Na quarta-feira, 3 de dezembro, às 12h, o CEB inaugura a exposição “Favela vista de cima: a materialidade dos contrastes“, do jornalista e fotógrafo brasileiro Genilson Araújo. A mostra integra o programa de Residência Artística de Fotografia, que em 2025 celebra o seu décimo aniversário, e reúne 28 fotografias aéreas realizadas ao longo de anos de voo sobre a região metropolitana do Rio de Janeiro.
A exposição poderá ser visitada no Palácio de Maldonado (Praça de San Benito, 1, Salamanca), sede do CEB, de 2 de dezembro de 2025 a 30 de janeiro de 2026, de segunda a sexta-feira, das 9h às 14h. A entrada é gratuita.
Sobre a exposição
«O Rio de Janeiro continua lindo», canta Gilberto Gil em uma de suas canções mais emblemáticas. No entanto, por detrás da imagem de cartão-postal — as praias, o Cristo Redentor, o Pão de Açúcar — esconde-se uma cidade marcada por profundas desigualdades sociais e por uma grave precariedade habitacional. É nessa tensão entre beleza e contraste que se insere “Favela vista de cima: a materialidade dos contrastes”.
A partir de um helicóptero, no contexto de seu trabalho como repórter aéreo, Genilson Araújo sobrevoa há anos a região metropolitana do Rio de Janeiro, onde vivem cerca de 12 milhões de pessoas. Seu olhar “sempre foi o de um jornalista”, como ele próprio afirma, mas a câmera fotográfica lhe permite construir um arquivo visual que vai além da notícia do dia. Não há dois voos iguais: as mudanças de luz, o clima, o trânsito e o ritmo da cidade transformam cada trajeto em uma nova oportunidade de observação.
Entre tudo o que vê do alto, há um elemento que chama poderosamente sua atenção: as favelas. Comunidades densamente povoadas, quase 800 apenas na capital, que se estendem pelas encostas, pelos vales e pelas margens da cidade formal. Segundo o Censo de 2022 do IBGE, mais de 16 milhões de brasileiros vivem em favelas e comunidades urbanas, o que representa aproximadamente 8% da população do país. Nesse contexto, o Rio de Janeiro abriga aquela que é considerada a maior favela do Brasil, a Rocinha, com mais de 72 mil habitantes.
As imagens da exposição mostram essa realidade a partir de uma perspectiva singular: a altura. As favelas aparecem como uma espécie de “arquitetura caótica” que dialoga, por vezes de forma tensa, com a cidade planejada. Os telhados se amontoam uns sobre os outros, as moradias avançam sobre áreas verdes, antigos galpões industriais se transformam em abrigo e edifícios modernos se erguem ao lado de construções irregulares. O resultado é uma cartografia visual em que a materialidade dos contrastes se torna visível: entre o improvisado e o planejado, entre o formal e o informal, entre a abundância e a falta.
Longe do sensacionalismo ou do exotismo, Araújo propõe um olhar crítico e, ao mesmo tempo, profundamente humano. Suas fotografias “mostram, do alto, o lar de milhões de brasileiros” e nos lembram que, dentro de cada construção precária, existem famílias, sonhos, afetos. Em vez de responsabilizar os moradores pela ocupação das encostas ou pelos problemas ambientais, o projeto reforça que eles são, na verdade, as principais vítimas da ausência de políticas públicas de habitação.
“Favela vista de cima: a materialidade dos contrastes” convida o público a refletir sobre o significado do direito à moradia em uma cidade profundamente desigual, assim como o lugar que a favela ocupa na narrativa urbana do Brasil contemporâneo. Mais do que oferecer respostas fechadas, a exposição propõe um exercício de olhar ético: ver, desde o ar, não apenas o traçado dos telhados, mas as vidas que eles abrigam.
Conheça o fotógrafo

Genilson Araújo é jornalista e fotógrafo brasileiro, nascido no Rio de Janeiro, com mais de três décadas de trajetória nos meios de comunicação. Iniciou sua carreira no rádio e, mais tarde, consolidou-se no telejornalismo, onde se especializou na cobertura de mobilidade urbana, segurança pública e desastres naturais. Paralelamente, formou-se como fotógrafo, combinando desde muito cedo a prática jornalística com uma forte sensibilidade visual.
O grande ponto de inflexão em sua carreira chegou com o trabalho como repórter aéreo. A bordo de um helicóptero, acompanha diariamente a dinâmica da metrópole: engarrafamentos, fenômenos climáticos extremos, situações de emergência e também a beleza dos morros com o mar azul a seus pés. Nesse contexto, passou a fotografar a cidade de maneira sistemática, construindo um arquivo de mais de 10 mil imagens feitas em pleno voo.
Entre tudo o que observa, as favelas são o que mais o impacta: comunidades onde centenas de milhares de pessoas vivem, desde o século XIX, com desafios humanos, sociais, habitacionais, econômicos e ambientais que continuam sem solução. A partir desse material, Genilson desenvolveu projetos fotográficos que combinam rigor informativo e profundidade estética.
Em “Favela vista de cima: a materialidade dos contrastes”, ele compartilha “uma parte do Rio de Janeiro que muita gente não vê”: um Rio que clama por mais atenção e que, visto de cima, revela não apenas a sua paisagem, mas as vidas que a sustentam.
Para conhecer mais sobre o fotógrafo, visite suas redes sociais e escute o podcast da entrevista concedida ao programa #BMQS.