A música não é um simples acompanhamento no cinema. Às vezes é atmosfera. Outras, é memória. E, em muitas ocasiões, é uma forma de resistência. No filme brasileiro O agente secreto, dirigido por Kleber Mendonça Filho e lançado em maio de 2025 no Festival de Cannes, a trilha sonora cumpre exatamente essa função: constrói identidade, contexto histórico e emoção.
No último programa do #BMQS, dedicamos uma edição especial a percorrer as músicas brasileiras que fazem parte deste filme, atualmente em cartaz na Espanha. Uma viagem sonora que nos leva a 1977, ano em que se passa a história do protagonista, Marcelo —interpretado por Wagner Moura—, um especialista em tecnologia que retorna ao Recife fugindo de um passado misterioso, apenas para descobrir que a cidade está longe de ser o refúgio que imaginava.
Brega: dignidade ferida e emoção popular
O percurso começa com um clássico do brega brasileiro: “Eu não sou cachorro não”, de Waldick Soriano, incluída em seu álbum Ele também precisa de carinho (1972). Durante muito tempo considerado um gênero menor, o brega perdeu há décadas seu sentido pejorativo e se consolidou como uma expressão legítima do romantismo popular urbano.
No filme, essa canção não aparece como simples decoração. Sua presença evoca orgulho ferido, vulnerabilidade e resistência emocional. É música de rua, direta, sem filtros. E justamente por isso dialoga com a tensão íntima do personagem principal.
Psicodelia nordestina: o universo de Paêbirú
A trilha sonora também incorpora a força experimental do Nordeste brasileiro com trechos do álbum Paêbirú (1975), colaboração entre Lula Côrtes e Zé Ramalho, obra emblemática da psicodelia nordestina.
Canções como “Harpa dos Ares” acrescentam uma dimensão quase ritual ao filme. São sons que respiram mistério, terra, ar e misticismo. Na tela, funcionam como estados de espírito, como pausas hipnóticas que expandem a narrativa para além da ação visível.
Frevo: identidade e vertigem
Um dos aspectos mais interessantes da trilha sonora é a insistência no frevo como marca cultural. A inclusão de “Esquenta Mulher”, composição de Nelson Ferreira (1950), conecta diretamente com a tradição musical pernambucana.
Nelson Ferreira (1902–1976) foi um dos pilares do frevo e uma figura fundamental da música popular brasileira. Sua obra representa a energia da rua, o movimento, a celebração e também a afirmação cultural do Nordeste.
No filme, o frevo não é apenas ritmo: é identidade. É o Recife pulsando na tela.
Ângela Maria: a voz do tempo
Outro momento de destaque do programa é a escuta de “Não Há Mais Tempo”, gravada por Ângela Maria em 1964. A canção, composta por Fernando Cesar Pereira e João Adelino Leal Britto, parece dialogar com o próprio contexto histórico evocado pelo filme: um Brasil marcado pela ditadura militar.
A voz de Ângela Maria —uma das grandes intérpretes da música brasileira do século XX— acrescenta uma dimensão emocional profunda. No cinema, esse tipo de canção diz o que os personagens não conseguem expressar abertamente.
Pífanos e tradição popular
O percurso musical se encerra com “A briga do cachorro com a onça”, interpretada pela Banda de Pífanos de Caruaru e composta por Sebastião Biano, gravada em 1972. Aqui emerge o Brasil profundo, rural e festivo.
Os pífanos e a percussão não são apenas instrumentos: são tradição oral, são comunidade, são herança cultural. No filme, esse som introduz uma textura que conecta o relato político com a cultura popular.
Ouvir o cinema
A proposta deste programa foi simples: ouvir o filme a partir da música. Compreender como cada canção —do brega ao frevo, da psicodelia à tradição popular— constrói camadas de sentido.
O agente secreto não apenas conta uma história ambientada em 1977. Também ativa uma memória sonora que atravessa décadas da música brasileira. E nesse diálogo entre imagem e canção, o espectador encontra chaves emocionais que ampliam a experiência cinematográfica.
Porque o Brasil é muito mais que samba… e muito mais que uma trilha sonora.