BioBrasil: entrevista com Inés Martínez, de Libero Editorial

Conversamos com Inés Martínez García, diretora de Libero Editorial, sobre o belo poemário da autora brasileira Carla Carbatti.

Nesta entrega falamos com Inés Martínez García, jornalista, corretora e editora e, atualmente, diretora de Libero Editorial, que acaba de lançar uma versão bilíngue de Todo tocar es una canción, um belo poemário da autora brasileira Carla Carbatti. Literatura sensual, que deixa a pele arrepiada, para começar bem a semana.

Libero editorial: abrindo portas fechadas

Libero editorial é uma editora jovem, com apenas quatro anos de existência, mas com objetivos bem claros e bonitos projetos em sua andadura. Inés Martínez García conta que Libero se dedica à poesia em língua espanhola, especialmente, a poética e a escritura latino-americana. No catálogo encontramos vozes bem diversas, como a canária Aida González Rossi (Pueblo yo, 2020), que recentemente publicou em Caballo de Troya com Sabina Urraca; a afrodescendente equatoriana Elaine Vilar Madruga (Sakura, 2022), prêmio ao Melhor livro do ano pela livraria Cálamo de Zaragoza com La tiranía de las moscas (ed. Barrett); e Yuliana Ortiz Ruano (Canciones desde el fin del mundo, 2021), publicada também pela La Navaja Suiza.

Essas autoras compartilham com o resto do catálogo de Libero, uma ideia de violência, feminismos, genealogia e paisagem que ultrapassa seus corpos e sua memória, com a intenção de se posicionarem a partir do seu lugar de escritura (não são autoras “do centro”) em um ponto onde se leia e se escute o que têm a dizer.

Neste sentido, Inés descreve poeticamente Libero como um mar, pois não só publica autoras do outro lado do Atlântico, mas também mulheres “isoladas” (no sentido de viver em uma ilha), marginadas por um mundo no qual ainda é preciso cumprir com uma série de cânones estabelecidos para poder triunfar. Não se trata de “resgatar” autoras, mas de dar a elas o espaço e o reconhecimento que merecem.

Todo tocar es una canción ou o triunfo dos sentidos

Fonte: liberoeditorial.com

Nesse contexto se encaixa o poemário Todo tocar é uma canção, da escritora brasileira residente na Galiza, Carla Carbatti. Trata-se de uma versão bilíngue, espanhol-português, o que faz dela uma rara avis, pois, ainda que é frequente encontrar esse tipo de publicações duais quando se trata da literatura em língua inglesa, para o português é mais difícil. Para Inés, é essencial manter o original em português, especialmente no caso da poesia, ppois assim é possível desfrutar da sonoridade de cada verso, da palavra como golpe e como vibração.

A tradução é obra de Andrea Sofía Crespo Madrid, uma antiga estudante venezuelana da Universidade de Salamanca, que também está no catálogo de Libero. Foi um trabalho longo e complexo pora respeitar a palavra da autora, tudo o que ela queria dizer e transmitir, sua sensualidade e seu tato. Além disso, admite Inés, no fundo, traduzir um livro é reescrevê-lo. E isso já é um desafio!

Todo tocar é uma canção abre o universo da autora através do tato, do palpável, do corpo e dos sentidos. Nesse caso, a canção é entendida como todos esses sons que o próprio corpo produz e também é entorno que nos rodeia e que a palavra com sua resonância escrita e oral, evoca. As duas partes que formam a obra – “Piel” e “Manos”- já nos dá uma ideia do caminho traçado pela autora, a senda por onde nos quer levar.

E a poética de Carla Carbatti, nas palavras da jornalista búlgara Preslava Boneva, está formada por versos de tato, de pele com pele, de letra com letra. A sua escritura tem uma sensibilidade pouco comum para este mundo tão veloz e tão feroz, como acrescenta Inés durante a entrevista. Por outro lado, Todo tocar joga com uma terminologia científica pertencente ao reino animal, vegetal e mineral, que se mistura com o corpo, e olha para dentro a um nível biológico, quase anatômico. E tudo isso sem esquecer a carga social e política, presente em versos como “somos la insistencia del grito que no cesa/ porque se extravía en el aliento de innumerables bocas”, que poedria ter servido de slogan para o último 8 de março.

Conhecendo Carla Carbatti e Inés Martínez

Fonte: Facebook da autora

Na entrevista, Inés Martínez conta que Carla Carbatti (Belo Horizonte, 1977) é doutora em Estudos de Literatura e da Cultura pela Universidade de Santiago de Compostela, e especialista em Clarice Lispector, cujo espírito ultrapassa toda a sua obra. Também sente admiração pela escritora polonesa, e prêmio Nobel de literatura, Wislawa Szymborska, a quem dedica um longo poema em Todo tocar.

Entre os trabalhos de Carla Carbatti, destacamos Na cadência do caos (Editora Urutau, 2016) e, especialmente, sua colaboração na antologia Liberoamericanas, 140 poetas contemporáneas, um livro que reúne poemas em espanhol, português, galego, catalão e euskera de autoras de toda América Latina, Espanha e Portugal. Foi através dessa obra que Inés conheceu Carla e começou a aventura de publicar Todo tocar es una canción.

Fonte:Facebook

Inés Martínez García, além de representante de Libero Editorial também é escritora. É autora de Pasión silenciosa (Liberoamérica, 2019) e do fanzine multidisciplinar Trenza roja (2020) escrito em colaboração con a navarra Iosune de Goñi e dedicado à amizade e à dor. Recentemente, a editora chilena RIL publicou o seu último poemário, Yo soy la luz del bosque (RIL, 2022), que é o trabalho do qual se sente mais orgulhosa, porque, como disse, conseguiu expressar tudo o que queria em poucas palavras. Participou em várias antologias e, atualmente, trabalha no romance, sua entrada na prosa, além de outro poemário dedicado à avó. Daqui do BMQS, desejamos a elas todo o sucesso do mundo!

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