O número 20 da Revista de Estudios Brasileños reúne um dossiê dedicado ao Bicentenário da Independência do Brasil. Seus seis artigos examinam as dimensões políticas, territoriais, jurídicas e simbólicas de um processo histórico que não pode ser reduzido ao Grito do Ipiranga nem à imagem tradicional de uma separação pacífica e negociada com Portugal.
A comemoração do Bicentenário, celebrada em 2022, ofereceu uma oportunidade para revisar as narrativas construídas em torno do nascimento do Brasil como Estado independente. Com esse propósito, a Revista de Estudios Brasileños (REB), publicada por Ediciones Universidad de Salamanca em colaboração acadêmica com a Universidade de São Paulo (USP), dedica o dossiê de seu número 20 —volume 9— à apresentação de algumas das linhas mais relevantes da pesquisa contemporânea sobre aquele período.
O dossiê é coordenado por José Manuel Santos Pérez, professor titular de História da América da Universidade de Salamanca e diretor do Centro de Estudos Brasileiros (CEB). No texto de apresentação, Santos Pérez situa a comemoração no complexo contexto político brasileiro de 2022, marcado pelas eleições presidenciais e pela disputa entre diferentes interpretações do passado nacional. Diante da recuperação de mitos como os de uma independência “pacífica”, “negociada” e protagonizada por um povo brasileiro já constituído, o historiador ressalta a necessidade de analisar criticamente um processo atravessado por conflitos políticos, confrontos armados, interesses internacionais e profundas desigualdades sociais.
A apresentação também recorda as iniciativas desenvolvidas pelo CEB por ocasião do Bicentenário, entre elas exposições, conferências, mesas-redondas, concertos e diferentes publicações. O dossiê faz parte desse legado e pretende oferecer novas referências para compreender a criação do Estado e da nação brasileiros a partir de uma perspectiva distante das narrativas fundacionais mais idealizadas.
O Brasil e o espaço do Rio da Prata
Os dois primeiros artigos deslocam o foco para as conexões entre o Rio de Janeiro, a Banda Oriental e o Rio da Prata. Elsa Caula analisa a situação dos oficiais e soldados do Real Exército Espanhol refugiados na legação espanhola no Rio de Janeiro durante os anos anteriores à Independência. A pesquisa reconstrói as redes de lealdade, espionagem e poder articuladas em torno dos chamados “leais fernandinos”, bem como as tentativas de recuperar para a Coroa espanhola os territórios perdidos para os movimentos insurgentes. O estudo revela a estreita interdependência entre as monarquias espanhola e portuguesa em um cenário de crescente instabilidade.
Felipe Riccio Schiefler aborda a presença, no Rio de Janeiro, de exilados procedentes do Rio da Prata e sua relação com a ocupação da Banda Oriental entre 1815 e 1818. O artigo permite observar a circulação de pessoas, projetos e ideias políticas entre territórios que, habitualmente, foram estudados separadamente. Ambos os trabalhos mostram que a Independência do Brasil deve ser compreendida no contexto de uma transformação regional mais ampla, vinculada à crise das monarquias ibéricas e à criação de novos espaços políticos na América.
Projetos políticos e organização do Império
Luis Guilherme Camfield Barbosa e Reginaldo Teixeira Perez concentram seu estudo em José Bonifácio de Andrada e Silva, uma das figuras mais relevantes e controversas da Independência. A partir da análise de três textos políticos redigidos entre 1821 e 1822, os autores examinam sua atuação como “intelectual político” e defendem que seu pensamento expressou as posições de uma parte da elite luso-brasileira, especialmente a paulista, diante dos rumos adotados pela Revolução Liberal do Porto e pela separação de Portugal.
A configuração institucional do novo país é o objeto do artigo de Daniel Machado Gomes e Tiago da Silva Cicilio. A pesquisa estuda o Poder Moderador, atribuído ao imperador pela Constituição de 1824, e questiona a ideia de que se trataria apenas de uma adaptação das teorias do pensador francês Benjamin Constant. A análise da imprensa de 1822 e 1823 mostra que a defesa de um quarto poder já estava presente antes da aprovação da Constituição e respondia a um projeto político que pretendia conjugar ordem e liberdade.
Memória, identidade e ensino
A dimensão social e simbólica da Independência aparece no artigo de Lina Maria Brandão de Aras e Sérgio Armando Diniz Guerra Filho, dedicado à festa do Dois de Julho. A celebração recorda a entrada do Exército Pacificador em Salvador, em 1823, e o fim dos confrontos armados na Bahia. No entanto, sua incorporação à narrativa nacional não foi simples: a memória baiana concede protagonismo a setores populares, pessoas negras, indígenas e mulheres que foram relegados nas narrativas hegemônicas sobre a fundação do Brasil.
Por fim, André Luan Nunes Macedo analisa dezessete materiais didáticos publicados na Argentina, no Equador, no México e na Venezuela. O estudo constata a permanência de uma representação da Independência brasileira como um processo pacífico, com poucas referências aos conflitos locais. Ao examinar como esse episódio é transmitido nas salas de aula latino-americanas, o artigo convida a revisar as narrativas herdadas da historiografia do século XIX e do início do século XX.
Em conjunto, o dossiê oferece uma leitura crítica e plural da Independência, atenta às suas conexões internacionais, disputas políticas e diferentes memórias. O número completo da revista pode ser baixado gratuitamente em formato PDF.
Desenvolvido pelo EmbedPress