Editora da Revista de Estudios Brasileños (REB)
O Centro de Estudos Brasileiros realizou, no dia 1º de outubro de 2026, a mesa-redonda “Eleições no Brasil 2026: política, eleitorado e economia diante das urnas”, um encontro dedicado à análise de algumas das principais questões relacionadas ao processo eleitoral brasileiro a partir de diferentes perspectivas acadêmicas. A sessão, realizada no salão de atos do CEB e transmitida ao vivo pelo seu canal no YouTube, está agora disponível na íntegra para visualização on-line.
Realizada apenas três dias antes do primeiro turno das eleições, a mesa reuniu Mercedes García Montero, professora titular de Ciência Política e da Administração da Universidade de Salamanca; Filipe Vicentini Faeti, pesquisador em estágio de pós-doutorado na Universidade de Salamanca; e Alfredo Arahuetes García, catedrático de Economia Aplicada da Universidad Alfonso X el Sabio. A sessão foi moderada por José Manuel Santos , diretor do Centro de Estudos Brasileiros. Transcripción
Ao longo de quase duas horas, os participantes abordaram o cenário eleitoral a partir de três grandes eixos: a posição do Brasil no atual ciclo político latino-americano, a polarização e o comportamento dos eleitores que não se identificam com os principais polos políticos do país, e o papel da economia e de sua percepção social na decisão do voto. O debate também incorporou questões como a fragmentação parlamentar, o presidencialismo de coalizão, as redes sociais e a desinformação, a segurança, a situação das instituições democráticas e a dimensão internacional das eleições.
O Brasil e o ciclo político latino-americano
Mercedes García Montero situou as eleições brasileiras no contexto de um cenário regional caracterizado, segundo sua análise, por mudanças nas tendências eleitorais, uma crescente polarização e a redução dos espaços políticos moderados. Sua intervenção analisou as semelhanças e particularidades do caso brasileiro em perspectiva comparada com outros processos eleitorais recentes na América Latina.
Durante sua intervenção, também dedicou atenção ao papel das tecnologias digitais e das redes sociais nas campanhas eleitorais, à desinformação, à fragmentação dos sistemas partidários, às relações entre os poderes Executivo e Legislativo e às tensões que esses processos podem gerar sobre as instituições democráticas.
Os eleitores que escapam à polarização
A segunda intervenção ficou a cargo de Filipe Vicentini Faeti, que concentrou sua análise nos eleitores não posicionados, ou seja, aqueles que não se identificam com nenhum dos dois grandes polos que estruturaram boa parte da competição política brasileira nos últimos anos.
A partir de dados correspondentes ao período de 2010 a 2025, Vicentini mostrou a progressiva redução desse grupo em um contexto de crescente polarização. Precisamente por isso, destacou o paradoxo de que um segmento cada vez menor do eleitorado possa adquirir especial relevância em eleições decididas por margens estreitas. Sua análise abordou também as características sociodemográficas desses eleitores, seu interesse pela política, sua relação com as instituições e sua percepção da democracia.
Qual é o peso da economia no voto?
Alfredo Arahuetes García incorporou ao debate a perspectiva econômica e levantou uma questão central: até que ponto os indicadores econômicos se refletem diretamente no comportamento eleitoral ou o fazem por meio da percepção que a população tem de sua própria situação.
Sua intervenção analisou diferentes variáveis relacionadas à vida cotidiana e à economia brasileira, entre elas o custo de vida e a inflação dos alimentos, o emprego, o poder aquisitivo dos salários, o endividamento das famílias, as taxas de juros, a pobreza, a fome e os programas sociais. Também abordou a posição econômica internacional do Brasil, suas relações comerciais e financeiras, sua capacidade industrial e as relações econômicas que mantém tanto com a China quanto com as economias ocidentais.
Um debate aberto sobre as eleições brasileiras
Após as intervenções, a mesa abriu espaço para perguntas do público e para o intercâmbio entre os especialistas. Entre as questões levantadas estiveram o crescente peso do Congresso e do Senado no sistema político brasileiro, as relações entre os poderes do Estado, o papel das emoções e das identidades políticas no comportamento eleitoral e as dificuldades que as elevadas taxas de juros representam para o investimento e o crescimento econômico.
A sessão oferece, assim, uma abordagem multidisciplinar das eleições brasileiras de 2026, reunindo ciência política, estudos sobre comportamento eleitoral e análise econômica para compreender tanto os fatores conjunturais da campanha quanto algumas das transformações de maior alcance que atravessam a política e a sociedade brasileiras.