Nesta edição do BMQS, entrevistamos Paula Higa, artista interdisciplinar, coreógrafa, diretora de cinema e professora da University of Vermont (Estados Unidos). Durante sua estada como professora visitante no Centro de Estudios Brasileños da Universidad de Salamanca, apresentou o documentário The migrant body no Palacio de Maldonado.
O filme, um projeto colaborativo que reúne dança, música, cinema e poesia, convida o público a repensar a migração, o corpo, o movimento e a identidade por meio de linguagens artísticas sensíveis e potentes.
Na entrevista, Paula nos revela os bastidores desse documentário que foge dos caminhos convencionais para tocar diretamente o coração do espectador.
"The migrant body", ou a importância de fazer as perguntas certas

Lançado em 2021, o documentário The migrant body explora a relação entre o corpo e a narrativa, convidando o público a refletir sobre as políticas do movimento e as diversas razões que levam ao deslocamento humano.
Inspirado na mudança de Paula Higa para os Estados Unidos com sua família em 2004, o filme investiga as complexidades da mobilidade humana e o que realmente significa ser migrante.
Durante a entrevista, a própria Paula explica como surgiu a ideia do documentário, a partir tanto de sua experiência pessoal quanto de um questionamento fundamental:
Eu lembro de estar numa reunião [na Universidade de Vermont] e eu estava sentada no fundo da sala e todos os professores conversavam. Aí, quando eu falei, todos olharam pra mim na mesma hora. E eu percebi que era por causa do meu sotaque, né? Do meu acento, né? E aquela energia veio de uma forma que eu, uou! Eu fiz assim, o que que é isso? Então, eu comecei a perceber, eu falei, nossa, tudo isso tá acontecendo porque eu sou diferente, né? E aí eu comecei a fazer essa investigação do que é ser um imigrante. Então, como artista, você tem que partir de perguntas críticas. E para mim foi essa. O que é ser um imigrante? E depois logo veio a pergunta, quem não é um imigrante? E aí foi como o filme surgiu.
Paula Higa
O documentário aborda o tema da migração a partir de uma perspectiva artística, na qual a dança ocupa um papel central. Longe de ser um recurso leve, esse enfoque está carregado de crítica e reflexão. Nas palavras da própria Paula:
Para mim, a dança é ativismo, é uma ação política. Então, eu procurei mostrar isso não de uma maneira que fosse muito agressiva, porque eu acho que existe uma tendência, principalmente na dança contemporânea, de querer chocar, de querer perturbar o público (...) Mas, eu também acho que a gente pode entregar a mensagem de uma maneira sutil, mas com muito peso, sabe? Com muito efeito, com muito pensamento crítico ali dentro.
Paula Higa
De portas e nascimentos
Durante a entrevista, Paula Higa afirma que todos somos imigrantes desde o próprio momento do nascimento, quando deixamos o confortável útero materno (às vezes à força!) e passamos de respirar água a encher os pulmões de ar. Essa ideia aparece belamente representada no filme em uma cena em que três bailarinas se movem sobre a areia da praia “como se fossem uma célula”. Seus movimentos evoluem até que, finalmente, a harmonia se rompe. Isso, segundo Paula, é o nascimento: nossa primeira ruptura com o conhecido, nossa primeira viagem.
The migrant body está repleto de metáforas. Sem dúvida, a mais evidente é a das portas. Ao longo do documentário, os bailarinos atravessam portas, campos e espaços interiores silenciosos, enquanto um narrador recita um poema sobre o crisântemo amarelo — uma flor que sonha em partir e descobrir outros lugares. A cada porta que se abre, surge um novo território, e o tempo parece recomeçar.
Ao ser questionada sobre essa imagem em particular, Paula explica:
A questão da porta... Foi de uma certa maneira literal, lógico, porque todo mundo sabe que a porta é uma passagem, né? Mas aonde eu coloquei as portas, eu acho que também traz essa visão artística, né? Então, eu coloquei ela na água, porque muitos imigrantes vieram para outros, foram para outros países através dos oceanos, né? Eu coloquei ela... A porta também tem uma cena que dá pra ver que ela está... A ideia de estar no ar, né? No céu, que eu também penso nessa questão de um avião, de transporte, né? E coloquei também ali na parte da areia. Então, o que é a porta pra mim é essa simbologia da transição. Eu acho que, de novo, pensando na ideia de migração, de mudar de um ambiente pro outro, nós estamos sempre fazendo isso.
Paula Higa
Para finalizar, falamos também sobre a poesia, elemento que acompanha todo o filme. Paula convidou seu marido, o professor Mario Higa, que leciona literatura no Middlebury College, a compor “El crisantemo amarillo” especialmente para o documentário. O poema oferece outra bela metáfora e múltiplas possibilidades de interpretação:
O crisântemo tá ali, preso, vendo tudo passar, mas não consegue [se mover], sabe? Não consegue sair daquela raiz. Então, essa imagem da flor, eu acho assim até um pouco triste, né? Porque esse desejo de querer aprender, de querer conhecer, e não pode, porque tá preso ali. E quando o Mário escreveu esse poema, ele escreve pensando assim como o movimento que a flor vê. Então, seria uma ação mais de fora pra dentro. E eu interpretei o poema dele como de dentro pra fora. essa questão de que, pô, eu não posso sair daqui, né?
Pauala Higa
Para saber mais

Paula Higa é diretora artística, coreógrafa e bailarina, além de professora associada de Dança na University of Vermont, nos Estados Unidos. Possui mestrado em Belas Artes (MFA), com especialização em Dança, pela University of Wisconsin–Milwaukee (Estados Unidos), e graduação em Engenharia Química no Brasil.
Seu trabalho tem sido amplamente reconhecido e premiado na Europa, na América do Norte e na América do Sul, além de contar com apoio financeiro de instituições culturais como NEFA, BCA – Burlington City Arts e a Vermont Community Foundation, entre outras.
No biênio 2025–2026, foi convidada como professora visitante no Centro de Estudios Brasileños da Universidad de Salamanca, na Espanha.
Música no programa
BioBrasil é uma coluna do programa Brasil es mucho más que samba dedicada a divulgar a biografia de expertos, profissionais e personagens (históricos e atuais) da vida cultural, política e social brasileira. Brasil es mucho más que samba se emite todas às terças-feiras, às 17h30, em Rádio USAL. Para sugerir uma pauta ou contatar com a equipe do programa, escreva ao masquesamba@usal.es.