Música da Bahia

De Salvador para o mundo: o museu Cidade da Música da Bahia reúne em seu acervo registros históricos e biográficos sobre a música baiana de todos os tempos.

Depois do parón da Semana Santa, retomamos a nossa emissão de “O samba da minha terra” para oferecer uma entrevista com João da Cunha, Jonga Cunha, músico, radialista, produtor musical, e coordenador artístico do museu municipal de Salvador, Cidade da Música da Bahia, ao qual dedicamos esta entrada.

A capital baiana, Salvador, “é a cidade de maior população negra do mundo fora da África” (Jonga Cunha). Tal característica marca

o nosso dia a dia, o nosso costume, a nossa música, a nossa alimentação, a nossa roupa, o nosso andar, a nossa luta, que é a capoeira, o nosso folclore, a nossa cultura, tudo nosso é africano, a gente tem influência europeia, evidentemente, mas o que sobrepõe em Salvador é a África

Daí que todo o estado, e Salvador no caso, seja o baluarte da cultura afro-brasileira.

O museu

 Cidade da Música da Bahia é um museu interativo e dedicado a reunir registros sobre os estilos e ritmos musicais mais diversos, que têm origem na Bahia, em Salvador e, que de lá foram para todo o país. A construção do museu contou com a contribuição decisiva do cenógrafo brasileiro Gringo Cardia, especialmente para adequar o espaço ao tipo de acervo que aloja.

O museu Cidade da Música da Bahia está localizado no centro de Salvador, no bairro do Comércio – no Casarão de Azulejos Azuis -, entre o Elevador Lacerda e o Mercado Modelo, dois grandes pontos turísticos da capital soteropolitana. O equipamento tem quatro espaços para visitação. Na entrada, no andar térreo, encontramos a “Biblioteca e Midiateca” com material de leitura e audiovisual. No primeiro andar, “A cidade de Salvador e sua música”, conhecemos os bairros da cidade e suas músicas, além de vídeos com gravações de depoimentos de artistas sobre a cidade. No segundo andar está a seção “História da Música da Bahia”, que reúne depoimentos de artistas sobre o tema, além de um espaço dedicado à Orquestra Sinfônica da Bahia, e dois espaços, “Sala A nova música da Bahia” e “Sala quem faz a música da Bahia” onde podemos conhecer os novos talentos e estilos de música da Bahia. O último andar está destinado a atividades de caráter educativo e de entretenimento: há um karaokê para os visitantes, a “Sala Rap Trap”, para batalhas de rap e trap, e sala de percussão, entre outros:

Do outro lado desse terceiro andar, que é i mais interativo, nós temos um estúdio, o estúdio do museu, ele funciona para descobrir grandes talentos das periferias de Salvador, artistas que não têm dinheiro para gravar. A gente grava todos os tipos musicais nesse estúdio. Lá tem também um workshop de percussão, onde os nossos monitores-artistas demonstram para os visitantes todas as claves de percussão que vêm desde a África, passando pelo candomblé e chegando nas atuais claves de samba reggae, de pop axé, de galope, como é o ijexá, como se toca, qual é a diferença entre o samba que nasceu aqui e o que foi para o Rio.

O acervo e a experiência museal

O museu Cidade da Música da Bahia foi inaugurado em 23 de setembro de 2021. O contexto da pandemia de covid-19 marcou profundamente as origens da instituição. Mas, vamos por partes. A ideia de um museu interativo já havia sido concebida muito tempo antes:

De uns 6 a 8 anos para cá, a gente entrou numa ideia do grande cenógrafo Gringo Cardia, de mudar um pouco a concepção dos museus populares (…) - ele quis dar modernidade, movimento, dinamismo aos museus. O Museu Cidade da Música da Bahia fala da música brasileira a partir de Salvador e região metropolitana, as cidades daqui de perto

Essa ideia inicial de movimento e dinamismo na experiência museal se materializou na construção física do equipamento e do acervo. Para falar da música da Bahia, em seus mais variados gêneros e estilos, o museu propõe uma experiência construída a partido do diálogo e da interação com o visitante.

