Brasil con Ñ: Andreia Martins Torres

Neste podcast, Sara Arancón entrevista Andreia Martins Torres, professora de Antropologia da USAL.

Neste programa do BMQS, conversamos com a arqueóloga e antropóloga Andreia Martins Torres sobre um projeto desenvolvido nas aldeias de Buridina e Bdè-Burè, em Aruanã, no estado de Goiás (Brasil). O projeto tem como objetivo compreender a relação das comunidades Iny/Karajá com o rio Araguaia e colaborar com elas para valorizar seu patrimônio material e imaterial.

O projeto: “Rio Araguaia: lugar de memórias e identidades”

Ao mudar-se para a cidade de Goiânia, Andreia Martins Torres começou a colaborar com o Museu de Antropologia da Universidade Federal de Goiás. Foi então que surgiu a ideia de um projeto para conhecer os vestígios materiais da comunidade Iny/Karajá, de especial importância para a legitimação de seu assentamento e da posse ancestral de suas terras.

Assim, a questão central sobre a qual se trabalhou foi a relação da comunidade com a terra, mais concretamente com o elemento central e estruturador que é o rio Araguaia. Por isso, o projeto acabou recebendo o nome Rio Araguaia: lugar de memórias e identidades.

Os Iny/Karajá e seu rio

O rio Araguaia é central em diversos aspectos. Por um lado, é fundamental para sua subsistência econômica. Por outro, tem grande importância identitária e simbólica, pois, segundo seu relato de origem, é dali que surge o povo Iny. Os Iny viviam em uma aldeia no fundo do rio até que um jovem curioso encontrou uma passagem e saiu à superfície. Encantado com as praias e as riquezas das margens do rio, avisou outros Iny, e todos subiram à superfície. Mais tarde, descobriram também a morte e as doenças, mas já era tarde para voltar: a passagem havia se fechado e estava guardada por uma grande cobra, por ordem do chefe do povo das águas, Koboi. Assim, acabaram se distribuindo por todo o curso do rio.

Historicamente, foram ocupando suas margens, criando novos povoados e abandonando outros conforme as unidades familiares crescem. Além disso, as comunidades se deslocam periodicamente conforme a subida do rio, ocupando assentamentos temporários nas margens e depois retornando à aldeia original.

Por tudo isso, o rio representa um eixo estruturador da comunidade e um elemento central de sua identidade e memória.

Arqueologia subaquática

Uma das iniciativas foi a criação de um curso de arqueologia subaquática voltado a arqueólogos e profissionais do setor turístico, que também contou com vagas reservadas para pessoas indígenas. O uso da arqueologia subaquática neste projeto é, em certa medida, inovador, pois no Brasil essa prática vinha sendo desenvolvida principalmente em cidades costeiras, sendo pouco aplicada em outros contextos aquáticos, como rios e barragens.

Metodologia colaborativa

Uma das questões mais relevantes do projeto é sua metodologia e a forma como a comunidade Iny foi envolvida. Andreia explica que, embora o desenho inicial do projeto tenha sido elaborado sem a participação da comunidade por falta de tempo, uma vez aprovado, as propostas foram apresentadas nas duas aldeias e o projeto foi redesenhado com base nas demandas da própria comunidade.

A flexibilidade foi fundamental. Ao longo do projeto, surgiram diversas iniciativas propostas pela comunidade Iny que não estavam previstas. Por exemplo: um ateliê de cerâmica utilitária para recuperar uma prática que estava sendo substituída por outras mais voltadas ao turismo; um trabalho de inventário e limpeza para melhor conservação das peças no museu de Buridina; e a criação de um mapa de lugares de memória no rio para atender à demanda por um museu em Bdè-Burè. Como resultado dessa última iniciativa, foi montada uma exposição desenhada pela própria comunidade.

Dentro desse processo, foi muito importante valorizar a língua nativa Iny, o Iny rybe, tanto na exposição quanto no projeto como um todo. Como destaca Andreia:

Quando alguém fala um idioma que não é o seu, utiliza um vocabulário mais simples, o que dá a impressão de que fala como uma criança, e não queríamos reforçar esse tipo de estereótipo em relação às comunidades indígenas.

Ela também ressalta outro aspecto essencial: nas fases iniciais, perguntou-se quem desejava colaborar como pesquisador, e aqueles que participaram mais diretamente receberam bolsas.

Estamos acostumados a ir a campo, a utilizar o tempo e a boa vontade das pessoas, enquanto nós temos financiamento e despesas pagas. Esquecemos que o tempo que nos oferecem também tem valor, assim como o nosso trabalho.

Museu comunitário: quem faz o museu é a comunidade

A concepção de museu e de patrimônio da comunidade Iny é muito diferente da nossa. São museus comunitários porque são criados e geridos pela própria comunidade. Além disso, as coleções são dinâmicas: objetos podem ser vendidos, doados, deslocados.

A concepção de museu no caso do povo Iny não se encaixa de forma alguma na nossa concepção de museu como entidade de preservação do patrimônio. […] Existe a percepção de que aquilo que está no museu não pode ser desfeito. Não se pode doar algo que está no museu, porque é visto como um patrimônio acumulado.

Esses trabalhos em museus que partem de noções muito diferentes das nossas podem nos levar a refletir sobre nossos próprios museus. Não apenas sobre como as coleções foram adquiridas e expostas e as narrativas que se constroem, mas também sobre que tipo de lugar são os museus.

Dentro das próprias estruturas do museu reproduzem-se lógicas sobre as quais precisamos refletir. Quem ocupa os cargos de direção, quem são os conservadores e quem são as pessoas que limpam e vigiam o museu. Então, acredito que essas lógicas do museu comunitário, onde uma pessoa da comunidade participa independentemente do estatuto que possui dentro da aldeia, nos fazem refletir e ir um pouco além quando olhamos para o que é nosso, porque o que consideramos nosso tem muito que, na verdade, não nos pertence.

Outra coordenadora do projeto foi a arqueóloga e museóloga brasileira Camila Wichers, que trabalha há anos com museus comunitários. Em 3 de março, ela apresentou a conferência “Fissuras na narrativa colonial: movimentos da museologia social e do patrimônio no Brasil e na América Latina” no Centro de Estudos Brasileiros, abordando a necessidade de repensar os museus a partir da participação social.

Trata-se de refletir sobre a participação que temos em nossos museus, em que medida decidimos o que expor e o que nos representa, especialmente nos museus nacionais, que continuam sendo percebidos com um estatuto diferente e possuem dinâmicas mais difíceis de mudar.

Andreia Martins Torres segue trabalhando na descolonização dos museus, com um projeto sobre as coleções Iny/Karajá em museus espanhóis.

A entrevistada

Andreia Martins Torres é doutora em História e Arqueologia, na área de Antropologia da América, pela Universidade Complutense de Madrid, com a tese Lo que cuenta un abalorio: reflejos de unas cuentas de vidrio en la Nueva España. Atualmente é professora de Antropologia na USAL e investigadora integrada do Instituto de História da Arte da Universidade Nova de Lisboa. Suas pesquisas exploram principalmente as práticas, significados, identidades e conhecimentos que se formam em torno de objetos cotidianos. Atualmente, continua investigando reflexões decoloniais sobre coleções de museus espanhóis.

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