Revista de Estudios Brasileños n. 26

O número 26 da REB analisa a Amazônia diante dos desafios climáticos, democráticos, sociais e multilaterais contemporâneos.

Revista de Estudios Brasileños dedica seu número 26 à Amazônia e aos desafios da COP30

Salamanca, 24 de agosto de 2026 | Elisa Tavares Duarte
Editora da Revista de Estudios Brasileños (REB)

A Revista de Estudios Brasileños (REB), editada por Ediciones Universidad de Salamanca e publicada pelo Centro de Estudios Brasileños (CEB), lança seu número 26 (volume 12), dedicado à análise da Amazônia no contexto da COP30, realizada em Belém do Pará, em novembro de 2025.

A partir de uma perspectiva interdisciplinar e com especial atenção às relações internacionais, o dossiê reúne dez artigos e uma entrevista que abordam alguns dos principais desafios enfrentados atualmente pela região amazônica: a crise climática, a governança ambiental, a justiça climática, a participação social, os direitos dos povos indígenas, as desigualdades de gênero, as migrações climáticas e o futuro do multilateralismo.

A escolha da Amazônia como eixo do número responde à sua importância estratégica para o equilíbrio climático mundial e para a transição ecológica, mas também à extraordinária complexidade social e política de um território compartilhado por oito países, além da Guiana Francesa, e habitado por aproximadamente 47 milhões de pessoas, entre elas mais de dois milhões de indígenas pertencentes a mais de 400 povos.

Uma colaboração acadêmica entre Salamanca, Bahia e São Paulo

A preparação deste número contou com a colaboração de Denise Vitale, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), e Danielle Hanna Rached, do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (IRI-USP), coordenadoras do dossiê.

A participação das duas pesquisadoras reforça uma das linhas fundamentais de atuação da REB: a construção de espaços de cooperação acadêmica entre a Universidade de Salamanca e universidades e centros de pesquisa brasileiros. Neste caso, a colaboração com pesquisadoras de duas universidades públicas situadas em diferentes regiões do Brasil permite incorporar perspectivas complementares sobre a questão amazônica e aproximar o debate desenvolvido em Salamanca de importantes linhas de pesquisa brasileiras sobre democracia, participação, relações internacionais e governança ambiental.

Crise climática, cidades e novas formas de vulnerabilidade

Uma primeira linha temática do dossiê analisa os efeitos concretos da emergência climática e os desafios que ela impõe às políticas públicas. A adaptação das cidades amazônicas ocupa um lugar de destaque, com especial atenção à Região Metropolitana de Manaus e às dificuldades decorrentes da insuficiência de políticas e instrumentos de adaptação climática.

Ao lado da dimensão urbana, o número incorpora o debate sobre os deslocamentos humanos provocados pelas mudanças climáticas, examinando a relação entre crise ambiental e migrações e as possibilidades de avançar na construção de mecanismos de governança migratória na América do Sul e, particularmente, na Amazônia.

Essas contribuições permitem compreender a crise climática não apenas como um problema ambiental, mas também como um fenômeno com profundas consequências sociais, territoriais e políticas.

Justiça climática, gênero e participação das mulheres

A justiça climática e a perspectiva de gênero constituem outro eixo transversal da publicação. O dossiê examina, por um lado, a inserção das mulheres nos espaços institucionais de governança climática em Belém e, por outro, sua realidade cotidiana em áreas protegidas e territórios indígenas.

Os estudos mostram que os avanços institucionais não eliminam necessariamente desigualdades históricas: persistem obstáculos à participação das mulheres nos processos de tomada de decisão, assim como situações de violência e desigualdade relacionadas tanto à atuação quanto às omissões do Estado.

Povos indígenas, sociedade civil e mobilização diante da crise climática

Um dos núcleos centrais do número 26 é o protagonismo dos povos indígenas e dos movimentos sociais. Diversas contribuições estudam seus repertórios de protesto, suas estratégias de articulação política e sua crescente presença nas negociações climáticas nacionais e internacionais.

As análises revelam uma dupla realidade: por um lado, o fortalecimento das redes e estratégias de mobilização indígena e uma maior capacidade de levar suas reivindicações às COPs; por outro, a persistência de importantes limitações estruturais para que essa participação se traduza em uma incidência efetiva nos processos de tomada de decisão.

Essa reflexão amplia-se para o conjunto da sociedade civil. A Cúpula dos Povos, realizada durante a COP30, adquire especial relevância como espaço de articulação de organizações indígenas, movimentos camponeses e outros coletivos provenientes do Brasil e de diferentes países.

Democracia, governança e futuro do multilateralismo

A COP30 também serve como ponto de partida para uma reflexão mais ampla sobre as possibilidades da ação climática em um cenário marcado simultaneamente pela crise ambiental, pelo enfraquecimento das democracias e pela erosão do multilateralismo.

O dossiê coloca, assim, uma questão que atravessa boa parte de suas contribuições: em que medida as instituições nacionais e internacionais são capazes de transformar compromissos climáticos em políticas efetivas e, ao mesmo tempo, incorporar aos processos decisórios as populações diretamente afetadas por suas decisões.

O olhar se estende ainda à Amazônia andina e ao debate sobre os modelos de desenvolvimento e a economia verde, questionando políticas que historicamente favoreceram o desmatamento e explorando alternativas de gestão territorial baseadas na conservação, na transparência e em uma maior participação democrática.

Entrevista: a OTCA e o desafio de transformar acordos em ação

O número se completa com a entrevista “A Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA): limites e possibilidades”, realizada por Denise Vitale e Danielle Hanna Rached com Biviany Rojas Garzón, chefe de gabinete da OTCA.

A conversa oferece um olhar privilegiado sobre os avanços e as dificuldades da cooperação entre os países amazônicos e sobre o papel que a OTCA pode desempenhar na articulação das agendas climática, de biodiversidade e de proteção da Amazônia. A entrevista aborda ainda o legado da COP30 e as dificuldades para traduzir os grandes consensos internacionais em políticas e mecanismos efetivos de implementação.

Nesse sentido, uma das ideias centrais que emergem da conversa é a necessidade de avançar em direção a um multilateralismo capaz não apenas de formular compromissos, mas também de implementá-los, fortalecendo a cooperação regional, o intercâmbio de informações, a definição de prioridades comuns e a coordenação entre os países amazônicos.

Um olhar plural sobre o futuro da Amazônia

Em conjunto, o número 26 da REB propõe pensar a Amazônia a partir da interação entre clima, democracia, direitos, território e cooperação internacional. Diante de uma crise que ultrapassa as fronteiras nacionais, as pesquisas reunidas mostram a necessidade de fortalecer tanto as instituições multilaterais quanto os mecanismos de participação dos atores que historicamente permaneceram à margem das grandes negociações internacionais.

Povos indígenas, comunidades tradicionais, mulheres, movimentos sociais, instituições públicas e organismos multilaterais aparecem, assim, como atores imprescindíveis de um debate cujo alcance transcende a própria região amazônica. Como destacam as coordenadoras na apresentação do dossiê, enfrentar a crise climática exige aprimorar os processos de tomada de decisão, ampliar o apoio social aos acordos alcançados e reforçar sua legitimidade perante os diferentes Estados.

O número 26 (vol. 12) da Revista de Estudios Brasileños pode ser consultado na íntegra e em acesso aberto neste link ou no arquivo abaixo.

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