Publicação do dossiê: Estudos Sociais das Ciências no Brasil: pesquisas e abordagens

A Revista de Estudios Brasileños publicou, em seu número 21 (2023), um dossiê dedicado aos Estudo Sociais da Ciência.

O dossiê Estudos Sociais das Ciências no Brasil: pesquisas e abordagens foi organizado por Paulo Elian dos Santos (Casa de Oswaldo Cruz, Brasil), Márcia Regina Barros da Silva (USP, Brasil) e Luiz Otávio Ferreira (Casa de Oswaldo Cruz, Brasil).

Os nove artigos reunidos no dossiê, por meio de seus diversos temas e abordagens, questionam o discurso dominante que mantém separadas as ciências naturais e da tecnologia das ciências sociais. Destacam que a ciência, a tecnologia e a produção de conhecimento não operam dentro de uma (única) linha de desenvolvimento e progresso neutro, isolada das condições sociais, históricas e políticas. Ao contrário, os Estudos Sociais das Ciências (ESC) ou os Estudos de Ciência e Tecnologia (ECT) sustentam que aquilo que constitui a ciência e a tecnologia muda ao longo do tempo, assim como a realidade social. Ou seja, trata-se de um processo situado: a produção científica e tecnológica está, portanto, sujeita a relações de poder dentro de um contexto social e político específico. Como destacam os organizadores: “O objetivo é pensar ciências e tecnologias mais como expressões que serão dadas pelas suas posições históricas e por suas características, em fluxo, e que se assumem em determinado tempo e lugar” (pp. 79-80).

Dessa forma, os ESC ou ECT constituem um campo amplo e diverso de estudo, que utiliza uma grande variedade de metodologias e abordagens das Ciências Sociais para compreender o “fazer científico” situado. Dentro dessa heterogeneidade metodológica, destacam-se as abordagens historiográfica, sociológica e etnográfica. Nos nove artigos selecionados para este dossiê, observam-se essas metodologias aplicadas a diferentes temáticas no contexto brasileiro.

O artigo “Iniciando uma vida de laboratório: um estudo sobre a produção do corpo de uma cientista brasileira“, de Samuel Itxai Silva Lobo, Gabriel Menezes Viana e Francisco Ângelo Coutinho, utiliza a etnografia para analisar os momentos iniciais do aprendizado da profissão científica. Em particular, foram observados os primeiros dias de trabalho de uma cientista em formação em um laboratório de pesquisa em biologia. A partir do enfoque oferecido pela Teoria Ator-Rede (TAR) e pelos estudos de Bruno Latour, foi dada atenção aos vínculos que a pesquisadora estabeleceu tanto com outros humanos quanto com objetos e máquinas dentro do laboratório. O artigo é de especial interesse por sua aplicação do conceito de “corpo afetado”, de Latour, à análise do processo de aprendizagem científica e da formação de cientistas em laboratório. Esse conceito permite aos autores compreender de que formas o aprendizado não ocorre apenas no plano mental, mas envolve também o corpo e sua inserção em uma rede de “actantes”, humanos e não humanos. Assim, contribui para uma linha de pesquisa que “explora a articulação dos aspectos corporais com os objetos e instrumentos necessários para a produção da ciência e dos cientistas” (p. 114).

Outros artigos orientam-se mais para uma abordagem sociológica, atentando para a dimensão política da ciência, as hierarquias e as relações de poder.

O artigo “Infraestrutura de pesquisa e a dinâmica de hierarquização da ciência“, de Fabrício Monteiro Neves, reflete, precisamente, sobre os processos de hierarquização do conhecimento e a posição da ciência brasileira. O objetivo do artigo é analisar como a infraestrutura de pesquisa, entendida como “um sistema composto por objetos e relações entre tecnologias, pessoas e objetos materiais”, influencia a percepção de “atraso” ou “excelência” da produção científica e a construção de valores como “centro/periferia”. Para isso, utiliza uma metodologia qualitativa baseada em entrevistas semiestruturadas com cientistas da área de agroenergia de diversas universidades brasileiras. A partir da análise desse material empírico, o autor introduz o conceito de “arranjos precários” para designar os “arranjos infraestruturais” (equipamentos avançados) dos laboratórios que carecem de estabilidade, regularidade e permanência no Brasil, devido à “sazonalidade da política científica e tecnológica e à burocracia das instituições de pesquisa” (p. 146). Nesse sentido, a pesquisa traz reflexões relevantes sobre a percepção da relevância da produção científica e sua relação com questões materiais, políticas e burocráticas.

