Despedimos a temporada 2023-2024 em rádio Universidad de Salamanca com uma entrega dedicada a Rosinha de Valença.
Rosinha de Valença coloca sua voz na música tema desta coluna, “O samba da minha terra”, composição de Dorival Caymmi, de 1957. Rosinha de Valença foi uma violonista brasileira descoberta pelo jornalista Sergio Porto, mais conhecido como Stanislaw Ponte Preta.
Em 10 de junho, cumpriram 20 anos do falecimento de uma das mais importantes violonistas brasileiras, uma mulher que nos anos 1960, abriu caminho num sendeiro de violonistas homens. Mas, apesar de ser uma grande artista, Rosinha de Valença continua sendo uma ilustre desconhecida pelo grande público.
Rosinha de Valença
Maria Rosa Canellas, Rosinha de Valença, nasceu em 30 de julho de 1941, em Valença, uma cidade do interior do estado do Rio de Janeiro. Em 1963, contando 22 anos, abandonou os estudos e se mudou para a cidade do Rio. Rosinha de Valença começou a tocar na noite carioca, e em pouco tempo na cidade, já acompanhava nomes como Baden Powell, Nara Leão, Quarteto em Cy e Maria Bethânia, atuando com ela no show “Comigo me desavim”, de 1967.
Entre 1968 e 1971, Rosinha de Valença participou de muitas atuações nos Estados Unidos, Canadá, na Europa e em outros países. Foram esses anos de “exportação” de uma expressão muito determinada da cultura brasileira para os Estados Unidos, especialmente. De certa forma, a Bossa nova — em termos sonoros — casava bem com o movimento de jazz, blues e música pop internacional.
Rosinha de Valença lançou seu primeiro disco, Apresentando, em 1964, trabalho que reúne dez canções, composições de nomes como Tom Jobim e Vinícius de Moraes, interpretadas por ela. Nesse disco está um clássico da Bossa nova, a música “Ela é carioca”, uma composição de Tom Jobim, de 1963.
A partir de 1971, já de volta ao Brasil, Rosinha de Valença começa uma parceria com Martinho da Vila, que duraria oito anos. Ao longo desses anos, atuou também como produtora e diretora musical de Wanderléa, Ney Matogrosso, Leci Brandão, e os tropicalistas Caetano, Bethânia e Gal, entre outros. Esses anos estão marcados por um esforço em valorizar gêneros e estilos tradicionais da música brasileira. E, principalmente, a sua trajetória marca a entrada das mulheres num mundo e num contexto totalmente masculino, e que não se valorizava devidamente a atuação das mulheres nas áreas de composição e de instrumental, como aconteceu com tantas outras, como Chiquinha Gonzaga, Dona Ivone Lara, que tiveram que abrir caminho para que outras mulheres pudessem segui-las.
Alguns críticos da música brasileira, consideram que este poderia ser o motivo de que somente o disco Cheiro de mato, de 1976, pudesse ser chamado de autoral, onde Rosinha de Valença é responsável por boa parte das composições reunidas no álbum.
Em outubro de 2023, o jornal brasileiro Estadão, publicava a notícia de que a lista “Os 250 melhores guitarristas de todos os tempos”, um ranking da revista The Rolling Stones, incluía dois brasileiros entre seus nomes agraciados: João Gilberto, considerado o papa da bossa, e Rosinha de Valença. Apesar desse reconhecimento como uma grande violonista, de fato, Rosinha de Valença ainda não recebeu a devida atenção por parte da academia: há muito poucos estudos a vida e a obra da artista. Recomenda-se a leitura do artigo “Considerações sobre cantoras violonistas da música popular brasileira”, de autoria de Ana Lis de Nóbrega Marum e Regina Machado, publicado no encontro da Associação Nacional de Pesquisa e pós-graduação em Música, a ANPPOM, de 2022, que trata da pouca visibilidade que as mulheres, artistas brasileiras, tiveram durante boa parte do século XX.
Rosinha de Valença faleceu em 10 de junho de 2004, depois de 12 anos em coma, vítima de uma paralisia cerebral. Nesse mesmo ano, Maria Bethânia e Miúcha produzem o disco Namorando a Rosa, um trabalho em homenagem à artista.
Referências:
Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira. “Rosinha de Valença“.
Nobrega Marum, A. L., & Marchado, R. (2022). Considerações sobre cantoras violonistas da música popular brasileira . XXXII Congresso ANPPOM. Recuperado de https://anppom.org.br/anais/anaiscongresso_anppom_2022/papers/1200/public/1200-5541-1-PB.pdf, em 5 de junho de 2024.
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Rosinha de Valença. In Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira. São Paulo: Itaú Cultural, 2024. Disponível em: http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa208954/rosinha-de-valenca. Acesso em 26 de julho de 2024. Verbete da Enciclopédia. ISBN: 978-85-7979-060-7
O samba da minha terra é uma coluna dedicada ao samba do programa Brasil es mucho más que samba, emitido todas às terças-feiras, às 17h30, em Rádio USAL. Para sugerir uma pauta ou contatar com a equipe do programa, escreva ao masquesamba@usal.es