“O samba da minha terra”: entrevista Bruno Vale

Entrega com uma entrevista a Bruno Vale, diretor executivo geral da escola de samba Paraíso do Tuiuti.
Fonte: Página de Facebook.

Nesta entrega de “O samba da minha terra” apresentamos uma entrevista com o diretor executivo geral da escola de samba Grêmio Recreativo Paraíso do Tuiuti, de São Cristóvão, no rio de Janeiro (Brasil). A escola celebrará, no próximo 5 de abril, 70 anos de fundação. A escola está há sete anos desfilando no grupo especial das escolas de samba do Rio de Janeiro, defendendo as cores amarelo ouro e azul pavão, e sua melhor colocação foi no carnaval de 2018, com um segundo lugar, atrás da Beija-Flor de Nilópolis, por tão somente um décimo de pontos.

A escola é presidida por Renato Thor, e tem na assessoria de comunicação a Igor Ricardo, a quem agradecemos a oportunidade dessa entrevista. A entrevista aconteceu no dia 7 de março, quando, no Rio, começavam a ser flexibilizadas as normas de obrigatoriedade de uso de máscaras e quando autorizavam novamente os ensaios das escolas de samba nas ruas da cidade.

A Paraíso do Tuiuti este ano tem como enredo “Ka ríba tí ÿe – Que nossos caminhos se abram”, que trata de homenagear grandes personalidades negras mundiais. Depois de um ano com a Sapucaí fechada “a cal y canto”, este 2022, os desfiles acontecerão nos próximo 22 e 23 de abril e no dia 30, o desfile das campeãs. E a Paraíso do Tuiuti abre os desfiles do dia 23, Dia de São Jorge, santo de devoção de Bruno Vale, o nosso entrevistado, portanto, um dia cheio de significados também para a escola.

Na entrevista falamos sobre estes dois anos de pandemia e da relação com a escola. As primeiras reações foram de surpresa (como para todo mundo!), não se podia imaginar que alternaríamos temporadas de confinamento e uso de máscaras durante tanto tempo. Segundo Bruno Vale, “A gente não sabia o que esperar. Hoje, olhando para trás, a gente vê que o que veio para a gente foi até mais pesado do que o que nós esperávamos. Nós não sabíamos o tamanho do monstro, e o monstro foi muito maior do que nós pensávamos naquele momento”.

O ano de 2020 foi passando e “um mar de incertezas” se abriu: não se sabia se aconteceria o desfile de Carnaval de 2021, e com isso, as escolas de samba enfrentaram sérias dificuldades econômicas. Bruno Vale conta na entrevista que uma das maiores preocupações da escola era poder ajudar assistindo os trabalhadores e a toda a comunidade.

E aí, a gente começou a pensar nos nossos trabalhadores do Carnaval, porque quando não tem trabalho para eles, quando não tem entrada financeira para as escolas de samba das nossas instituições e, consequentemente, também não tem repasse financeiro, não tem repasse pela mão de obra trabalhada, para os verdadeiros é artistas do Carnaval, que são os nossos artistas dos barracões. Então, o ano de 2020 para 2021 foi um ano parado, praticamente parado. E a nossa maior preocupação foi dar o mínimo de assistência para o nosso pessoal.

Bruno Vale

Este ano de 2022, a Paraíso do Tuiuti defenderá o enredo “Ka ríba tí ÿe – Que nossos caminhos se abram”, que começou a ser preparado entre março e abril de 2021, mas “sempre com aquelas ameaças e incertezas, que vinham: era o número de contágios que aumentava, era uma onda nova que vinha…”. Finalmente, em junho de 2021, a prefeitura do Rio de Janeiro anunciava a reabertura da Cidade do Samba e pouco a pouco a vida e a alegria do Carnaval foram novamente ocupando seu legítimo lugar nos barracões das agremiações.

Quando a gente pensa no Carnaval das escolas de samba, a ideia que nos vem a mente não tem nada a ver com distanciamento social e uso de máscara. E como foi preparar um desfile e ensaiar com toda essa parafernália? Para Bruno Vale, esse momento foi “mergulhar no novo”. A escola teve que reduzir sua capacidade de público e estabelecer um robusto sistema de higienização, além do “passaporte da vacina”, o certificado de vacinação, como se conhece no Brasil.

A entrevista acontece no dia 7 de maço, dia em que a prefeitura do Rio de Janeiro anunciava uma série de medidas de flexibilização de uso de máscaras e de capacidade de público, além da volta dos ensaios de rua, que permitem a evolução dos componentes da escola. E a Paraíso do Tuiuti recebeu a notícia com enorme satisfação!

Uma coisa é você ensaiar dentro da quadra com todos os componentes estáticos, ninguém evoluindo, e outra coisa é ensaiar na rua. Ainda que não seja avenida oficial do desfile, é uma rua onde a gente consegue evoluir, a gente consegue ter uma organização da escola como um todo

Bruno Vale

Spoilers, mas nem tantos”, foi a resposta de Bruno Vale à pergunta, o que a Paraíso do Tuiuti levará este ano à Sapucaí? A escola levará um projeto desenvolvido pelo carnavalesco Paulo Barros, que exalta grandes referências, grandes personalidades negras mundiais. “Então, é um desfile que a gente está numa expectativa lá em cima, nós temos fantasias e alegorias que com certeza vão causar surpresa na Sapucaí. O spoiler que eu posso te dar é esse! Nós vamos causar muitas surpresas!”

Fechando a entrevista, Bruno Vale chamou a atenção para um fato de extrema importância, “a força da união do povo do samba”. A longo desses mais dois anos de pandemia, os apoios econômicos, decisivos para estas comunidades, foram escassos. Além disso, o entrevistado critica que, “durante algum tempo, podia fazer aglomerações em vários locais da cidade, mas quando era uma roda de samba, era criticado, era pesado, vinha crítica pesada”. Porém, como já dizia Nelson Sargento, “samba, agoniza, mas não morre”, por isso, em 2023 vai ter desfile, em abril (atentos!), e novamente a Sapucaí será o palco da maior festa do mundo!

E a Paraíso do Tuiuti abrirá o desfile no dia 23 de abril, “fazendo o nosso melhor sempre para levar cultura, para levar alegria, para levar o sorriso, para levar alegria para toda a população”.

A Bruno Vale e Igor Ricardo, nosso agradecimento pela oportunidade da entrevista. A toda a comunidade da Paraíso do Tuiuti, ficamos daqui na torcida por um desfile lindo, cheio de alegrias, samba no pé e, como sempre, muita saúde!

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