BioBrasil: a educação especial no Brasil

Entrevistamos as professoras Tícia Cavalcante e Elda Brito sobre alguns dos grandes desafios e avanços do sistema educacional brasileiro.

No dia 23 de janeiro de 2026, o Centro de Estudios Brasileños da Universidad de Salamanca realizou a mesa-redonda Panorama de la educación especial en España y en Brasil: diálogos posibles, um espaço de reflexão sobre um dos grandes desafios de nossos sistemas educacionais: como construir escolas verdadeiramente inclusivas.

Neste podcast, conversamos com as professoras brasileiras Tícia Cassiany Ferro Cavalcante e Elda Rosa Rodrigues da Silva Brito, especialistas em educação especial, para compreender como esse modelo evoluiu no Brasil, quais são seus avanços e quais ainda são os grandes desafios.

Da educação especial à educação inclusiva

No Brasil, a educação especial não é um sistema paralelo, mas uma política pública integrada ao Ministério da Educação. Desde a Constituição de 1988 e, especialmente, a partir da política nacional de 2008, o país tem avançado em direção a um modelo inclusivo. Mas o que significa, na prática, inclusão?

Significa que estudantes com deficiência, transtornos do desenvolvimento ou outras necessidades específicas estudam em salas de aula regulares, junto a colegas da mesma idade. Além disso, contam com apoio especializado em horário complementar, por meio do chamado Atendimento Educacional Especializado (AEE). Esse professor de apoio

ele vai trabalhar com os recursos que podem garantir a acessibilidade desse estudante e garantir não só o acesso e a permanência, mas a aprendizagem e participação.

O grande desafio: a formação docente

Um dos pontos mais sensíveis é a formação do professorado. Embora exista formação continuada promovida pelo Ministério da Educação, as entrevistadas destacam que o docente frequentemente se sente sozinho diante dessa tarefa. A transição de escolas especializadas para escolas regulares exige articulação entre escola, família, equipes especializadas e políticas públicas. Como explica Elda Brito:

[os alunos] eles saem de centros especializados para ir para uma escola comum. com acesso a professores e a escola tem que estar integrada (...). O professor tem que contar com alguns mecanismos, por exemplo, existe o PEI, que é um plano educacional individualizado, que tende a personalizar a aprendizagem desses alunos. Mas é um [trabalho] conjunto, a família tem que entrar, a escola tem que entrar, devem existir políticas também que dêem essa assistência para que o conjunto possa funcionar, não pode ficar só a cargo do professor. São muitas engrenagens que devem funcionar juntas.

Além disso, persiste uma barreira cultural: a tendência de comparar os alunos a partir de uma ideia de “normalidade”. Mudar essa perspectiva é tão importante quanto mudar as leis.

O professor ainda tem uma perspectiva muito da normalização, que é uma barreira grande, de entender e perceber todos os estudantes a partir dessa perspectiva mais do normal e do anormal, e de comparar um estudante com outro. Então, isso precisa realmente avançar.

Desigualdades regionais e acessibilidade

O Brasil é um país enorme e profundamente desigual. Não é o mesmo falar de inclusão em grandes centros urbanos e em zonas rurais afastadas. O acesso à tecnologia assistiva, à formação docente ou a recursos especializados varia consideravelmente.

Às vezes o professor fica muito sozinho nesse trabalho. E também a gente garantir que essa formação chegue em todos os lugares, porque a gente percebe diferenças. Por exemplo, em uma rede de ensino de um município, vou falar do estado de Pernambuco, existe uma zona rural, um lugarejo menor que... fica muito esquecido nesse processo. Então, garante que isso chegue para todos, não só nos maiores centros urbanos, mas em todos os lugares.

No que diz respeito à acessibilidade arquitetônica, existem recursos federais destinados à adaptação dos edifícios escolares. No entanto, o desafio não é apenas físico: a acessibilidade também é pedagógica e tecnológica.

Um dos pontos mais interessantes da conversa foi a mudança de enfoque: deixar de centrar-se na “deficiência” para valorizar a diversidade e as potencialidades. Surge então o conceito de DUA — Desenho Universal para a Aprendizagem: planejar desde o início pensando na diversidade da sala de aula, não como exceção, mas como regra. Esse enfoque não beneficia apenas estudantes com deficiência, mas todos, pois cada aluno aprende de maneira diferente.