A partir da ideia de tratar a música do Brasil a partir de Salvador, Gringo Cardia se juntou com vários pensadores, curadores, com muita gente que pensa a música da Bahia, e começaram a fazer um acervo a partir da história, desde o entrudo do carnaval até os dias de hoje, e com muita imagem, muitas entrevistas, documentários. A Cidade da Música é praticamente um museu interativo, porque a gente tem 850 horas de material com toda essa história

Esse material que forma o acervo se refere a entrevistas, informação biográfica – sobre músicos baianos -, mas também histórica – os lugares, os gêneros e estilos musicais. Sobre a experiência de visitação, Jonga Cunha conta que se pode controlar o conteúdo exibido nas televisões através de um aplicativo que o visitante baixa no celular.

Eu vou num monitor que tem lá a história da música do Pelourinho, que vem desde a escravidão até os dias de hoje, com os ensaios do Olodum, o nascimento do samba-reggae, Neguinho do Samba, o ijexá, os filhos de Gandhy, então a história do Pelourinho é tão grande para a música baiana e brasileira, que você tem um loop de 4, 5, 6 horas. Então, você com o celular, você pode interferir nesse loop e dizer ‘Não, agora eu quero saber sobre a criação do samba reggae’, você interfere, vai na criação do samba reggae, a história de Ramiro do Soto, de Neguinho do Samba, como veio alguns do Ilê Aiyê se juntaram com o reggae e misturaram o toque, o toque dos surdos, como o Olodum foi importante nisso, as visitas de Michael Jackson e tantos outros ícones americanos ao Olodum

O acervo sobre samba

Sobre o acervo dedicado ao samba, Jonga da Cunha afirma que o museu dá “um tratamento todo especial [ao samba] e em todas as suas vertentes” (Jonga Cunha). Na entrevista, ele aborda o tema utilizando a metáfora dos “irmãos gêmeos” do músico e compositor Roberto Mendes, para introduzir as claves, as diferenças rítmicas entre o samba feito na Bahia e no Rio de Janeiro. E mais: no museu, essa explicação histórica e, ao mesmo tempo, musical e rítmica é exemplificada pelos músicos-monitores.

Por isso, é fácil perceber que se trata de um museu em permanente construção. E para reunir um acervo com essas características, o processo de aquisição envolve a comunidade ao redor do museu. Sobre esse assunto, na entrevista, Jonga Cunha, cita o caso de uma fita cassete com a gravação do último ensaio ao vivo do “Apaxes do Tororó”, um bloco carnavalesco de inspiração indígena e dos mais antigos de Salvador, fundado em 1968, e que durante as décadas de 70 e 80 foram grandes protagonistas do carnaval da cidade.

Puxa, eu estou aqui com a gravação do último ensaio ao vivo dos ‘Apaxes do Tororó’, isso é ouro! E então, eu tenho que ir buscar isso, digitalizar, eu coloco, inicialmente, à disposição na biblioteca dos dois museus, da Casa do Carnaval e da Cidade da Música, e posteriormente, com a ajuda do cenógrafo e curador Gringo Cardia, a gente encaixa no acervo que está disponível para o turista chegar em ver nos monitores. Então, é um trabalho in progress, não tem fim.

A estas alturas, nos perguntamos se podemos acessar daqui uma parte do acervo. Adiantamos que ainda não, mas em breve, o projeto inclui disponibilizar todo esse precioso acervo de forma livre para consulta e de forma remota. E além do acervo on-line, em breve também haverá atividade formativa para quem não puder participar presencialmente.

Então, esse caminho do timbal é baiano, totalmente soteropolitano. Porém, a identidade com o djambe, que veio dessa diáspora, que vem dessa influência, e a gente olha e pensa, ‘Nossa, baiano pra cacete, porque eles fazem tudo isso aqui’, mas veio da África. Por isso, que eu estou querendo mesmo desenvolver a música, a demanda das aulas daqui de Salvador é a partir da percussão, a grande riqueza de Salvador, da Bahia, é a percussão, é o ritmo, essa influência afro que temos, e que virou uma central de percussão, uma ilha de percussão impressionante.

E como “de bien nacidos es ser agradecidos”, agradecemos a Jonga Cunha e a Geancarlos Barbosa, supervisor da Cidade da Música da Bahia, pela oportunidade da entrevista.

Veja mais:

Referências:

Cidade da Música da Bahia: site oficial, Facebook, Instagram.

Jonga Cunha: Facebook, Instagram.

Gringo Cardia: site oficial, Instagram.

Salvador da Bahia. (2023, 10 de abril). Salvador ganha equipamento cultural inédito no país. Recuperado de https://www.salvadordabahia.com/cidade-da-musica-da-bahia/

 

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