Neste podcast do BMQS, celebramos o Dia do Livro voltando nosso olhar para o presente da literatura brasileira. Desta vez, não nos detemos em nomes clássicos nem em autores consagrados, mas em escritoras contemporâneas que estão renovando o panorama editorial brasileiro a partir de registros muito distintos: a intimidade e o desejo, a memória histórica, a violência social, a reescrita do passado e também a imaginação fantástica. São autoras com trajetórias sólidas, com obras premiadas ou traduzidas, e com uma presença cada vez mais visível dentro e fora do Brasil.
Natália Borges Polesso: o amor em chave feminina

Começamos com Natália Borges Polesso, cuja obra nos permite entrar de cheio em um tema central da literatura contemporânea: o corpo, a identidade e as formas do desejo. Polesso nasceu em Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul, em 1981, é doutora em Teoria da Literatura e publicou contos, romances e textos híbridos. Sua obra foi traduzida em vários países, entre eles Espanha, Argentina, Reino Unido e Estados Unidos. Seu livro de contos Amora (Não Editora), publicado em 2015, ganhou o Prêmio Jabuti (2016) e o Prêmio Açorianos (2016) e se tornou rapidamente um título de referência para pensar a representação das relações entre mulheres na literatura brasileira recente.
Amora é importante não apenas pelo que conta, mas por como conta. São trinta e três relatos que percorrem idades, corpos e experiências distintas, da infância à velhice, colocando em primeiro plano afetos, vínculos, incertezas e descobertas.
O interessante é que Polesso não transforma o desejo entre mulheres em uma “exceção” literária nem em um tema meramente reivindicativo: ela o insere na vida cotidiana, na fragilidade e na imperfeição do real. É uma literatura que não precisa gritar para ser política. Basta mostrar como se constrói uma vida quando o mundo nem sempre oferece modelos nos quais se reconhecer.
Depois de Amora, Polesso publicou Controle (Cia. das Letras, 2019), seu primeiro romance. Aqui volta a aparecer o corpo, mas já não tanto como território do desejo, e sim como espaço de fragilidade, vigilância e medo. A protagonista, Nanda, é epiléptica; descobriu seu transtorno na infância e desde então vive cercada de cuidados e restrições, superprotegida pelos pais e com dificuldades para sair ao mundo. É um livro sobre amizade e amor entre duas mulheres, sim, mas também sobre o controle do corpo, sobre como a doença modifica a percepção de si mesma e a relação com os outros. Controle foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura e recebeu também os prêmios AGES e Minuano, consolidando Polesso como uma das vozes mais consistentes de sua geração.
Micheliny Verunschk: quando o passado ganha vida

Da intimidade passamos à memória histórica com Micheliny Verunschk, autora nascida em Pernambuco, formada em literatura e semiótica, que começou publicando poesia e vem construindo uma obra cada vez mais reconhecida dentro da narrativa brasileira. Viveu boa parte de sua infância no sertão pernambucano, começou a escrever versos ainda menina e construiu uma trajetória que une poesia, romance e investigação histórica. Em 2015 ganhou o Prêmio São Paulo de Literatura com Nossa Teresa — vida e morte de uma santa suicida (Editora Patuá, 2014) e, em 2022, recebeu o Prêmio Jabuti de romance com O som do rugido da onça (Cia. das Letras, 2021).
O som do rugido da onça parte de um fato histórico real: o sequestro, no século XIX, de duas crianças indígenas —a menina Izabella Miranha e o menino Juri— por cientistas alemães, Spix e Martius, que as levaram para Munique e as exibiram como se fossem objetos de museu.
A partir desse fato, Verunschk constrói um romance que não se limita a denunciar o crime colonial, mas busca devolver voz, complexidade e densidade simbólica àquilo que a história oficial transformou em nota de rodapé. Em O som do rugido da onça, o rugido não é apenas o de um animal, mas o do passado que insiste em falar. E aí a autora consegue algo muito difícil: fazer literatura histórica sem cair na reconstrução acadêmica nem no romance de tese. O que ela propõe é outra coisa: uma escrita de grande potência poética que confronta o leitor com os crimes da colonização e com a persistência contemporânea da violência contra os povos originários.
Mariana Salomão Carrara: a voz dos que vivem à margem