Analisando a estrutura da ciência brasileira em seu desenvolvimento interno, Daiane Rossi realiza uma cartografia da comunidade científica no Brasil na década de 1950 no artigo “Quem são e onde estão os(as) cientistas? A composição institucional e de gênero da comunidade científica brasileira (década de 1950)“. Nesse período, teve início a atuação da Campanha Nacional de Aperfeiçoamento do Pessoal de Nível Superior (CAPES), responsável por regulamentar e financiar o ensino superior e a pesquisa no Brasil, no contexto de uma política nacional voltada à modernização do país com base em uma ideologia desenvolvimentista. O artigo analisa a composição institucional da comunidade científica brasileira — identificando as principais instituições e sua localização, o número de pesquisadores e suas áreas de atuação — a partir dos dados da pesquisa Instituições de Pesquisa: Básica e Aplicada, publicada pela CAPES em 1957. Destaca-se, especialmente, a contribuição para os estudos sobre mulheres na ciência, ao aplicar uma perspectiva de gênero na elaboração e análise dessa cartografia: são identificadas 494 pesquisadoras (representando 15%), com detalhamento das áreas em que atuavam e das instituições às quais estavam vinculadas.

No artigo “Entre o técnico e o político: os estudos sociais da ciência e da tecnologia e o debate sobre a expertise“, Thiago da Costa Lopes, Ede Cerqueira e Simone Petraglia Kropf refletem sobre o debate da expertise no campo dos Estudos Sociais da Ciência e da Tecnologia (Science, Technology and Society/STS). Os autores destacam sua relevância tanto acadêmica quanto política para pensar o lugar da ciência e o papel dos cientistas nas sociedades democráticas e na vida pública. São analisados dois momentos centrais do debate sobre as fronteiras entre ciência e política: a teoria normativa da expertise proposta por Harry Collins e Robert Evans no início dos anos 2000 e os debates sobre a “pós-verdade”, intensificados a partir de 2016 com o crescimento da extrema direita em diferentes partes do mundo, bem como os fenômenos de negacionismo e desinformação. O objetivo dos STS sempre foi “revelar a dimensão contingente e socialmente situada do conhecimento considerado verdadeiro” (p. 97). No entanto, o artigo demonstra como o contexto contemporâneo de “pós-verdade”, marcado pela difusão de “fatos alternativos” e pela desconfiança em relação à autoridade dos especialistas e da ciência, coloca novos desafios e reflexões para esse campo de estudos.

As autoras Marcela Barba e Fernanda Rios seguem essa linha de análise dos negacionismos e dos questionamentos à autoridade científica em seu artigo “Entre a fé e a ciência: como portais gospels abordaram a vacina contra a covid-19“. Seu objetivo é estudar a atuação de portais de notícias evangélicos em relação à vacina durante a pandemia de COVID-19, com foco na propagação de desinformação. A partir da análise de 137 notícias de diferentes portais, investigaram a posição adotada: se mantiveram uma postura neutra ou favorável à vacinação ou, ao contrário, se inclinaram para uma posição antivacina e negacionista — e se essa oposição foi fundamentada em argumentos religiosos ou políticos. Como concluem as autoras, as ações analisadas “revelam como a religião se dá a ver em distintos ambientes públicos, dialogando e influenciando pessoas para além das paredes da igreja” (p. 223), ainda que não de forma homogênea. Dessa forma, o artigo aborda uma problemática de grande relevância na atualidade, como a desinformação, contribuindo para a compreensão da capacidade política das igrejas evangélicas na sociedade brasileira e do impacto que podem exercer em questões de saúde ao adotarem posturas negacionistas.

Os demais artigos adotam uma abordagem historiográfica para tratar, a partir dos Estudos Sociais das Ciências, a dimensão social das trajetórias científicas e dos circuitos de produção do conhecimento.