O que facilitaria mais era um planejamento antecipado para que ele não caísse sempre em situações emergenciais de apagar incêndio ou de sanar situações pontuais. Então, aí entra a questão do DUA, o desenho universal de aprendizagem, que seria muito bom que as escolas brasileiras começassem a implementar, porque é um trabalho que é feito de forma preventiva. A gente pensa na diversidade, não é só os alunos que apresentam um laudo de alguma deficiência. Mas o professor pensar nessa diversidade desde o seu planejamento. Ou seja, eu vou criar um projeto, um plano, um projeto guarda-chuva que me permita pensar no plano A, B, C. E se eu tiver um aluno que tenha uma deficiência, eu posso aplicar, e não situações emergenciais.

Olhando para o futuro

Para onde caminha a educação inclusiva no Brasil? As professoras concordam que o avanço depende em grande medida do contexto político e do investimento público. Pode haver progresso — mas também retrocessos. Ainda assim, há sinais esperançadores: novas gerações de docentes com uma visão mais aberta à inclusão e uma preocupação crescente com a aprendizagem e a participação, não apenas com o acesso.

O desafio é consolidar três pilares fundamentais:

  • Apoio humano (formação e equipes especializadas).

  • Recursos materiais (tecnologia assistiva, acessibilidade física e digital).

  • Apoio institucional (políticas públicas estáveis e comprometidas).

A educação inclusiva não é apenas uma política educacional. É uma declaração de princípios sobre o tipo de sociedade que queremos construir: uma sociedade que não se limite a integrar, mas que valorize a diversidade como ponto de partida.

Agradecemos às professoras Tícia Cassiany Ferro Cavalcante e Elda Rosa Rodrigues da Silva Brito por sua generosidade e clareza nesta conversa. E convidamos todos a continuar explorando os diálogos entre Brasil e Espanha na área educacional por meio das atividades do Centro de Estudios Brasileños.

As entrevistadas

Tícia Cassiany Ferro Cavalcante é doutora em Psicologia Cognitiva pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE, Brasil). Atualmente é professora titular do Departamento de Psicologia, Inclusão e Educação do Centro de Educação da UFPE, bem como do Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGEdu) e do Mestrado Profissional em Educação Básica (MPEB), UFPE. Também é coordenadora do Centro de Estudos Inclusivos (CEI) e do Centro de Estudos em Educação e Linguagem (CEEL/UFPE), além de líder do Grupo de Estudo e Pesquisa em Acessibilidade e Inclusão (GEPAI). É membro da Rede SisAssistiva, vinculada ao MCTI/Brasil.

Elda Rosa Rodrigues da Silva Brito é professora de Espanhol no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Baiano (Brasil), onde atua com a língua espanhola em contextos interculturais e de imersão linguística. Atualmente desenvolve pesquisa de doutorado centrada na implementação de metodologias ativas, cultura maker, abordagem STEAM e uso de Fab Lab na educação básica brasileira, com especial atenção às escolas públicas do estado de Sergipe. Analisa como esses dispositivos pedagógicos podem contribuir para a redefinição da prática docente, o protagonismo estudantil e a construção de ambientes de aprendizagem mais criativos, colaborativos e inclusivos.

Para saber mais

  • Publicación de la REDSEI/OEI sobre educación inclusiva en Brasil: análise da transição para um sistema educacional inclusivo no Brasil — examina como a política de educação especial tem se alinhado à Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e como fortalece a inclusão escolar.

  • Artigo sobre políticas de educação especial no Brasil: disputas e perspectivas — analisa os limites, avanços e retrocessos das diretrizes atuais da educação especial brasileira, considerando o contexto político recente. Kassar, M. de C. M.; Rebelo, A. S. e Oliveira, R. T. C. de. (2019). Embates e disputas na política nacional de Educação Especial brasileira. Educ. Pesqui., 45. Disponível aqui

  • Instituto Rodrigo Mendes — organização que promove educação inclusiva de qualidade no Brasil, por meio de programas de formação e pesquisa.

BioBrasil é uma coluna do programa Brasil es mucho más que samba dedicada a divulgar a biografia de expertos, profissionais e personagens (históricos e atuais) da vida cultural, política e social brasileira. Brasil es mucho más que samba se emite todas às terças-feiras, às 17h30, em Rádio USAL. Para sugerir uma pauta ou contatar com a equipe do programa, escreva ao masquesamba@usal.es.

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