Nesta edição do BMQS, dedicamos a coluna BioBrasil a João Guimarães Rosa, escritor, diplomata, médico, poliglota e alquimista da língua. Um autor que transformou o interior do Brasil em um universo inteiro e a linguagem em um laboratório onde tudo borbulha enquanto é cozido em fogo lento.
E não por acaso: neste ano, o V Congreso Internacional de Literatura Brasileña presta homenagem ao autor com o título “Guimarães Rosa: laboratorio y sendas del lenguaje y del mundo”. Dirigido pelo catedrático da área de português Pedro Serra, o congresso acontecerá na Facultad de Filología da USAL, de 9 a 11 de setembro de 2026, organizado pelo CEB, com o apoio da Fundación Cultural Hispano Brasileña.
No podcast, fazemos um percurso pela vida do autor, mas, sobretudo, mergulhamos em sua obra — especialmente em Grande Sertão: Veredas. Um livro que pode ser lido como romance, como poema… e como travessia.
Quem foi João Guimarães Rosa?

João Guimarães Rosa nasceu em Cordisburgo, no estado de Minas Gerais, em 1908, sendo o primeiro dos seis filhos de Florduardo Pinto Rosa e Francisca Guimarães Rosa (apelidada Chiquitinha). Formou-se em Medicina, profissão que exerceu por um período, antes de ingressar no Itamaraty e tornar-se diplomata.
Enquanto atuava como cônsul em Hamburgo, entre 1938 e 1942, ele e sua segunda esposa, Aracy de Carvalho, ajudaram muitos judeus a fugir do nazismo e a entrar ilegalmente no Brasil. Aracy de Carvalho é, inclusive, a única mulher brasileira homenageada no Jardim dos Justos entre as Nações, em Jerusalém, em Israel.
Após deixar a Alemanha, Rosa ainda trabalhou como diplomata nas embaixadas do Brasil em Bogotá (Colômbia) e Paris (França).
Poliglota incansável, começou a estudar idiomas ainda criança e chegou a falar fluentemente, além do português, francês, alemão, inglês, espanhol, italiano… e até esperanto.
Foi eleito para ocupar a cadeira nº 2 da Academia Brasileira de Letras (ABL) em 1963. No entanto, temendo a emoção da cerimônia, adiou sua posse até 1967, poucos dias antes de morrer prematuramente, aos 59 anos, quando se encontrava no auge de sua carreira literária e diplomática. Em seu discurso de posse, quase como uma profecia, afirmou:
«Se morremos, é para provar que vivemos».
Como bom imortal, foi sepultado no Mausoléu da ABL, no cemitério de São João Batista, no Rio de Janeiro.
O laboratório da linguagem
Grande Sertão: Veredas, publicado em 1956, é seu único romance e aparece no mesmo ano que Corpo de Baile (conjunto de narrativas). Sua estrutura é singular: um narrador, Riobaldo, que fala a um ouvinte letrado — um “senhor” que quase não responde — e lhe conta sua vida, suas guerras, seus dilemas, seus pactos… e, no centro, o amor e o enigma de Diadorim.
É um romance de aventuras, sim, mas também de uma metafísica de barro: Deus, diabo, destino, culpa, coragem, desejo… tudo misturado ao pó e à água do sertão.
Sua escrita se alimenta simultaneamente de duas fontes: da oralidade e do mundo do interior — veredas, jagunços, gado, seca e milagres — e de uma inteligência literária capaz de reinventar o português por dentro, como se o desmontasse e o montasse novamente. Rosa faz algo que assusta um pouco no início: inventa palavras, dobra a sintaxe, mistura registros, incorpora provérbios, neologismos, arcaísmos e tecnicismos. Às vezes, soa como se a própria língua estivesse sonhando.
E isso não é um capricho: é uma estratégia para que o sertão não seja um simples cartão-postal, mas uma experiência sensorial completa. Para que o leitor “ouça” a mente de Riobaldo por dentro. De fato, Grande Sertão: Veredas pode ser descrito como uma obra em que o sertão é construído na linguagem.
Segundo a crítica Walnice Nogueira Galvão, Grande Sertão alcançou um nível ao qual poucas obras da literatura brasileira chegaram, porque
era uma novidade nas letras brasileiras. Até então, o regionalismo tinha pouca elaboração estética e privilegiava muito o documento. Então aparece um livro ligado ao regionalismo pela matéria, pelo assunto, pelos personagens, mas com um grau de elaboração estética nunca visto antes
IHU online, 2006, p. 4
E é que, nesse caso, quando falamos do sertão, não falamos apenas de uma “região interior” ou de “campo”. Em Guimarães Rosa, o sertão torna-se uma categoria mental: um lugar onde se decide o humano. E o extraordinário é que isso se dá por meio de uma técnica aparentemente contraditória: quanto mais local, mais universal. Não por acaso, o próprio Rosa afirmou:
“O sertão é do tamanho do mundo”.
Se Grande Sertão: Veredas impõe respeito, mas ainda assim você deseja dar uma oportunidade à obra de João Guimarães Rosa, deixamos aqui algumas sugestões do programa. Em primeiro lugar, Sagarana (1946): contos em que já se percebe a combinação entre o mundo rural e a experimentação linguística. Em seguida, Primeiras Estórias (1962): um conjunto de narrativas mais condensadas, no qual se encontram textos míticos como “A terceira margem do rio”.
Para saber mais
Discurso completo da posse de João Guimarães Rosa en la ABL.
Instituto Moreira Salles (2006). Cadernos de Literatura Brasileira: João Guimarães Rosa, nº 21-21.
Enciclopedia Itaú Cultural (obra Grande sertão: veredas). Recuperado em 4 de fevereiro de 2026, de https://enciclopedia.itaucultural.org.br/obras/116600-grande-sertao-veredas.
IHU online (2006). Entrevista com Walnice Nogueira Galvão. Recuperado em 4 de fevereiro de 2026, de chrome-extension://efaidnbmnnnibpcajpcglclefindmkaj/https://www.ihuonline.unisinos.br/media/pdf/IHUOnlineEdicao178.pdf
BioBrasil é uma coluna do programa Brasil es mucho más que samba dedicada a divulgar a biografia de expertos, profissionais e personagens (históricos e atuais) da vida cultural, política e social brasileira. Brasil es mucho más que samba se emite todas às terças-feiras, às 17h30, em Rádio USAL. Para sugerir uma pauta ou contatar com a equipe do programa, escreva ao masquesamba@usal.es.