E se Verunschk trabalha a memória em uma dimensão quase mítica e ancestral, Mariana Salomão Carrara o faz a partir de uma proximidade mais doméstica, mais cotidiana, mas não menos perturbadora. Carrara nasceu em São Paulo, em 1986, é defensora pública além de escritora, e essa dupla formação —jurídica e literária— se reflete na tensão ética de seus livros.
Em Se deus me chamar não vou (Nós, 2019), Carrara escolhe uma narradora de onze anos, Maria Carmem. Essa decisão já diz muito sobre sua escrita: interessa-lhe olhar desde lugares deslocados, desde vozes aparentemente pequenas, e permitir que seja essa voz que ilumine um mundo inteiro. Maria Carmem é aprendiz de escritora e vive entre os objetos de uma loja de antiguidades, mostrando que pode haver uma criança mais solitária que um idoso.
O livro mistura humor, sensibilidade e dureza, e transforma a infância em uma zona de observação implacável, onde as perguntas pesam tanto quanto os objetos antigos que cercam a protagonista. Não é um romance infantil nem um romance de formação convencional; é, antes, uma exploração da solidão, da imaginação e dessa lucidez precoce com que algumas crianças observam o mundo dos adultos.
Seu outro romance-chave, É sempre a hora da nossa morte amém (Nós, 2021), muda de registro sem abandonar essa atenção à fragilidade. Aqui a protagonista é Aurora, uma mulher idosa encontrada à beira de uma estrada, descalça e sem memória. No abrigo onde é acolhida, e sobretudo através de sua relação com Rosa, vai emergindo um relato feito de esquecimento, morte, maternidade, afetos e versões parciais do passado. Trata-se de um romance sobre a finitude e sobre a capacidade de contar histórias como forma de resistir ao vazio.
Em Carrara não encontramos grandes proclamações, mas uma consciência constante das desigualdades, do abandono e das vidas vulneráveis. É uma literatura muito atenta àqueles que permanecem nas margens da grande história: crianças, idosos, mulheres, pessoas que vivem à beira de algo.
Ana Paula Maia: a dignidade do escombro

Se Mariana Salomão Carrara trabalha a vulnerabilidade com delicadeza, Ana Paula Maia a enfrenta com absoluta dureza. Nascida em Nova Iguaçu, em 1977, é escritora, roteirista e musicista. Começou a publicar no início dos anos 2000 e rapidamente se tornou reconhecida por um universo literário marcado pela violência, pela sujeira, por ofícios extremos e por personagens marginalizados. A crítica costuma destacar nela a influência do pulp, do western, do cinema de Tarantino e Leone, além de sua prosa seca, sem ornamentos, na qual até o mais brutal é narrado com uma frieza quase cirúrgica. Ganhou dois anos consecutivos o Prêmio São Paulo de Literatura, em 2018 por Assim na Terra como embaixo da Terra (Record, 2017) e em 2019 por Enterre seus mortos (Cia. das Letras, 2018).
Enterre seus mortos acompanha dois homens que se dedicam a retirar animais mortos das estradas. Só essa premissa já revela muito do território literário de Ana Paula Maia: interessam-lhe os ofícios invisíveis, aquilo que a sociedade prefere não ver.
Na tentativa de devolver esses cadáveres ao “curso da normalidade”, esses trabalhadores se deparam com destinos humanos tão degradados quanto aquilo que recolhem. É um romance sobre a contaminação moral do mundo, sobre a indiferença e sobre a degradação do humano. Mas também, paradoxalmente, sobre a dignidade possível nas margens. O Brasil que seus livros mostram não é apenas desigual; é também um país atravessado por formas de descarte, por vidas consideradas dispensáveis. Que essa escrita esteja conquistando leitores fora do país não é casual: o que ela narra é local, mas a escuridão moral que revela é universal.
Jarid Arraes: uma perspectiva negra e feminista para entender o mundo