Isabella Bonaventura analisa a dimensão estratégica do trabalho de pesquisa científica no artigo “Como se tornar bolsista da Fundação Guggenheim? As trajetórias de José Ribeiro do Valle e Maurício O. da Rocha e Silva entre 1938 e 1947“. A partir da correspondência desses dois fisiologistas e farmacologistas ao longo de suas trajetórias profissionais, Bonaventura explora seu papel ativo e as diversas estratégias de negociação utilizadas para obter financiamento, estabelecer contato com pesquisadores estrangeiros, colaborar com outras instituições científicas — especialmente nos Estados Unidos — e alcançar reconhecimento internacional. Para essa análise, recorre à Teoria Ator-Rede (TAR), de Bruno Latour. Nesse sentido, o artigo oferece uma reflexão relevante ao demonstrar que o trabalho científico não é neutro nem alheio às relações sociais. Ao contrário, os cientistas, em suas trajetórias, estabelecem relações estratégicas com outros pesquisadores e instituições, frequentemente marcadas por tensões e conflitos.

No âmbito das relações entre Estados Unidos e América Latina, Ricardo dos Santos Batista e José Lúcio Costa Ramos apresentam o artigo “Nurses in the ‘good neighbourhood’: the Special Public Health Service (SESP) and the creation of the Nursing School of the Federal University of Bahia (EEUFBA)“. Este trabalho também questiona a visão de que países como o Brasil desempenharam um papel passivo na aplicação de conhecimentos científicos provenientes do Norte Global. Os autores evidenciam o papel ativo do contexto local e a importância das ações de indivíduos específicos na implementação e no desenvolvimento de programas científicos. Em particular, analisam o papel do Serviço Especial de Saúde Pública (SESP), que, entre 1942 e 1960, atuou como uma agência bilateral Brasil–Estados Unidos, na criação da Escola de Enfermagem da Universidade Federal da Bahia (EEUFBA).

O artigo “Conhecimento médico em trânsito: um estudo sobre o circuito germano-hispano-brasileiro (1920–1930)“, de Renilson Beraldo, também enfatiza o papel ativo dos cientistas em seus contextos locais dentro das redes transnacionais de circulação do conhecimento. A partir de uma abordagem teórico-metodológica da história transnacional da ciência, o autor analisa a circulação de ideias médicas e psiquiátricas no circuito germano-espanhol-brasileiro nas primeiras décadas do século XX. Para isso, examina a atuação de livrarias e editoras espanholas, os intercâmbios entre associações de especialistas e revistas médicas brasileiras e espanholas, bem como a circulação e apropriação de traduções de livros e tratados. Para além da descrição desses fluxos, o principal aporte do artigo reside na análise das formas de apropriação desse léxico e conhecimento científico por parte de psiquiatras brasileiros. Esse enfoque permite compreender como “os atores locais possuem estratégias ao se relacionarem com conceitos, técnicas e ideias originadas em outros locais de produção” (p. 172), em um circuito de produção do conhecimento que não é unidirecional.

Por fim, Gleidylucy Oliveira e Rafael Cardoso Sampaio apresentam o artigo “Ciências Sociais Computacionais e análise de conteúdo: reflexões a partir da produção latino-americana“. Considerando que as Ciências Sociais da Comunicação, especialmente no Norte Global, vêm incorporando avanços teóricos e metodológicos a partir da computação, o objetivo deste estudo é analisar de que forma pesquisadores da América Latina/ Sul Global estão integrando o uso da análise computacional (AC) nesse campo. Para isso, realizam uma análise cienciométrica de 471 artigos disponíveis na base SciELO no período de 2012 a 2021, com atenção especial às técnicas de análise automatizada e text as data. Os resultados indicam uma forte presença dessas técnicas, embora nem sempre acompanhada do uso de bibliografia especializada sobre análise textual. O artigo, assim, contribui para compreender as transformações metodológicas e epistemológicas nas Ciências Sociais latino-americanas no contexto da incorporação de ferramentas computacionais.

O dossiê Estudos Sociais das Ciências no Brasil: pesquisas e abordagens, portanto, reúne contribuições relevantes para o campo dos Estudos Sociais da Ciência no Brasil e de forma mais ampla. Por meio de diferentes abordagens das Ciências Sociais — historiográfica, sociológica e etnográfica —, aborda questões de grande atualidade, como os negacionismos científicos, as campanhas de desinformação, o desenvolvimento da computação, a hierarquização da produção científica e a sub-representação das mulheres nas instituições científicas. Tudo isso mantendo em destaque a dimensão política da ciência — ou seja, seu envolvimento em relações de poder — e evidenciando o papel ativo dos centros científicos do Sul Global na apropriação e produção do conhecimento.

Convidamos você a conhecer os Estudos Sociais da Ciência no Brasil a partir deste dossiê. Todos os artigos estão disponíveis em acesso aberto no site da Revista de Estudios Brasileños.

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