BMQS entrevista Alekson Lacerda

Jornalista brasileiro, autor da mostra fotográfica “Kuarup”, fala sobre a experiência com os Mehinako, do Xingu.

Alekson Lacerda chega da Irlanda a Salamanca para participar da inauguração da exposição fotográfica “Kuarup na aldeia Yapiuku – Etnia Mehinako”, de sua autoria. O projeto é uma das propostas selecionadas na edição 2024 do programa de Residência Artística de Fotografia do CEB. A exposição é o seu primeiro projeto individual, e as fotografias que fazem parte da mostra retratam a cerimônia do Kuarup.

Depois da inauguração, já no estúdio da Rádio USAL, Alekson Lacerda transborda simpatia e, ao longo da entrevista, expressa sua profunda admiração pelo povo Mehinako. Aliás, foi a admiração que o levou a aproximar-se da fotografia. Admirava o trabalho de Sebastião Salgado, do fotógrafo indigenista Renato Soares, até que descobriu que também poderia construir suas próprias imagens, apesar de até hoje não se considerar um fotógrafo profissional.

A fotografia sempre foi parte de sua atividade profissional, em produção audiovisual construída para narrar o imediato, e depois a imagem cinematográfica. Ainda que cada uma tenha sua especificidade, a triangulação de luz, cor e profundidade é compartilhada no registro visual.

Então, a fotografia passou da apreciação à educação, e entrou em decidida ação quando Alekson Lacerda, com um bocado de outros fotógrafo, se aventura numa expedição no Xingu (Mato Grosso, Brasil), organizada pelo fotógrafo Renato Soares.

a princípio foi isso: eu tinha uma câmera um tanto quanto boa, não era tão profissional como os outros profissionais estavam indo com grandes equipamentos, grandes lentes, eu falei: ‘Vou me candidatar a isso para poder participar dessa expedição’. E foi uma experiência fenomenal.

Alekson Lacerda passou sete dias com o povo Mehinako, no Xingu. Durante esses dias, teve a oportunidade de presenciar e participar dos rituais que conformam a cerimônia do Kuarup. O Kuarup é uma cerimônia fúnebre, é o momento

mais ou menos depois de um ano, as pessoas vivem um luto daquela pessoa querida, desse ente querido. Então, mais ou menos depois de um ano eles celebram o Kuarup para se despedir, o espírito permaneceu na terra até aquele momento. E ali é a despedida de fato, quando ele vai para o mundo espiritual.

A cerimônia começa com os flautistas, artistas muito prestigiados dentro da comunidade, que vão às ocas tocando as flautas aruás. Um dos pontos mais importantes da cerimônia é a preparação dos troncos do Kuarup, que permanecem no centro da aldeia durante todos os dias da cerimônia. O centro da aldeia é um espaço de sociabilidade, e é onde acontece o huka-huka, uma luta na qual os guerreiros das diferentes etnias que comparecem ao Kuarup, se enfrentam com o objetivo de derrubar o oponente. Há também a “Grande pescaria”, ocasião em que se compartilha o alimento entre todos os presentes.

O último momento de despedida é quando os familiares e amigos das pessoas falecidas rolam o tronco até um rio ou lagoa, é nesse momento que acontece a despedida de fato.

então existe esse momento que todos eles se reúnem, e como se fosse o corpo da pessoa, e choram sobre aquele tronco, e por respeito, eu não queria ficar com uma câmera em cima (...). Eu chorei junto, (...) porque foi realmente muito triste, foi muito emocionante. Então, tem a tristeza, sim, e tem um luto, e eles saem dali depois que acaba essa cerimônia ao redor do tronco do Kuarup, eles realmente choram e ficam muito tristes. Aí você sente o peso, porque eu não senti esse peso até esse momento, enquanto eles estavam pintando o tronco, enquanto eles estavam cantando no meio da aldeia, dançando, entrando com as flautas dentro das ocas, ecoando aquilo, há muita espiritualidade em todos esses rituais, e até então eu não tinha sentido a dor da perda. Eu acho que nesse momento que eles realmente vão chorar no Kuarup, no tronco, foi quando eu percebi a força do Kuarup.

Para conhecer mais sobre o Kuarup, confere a exposição que está na sala de exposições do CEB até 7 de junho, com entrada gratuita. Para quem está fora de Salamanca, fica aqui o catálogo da exposição, que está disponível de forma gratuita. E tem mais: confere aqui a apresentação da exposição por Alekson Lacerda.

Alekson Lacerda

Alekson Lacerda é natural de Belo Horizonte (Minas Gerais, Brasil) e vive na Irlanda há 14 anos. É jornalista, ator e produtor audiovisual, com mais de uma década de experiência em diferentes mídias. Estudou Artes cênicas na Universidade Federal de Goiás (UFG, Brasil), e se formou em Comunicação social – Jornalismo pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS, Brasil). Trabalhou na área do jornalismo por mais de seis anos, e na Irlanda começou a estudar e trabalhar com cinema.

BioBrasil é uma coluna do programa Brasil es mucho más que samba dedicada a divulgar a biografia de expertos, profissionais e personagens (históricos e atuais) da vida cultural, política e social brasileira. Brasil es mucho más que samba se emite todas às terças-feiras, às 17h30, em Rádio USAL. Para sugerir uma pauta ou contatar com a equipe do programa, escreva ao masquesamba@usal.es

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