Chegamos a Jarid Arraes, que representa outra linha fundamental da literatura brasileira contemporânea: a recuperação histórica a partir de uma perspectiva negra, feminista e popular. Jarid nasceu em 1991, em Juazeiro do Norte, no Cariri cearense, e vem de uma família ligada ao cordel e à xilogravura. É escritora, cordelista e poeta, vive em São Paulo e publicou dezenas de títulos, além de criar o Clube da Escrita Para Mulheres. Entre suas obras mais conhecidas estão Heroínas negras brasileiras em 15 cordéis (Seguinte, 2020), Redemoinho em dia quente (Alfaguara, 2019), Corpo desfeito (Alfaguara, 2022) e Um buraco com meu nome (Alfaguara, 2021).
O mais potente em Heroínas negras brasileiras em 15 cordéis é seu gesto fundamental: tomar quinze figuras femininas negras apagadas ou minimizadas pela historiografia dominante e devolvê-las ao espaço público por meio do cordel. Não se trata apenas de uma operação pedagógica nem apenas de uma recuperação documental. Trata-se também de uma tomada de posição estética.
Jarid Arraes decide que essas vidas merecem circular em versos, em uma forma popular nordestina historicamente ligada à oralidade e à transmissão comunitária. O livro resgata histórias que a história oficial deixou na sombra e, ao fazê-lo, reorganiza a memória nacional a partir de outro lugar. Esse é um dos grandes movimentos da literatura brasileira contemporânea: não apenas contar novas histórias, mas discutir quais histórias foram consideradas dignas de ser contadas.
Clara Madrigano: a reescrita dos imaginários

E chegamos finalmente a Clara Madrigano, talvez o nome menos conhecido para o grande público, mas nem por isso menos interessante. Clara Madrigano não é, ao menos por enquanto, uma romancista amplamente consolidada em grandes editoras brasileiras, mas uma autora de ficção especulativa e de terror que atua sobretudo no campo do conto, das revistas especializadas e dos projetos independentes. Longe de ser um problema, isso a torna uma figura muito representativa de outra zona do campo literário contemporâneo: a daqueles que escrevem entre o independente e o internacional, entre o português e o inglês, entre o Brasil e os circuitos globais da literatura de gênero.
Em seu site, é possível encontrar vários de seus contos publicados ao longo dos anos, entre eles As Boas Damas, Boneca, Dodge, There, in the Woods, Little Doors, The Screaming Tree ou Into the River.
Estamos diante de uma autora que trabalha o conto como um laboratório de imaginação inquietante, com registros que vão do gótico ao fantástico, do terror psicológico à ficção científica. Por exemplo, Boneca é um conto de mistério, suspense e ficção científica sobre uma jovem chamada Ari que desperta em cativeiro e acaba descobrindo algo perturbador sobre si mesma e sobre o mundo do qual queria escapar. Também se leu As Boas Damas como uma aventura em chave sherlockiana e fantástica, onde a intriga se desloca progressivamente para territórios cada vez mais estranhos. Se Jarid Arraes resgata heroínas negras reais, Clara Madrigano trabalha com fantasmas, duplos, o inquietante e o monstruoso para mostrar que também o presente precisa de outras ficções.
Resumindo: a literatura brasileira escrita por mulheres hoje não é uma tendência única nem um bloco homogêneo. É um arquipélago de formas, temas e linguagens. E é justamente por isso que resulta tão estimulante. Porque nela cabem o cordel e a distopia, o romance íntimo e o conto de terror, a memória dos povos originários e a crítica do Brasil urbano e desigual. Não há uma única nova voz feminina no Brasil: há muitas. E todas estão nos obrigando a ler melhor.