Em 1945, um jovem poeta pernambucano publicava O engenheiro, um livro que mudaria para sempre os rumos da poesia brasileira. Oito décadas depois, essa obra de João Cabral de Melo Neto continua sendo um farol de lucidez, ética e rigor estético. Para celebrar os 80 anos de sua publicação, o Centro de Estudos Brasileiros da Universidade de Salamanca organiza o seminário “João Cabral de Melo Neto: o engenheiro da poesia”, que acontecerá no dia 3 de novembro, a partir das 12h (horário da Espanha), em formato on-line e em português. O evento será transmitido pelo canal do CEB no YouTube.
Figura central da literatura do século XX, João Cabral de Melo Neto (1920–1999) foi um poeta que se rebelou contra o sentimentalismo dominante na lírica moderna. Sua escrita, austera e cerebral, construiu-se sobre a recusa do transbordamento emocional e sobre uma aposta na precisão da linguagem, na estrutura e na clareza. Não por acaso, foi chamado de poeta da razão, engenheiro da poesia. Seu O engenheiro funciona como um manifesto dessa busca por uma “arquitetura verbal” capaz de transformar a palavra em matéria sólida e ética.
O seminário reúne destacados pesquisadores brasileiros vinculados a universidades de referência, que oferecerão leituras renovadas sobre diferentes aspectos da obra cabralina.
Felipe França Ferreira (UFRN, Brasil) propõe, em “João Cabral e Morante: oposições e aproximações”, um diálogo entre a poesia cabralina e a tauromaquia espanhola, explorando paralelos entre o poeta e a arte de toureiros como Manolete e Morante de la Puebla.
Rafael Barros de Alencar (UFRN, Brasil) analisará, em “Arquitetura da e(co)moção: João Cabral e a máquina poética”, a concepção do poema como uma machine à émouvoir, uma “máquina de emoção” que combina razão e sensibilidade a partir do fundamento arquitetônico da palavra.
Rosanne Bezerra de Araújo (UFRN, Brasil) abordará “O poeta andando Sevilha”, uma leitura dos últimos livros do autor — Sevilha andando e Andando Sevilha —, nos quais a cidade andaluza se torna um espaço íntimo, símbolo de liberdade e desejo, e testemunho de seu profundo vínculo com a Espanha.
Roniere Menezes (CEFET-MG, Brasil) apresentará “Reflexos da canção popular na poesia de João Cabral”, centrado nas relações entre sua obra e a música — dos ritmos nordestinos e da canção espanhola à tradição oral e à música serial —, revelando novas dimensões de sua arte.
Samuel Anderson de Oliveira Lima (UFRN, Brasil) encerrará com “A engenharia linguístico-poética de João Cabral de Melo Neto”, um estudo sobre a construção meticulosa do verso como estrutura arquitetônica, herança tanto do Barroco gongorino quanto do pensamento racional moderno.
O encontro busca não apenas comemorar o aniversário de O engenheiro, mas também refletir sobre a atualidade da poesia cabralina no século XXI.